29.1.19

Sobre Contos X, de Tchékhov




«— Ivan Ivánitch, conte alguma coisa de meter medo!
Ivan Ivánitch torceu o bigode, tossiu, estalou os lábios e, acomodando-se mais perto das meninas, começou: 
— O meu conto começa do mesmo modo que, em geral, todas as melhores histórias russas: eu estava com os copos, confesso... Festejei a passagem do ano em casa de um velho amigo e emborrachei-me como um sapateiro. Para me justificar, direi que não foi por alegria que bebi. A alegria por motivo tão insignificante como a passagem do ano é, no meu entender, absurda e indigna da razão humana. O ano novo é tão ruim como o velho, com a única diferença de que o velho foi mau e o novo é sempre pior... A meu ver, na passagem do ano, em vez de se rejubilar é preciso sofrer, chorar e tentar suicidar-se. Não esqueçamos que o ano, quanto mais novo, mais perto nos põe da morte, mais vasta é a calvície, mais sinuosas são as rugas, mais velha é a nossa mulher, mais filhos nos nascem, menos dinheiro temos…»

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