«A sua literatura não se parecia com coisa nenhuma, disse o poeta brasileiro Ferreira Gullar. Era o que Kafka teria sido se tivesse sido uma mulher, comentou por sua vez a escritora Hélène Cixous, que prosseguiu: “Se Rilke tivesse sido uma brasileira judia nascida na Ucrânia”, “Se Rimbaud tivesse sido mãe” ou “Se Heidegger pudesse ter deixado de ser alemão”… Quando ela morreu, Carlos Drummond de Andrade notou que ela veio de um mistério e partiu para outro. Nada disto era alheio à própria, que após uma viagem ao Egito acompanhando o marido diplomata, e em que visitou a Esfinge, viria a registar: “Não a decifrei. Mas ela também não me decifrou.” Clarice Lispector assim era, indecifrável. E bem podia dizer “meu mistério é não ter mistério” que ninguém acreditava. Na introdução da edição integral dos seus contos, conta-se que num dos regressos ao aeroporto de Brasília, em plena ditadura militar, foi demoradamente revistada. Ela questionou o segurança se tinha cara de subversiva, ao que ele respondeu: “Até que tem.”»
[Luciana Leiderfarb, «A mulher remota», E, 2020/12/31]
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