17.4.20

Em homenagem a Maria de Sousa (III)



A investigadora e imunologista Maria de Sousa morreu no passado dia 14 de Abril, vítima da COVID-19. Deixou um exemplo e uma obra marcantes.
A escritora Hélia Correia dedicou-lhe um poema, que vamos publicar em três partes (aqui divulgamos a terceira).

«III


A minha amiga diz que Bach é grande.
«Bach é o mundo», diz.
Eu recordo que estive em Thomaskirche
em Leipzig,
para ouvir o coro, o órgão,
a cerimónia da missa;
e, como de costume, entendi mal
o que era facilmente entendível.
Tomei por um rapaz a oficiante
e atribuí-lhe algum mal-estar, e senti pena,
pois me parecia um corpo atormentado
pela idade e pelo desempenho,
pela voz rudemente arremessada 
entre as duas idades,
que tomava, naquela luta,
um tom embrutecido.
Eu engano-me sempre. 
Talvez tenha
também errado na apreciação
daquilo que me pareceu um grande frio
nos corações presentes,
o grande frio daquela circunstância
que torna a música pesada e a faz cair
como cai o martelo do
julgamento.
Saí em busca de Anna Magdalena
e das suas crianças escondidas
nos cortinados onde há nódoas,
como há nódoas
de comida nas pautas
— não que eu as tenha visto no museu
que era igualmente frio. 
Sei que encontrei a comoção da música
não na igreja, mas nas saias da mulher,
na extenuada e jovem mulher Bach.

Isto lhe conto. E ela já não ouve 
porque entre Bach e uma narrativa
pouco há em comum.
E, na verdade,
era do chão dos homens que eu falava.

Algo passou então pelo belo rosto.
Era um vento rasante que se chama
hora da despedida.
Como pode
despedir-se a beleza? Como pode
levantar ferro um barco que não sabe
as teorias da navegação?
É uma coisa que transporta pelo ar,
é, de facto, a magnólia que floriu
por duas vezes frente à casa, como
se visse ao longe as minhas visitantes
e preparasse as suas curvas pétalas, 
canoas de veludo,
para as trazer.

Vindo o momento, 
a música, a palavra 
e a experimentação,
e o poder técnico
e toda a espécie de desobediência
nas partículas vivas,
vindo o momento de uma completude,
todo o olhar se tornará
igual ao olhar dela.
Esse olhar: quando, 
ao oferecer-me uma caneta
tão celebrante e cara,
tinha na face a rapariga que se alegra
como a outra Maria quando viu
matéria radioactiva iluminada.
O olhar radioso, o olhar activo,
que desenha no aparo aquela árvore
sob a qual escreveu
Virginia Woolf.


(Obrigada, Anabela, por a teres trazido até mim) …


Sintra, Verão de 2019.»

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