«Isabel Lucas — E que passa pelo que referia há pouco, uma espécie de recusa do regresso à chamada normalidade. Ou seja, diante desta confirmação científica, resta-nos recusar o regresso a essa “normalidade”.
José Gil — Estou de acordo consigo. Mas é muito complexo, não basta dizer “temos que fazer”.
IL — Tem que se dizer como é que se faz?
JG — Sim, como e quem. Quem vai tomar a decisão política, como é que se conjugam interesses tão diferentes, tão divergentes, como os interesses económicos, ambientalistas, ecológicos e sociais. A ecologia não é unicamente uma ecologia ambiental. Tem aspectos societais extremamente importantes, e espirituais. É o nosso destino que está em jogo. Como é que essas divergências todas vão poder resolver-se na vida social normal, no plano político, por exemplo, entre ambientalistas, entre correntes cada vez mais poderosas da extrema-direita, antiecológica, etc.. E depois há a pressão cada vez maior das catástrofes ambientais que se vai fazer sentir numa consciência ecológica global que não estamos ainda a formar como consciência colectiva. O que precipitará uma convergência de interesses tão diferentes para que o homem dê conta que tem que mudar completamente?Mudar completamente significa mudar completamente os sistemas ecológicos, até que a própria economia tenha interesse em substituir as energias fósseis por energias renováveis. A própria evolução da política económica levará a uma mudança dos espíritos. As pessoas habituar-se-ão ater mais em conta o interesse da comunidade em vez do interesse pessoal e do interesse de uma facção. Como é que se vai chegar aí? O que está em jogo é: ou nós soçobramos ou, para não soçobrar, mudamos radicalmente. Mudar radicalmente não temos bem ideia do que significa; ninguém tem.
IL — O que é que o instigou a escrever sobre este momento, foi uma urgência de reflexão?
JG — Foi certamente uma urgência. Escrevi numa certa pressão interna. Eu estava a sentir que o meu discurso já não era capaz de atingir o real, tendo a ilusão de que anteriormente o atingia. Depois outras coisas. Estava a trabalhar também na morte, e verifico que a morte é um campo de pensamento, ou não pensamento, sobre o qual muito pouco se disse. Os filósofos disseram muito pouco. É curioso. Tem a ver com a dificuldade de pensar a morte. A morte é o impensável por excelência, mesmo para os que acreditam na imortalidade da alma, na medida em que entre viver e o tempo do pós-morte há uma diferença que nos faz sempre lamentar perder a vida. Isso aponta para aquilo de que temos uma consciência mais ou menos confusa. A morte é a morte-nada, nada acontece, é o não-acontecimento absoluto. É o impensável. Se não é pensável, então faz-nos pensar e temos que pensar.» [José Gil entrevistado por Isabel Lucas, Público, 26/12/2020]
«O Tempo Indomado» e outras obras de José Gil estão disponíveis em: https://relogiodagua.pt/autor/jose-gil/



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