31.3.16

Sobre História da Menina Perdida, de Elena Ferrante




«A História da Menina Perdida [é] o quarto e último título da série napolitana. Depois da infância, adolescência e primeiros anos da idade adulta, estamos na maturidade de Elena Greco — Lenù — a narradora, e de Raffaella Cerullo — Lila ou Lina —, a amiga por quem sente tanta admiração e afecto, ciúme e rivalidade, uma amizade “magnífica e tenebrosa” e que um dia desapareceu, querendo apagar qualquer traço da sua própria existência. O cenário de tudo isso é Nápoles, um barro pobre de Nápoles que funcionava como uma mordaça, uma amarra. Mesmo que Lenù tenha saído, fugindo de um destino tido como natural, mas que via como condenação, instigada a ter sucesso pela amiga Lila que tanto a elogia como a humilha. Lila era a rapariga de quem se esperava tudo. Astuta, inteligente, aventureira, sem objectivo. Lenù, a estudiosa, metódica, insegura, decidida a ser escritora. Lila nunca quis ir. Lenù nunca quis outra coisa. Saiu, voltou com sucesso, mas foi-se definindo tanto em oposição a Nápoles como a Lila, num processo de permanente atracção e repulsa, dividida entre a escrita e a maternidade, entre a ambição individual e o que se espera de uma mulher. Ou entre querer ser alguém e nunca conseguir separar-se do laço umbilical face ao bairro, a Lila. Escreve sobre um e sobre outra e vai-se definindo. E esta saga será essa escrita, fantasia e realidade num jogo que ultrapassa a própria literatura, mas que na literatura surge assim: “Eu própria não consigo acreditar. Terminei esta história que me parecia que nunca mais terminava. Terminei-a e reli-a pacientemente, não tanto para melhorar a qualidade da escrita, como para verificar se pelo menos numa ou noutra linha era possível encontrar a prova de que Lila entrara no meu texto e resolvera dar o seu contributo para a sua redenção.”» [Isabel Lucas, Público, ípsilon, 25-3-2016]

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