7.1.21

Sobre A Luz de Newton, de Hélia Correia

 



«O Vermelho fechou o livro com violência. E encarou severamente o Amarelo. As outras cores, em volta, suspiraram. Adivinhava‑se um momento desconfortável. Direi mais: um momento de tensão. Direi mais: um momento de combate. O Amarelinho tentou cruzar as pernas para tornar a posição mais consistente, mas não tinha joelhos para dobrar. As cores olhavam para o Vermelho, à espera. Ele fora eleito para as representar. E o Vermelho estava mesmo muito vermelho sob o efeito da cólera:

— Estamos à espera de uma explicação.

— Explicação… — repetiu o Amarelinho, para fazer tempo.

— Explicação de quê?

As cores pigarrearam e mexeram-se. Começaram até a segredar. Mas o Vermelho impôs a sua autoridade.

— Não te faças de parvo. Sabes bem.

Tirou de um saco um livro muito fino e exibiu-o a todos, como vira fazer num filme com uma prova em tribunal.

A Luz de Newton, primeira edição. As sete cores do arco-íris: somos nós.

— Sim, somos todas nós — disse Liliana.

— E ocupamos — afirmou o Verde — praticamente o mesmo espaço cada uma.»


A Luz de Newton, de Hélia Correia (2.ª edição, revista e aumentada), com ilustrações de Susana Oliveira, e outras obras de Hélia Correia estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/helia-correia/

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