Atravessamos a mais grave crise de sempre da edição portuguesa, em que a descida vertiginosa nas vendas em Março e Abril deixa antever perdas inéditas para este ano e um período de incerteza que pode prolongar-se até 2022.
Mas, como sempre, vão ser os leitores a decidir o presente e o futuro dos livros.
Desde a Antiguidade que os livros em diferentes suportes, do papiro ao papel e ao digital, acompanham as sociedades humanas. São eles que, em ensaio ou ficção, melhor nos explicam o que se passa no mundo e o que há de complexo e até de imperceptível nas nossas vidas. Mas são também os livros que nos permitem distanciarmo-nos da realidade e de nós próprios quando o desejamos.
É difícil saber como será a paisagem editorial depois desta batalha contra a actual pandemia. Tudo dependerá das escolhas e da atenção dos leitores. Só eles podem impedir que a crise desemboque na perda de diversidade e imaginação, que resultaria da falência de editores e livreiros independentes.
Claro que podem ser importantes os apoios estatais, que, além das linhas de crédito especiais, de moratórias, de layoff e da supressão dos agora ainda mais absurdos pagamentos por conta, devem passar por medidas concretas para o sector editorial. Para as livrarias, poderia ser um apoio ao pagamento das rendas das lojas. As editoras, essas precisam de apoios directos, como compras para as bibliotecas públicas e escolares e a diminuição ou supressão dos impostos sobre os stocks armazenados, agora bem mais difíceis de escoar, dado o adiamento das feiras de livros.
É também vital que os principais grupos livreiros, que ocupam uma posição central no processo editorial, assumam sem rodeios os seus compromissos, isto é, procedam aos pagamentos nos prazos acordados, impedindo que a crise se desenvolva em série.
É importante, neste período com as livrarias de portas entreabertas, que os leitores se habituem a adquirir nos sites de editores e livreiros as obras que desejam, da Odisseia de Homero à Amiga Genial de Elena Ferrante.
Como sempre, o essencial é que as palavras dos autores de todos os tempos cheguem aos leitores de hoje. Não é outra a razão de ser de editores e livreiros.
Francisco Vale
Director da Relógio D’Água
Este é o comunicado que foi publicado na newsletter da APEL de 16 de Abril de 2020. Recebeu apenas algumas alterações de pormenor.


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