5.3.20

Sobre Poemas de Anna Akhmatova




«Perdoar-me-ás esses dias de Novembro?
Nos canais que vão ao Neva tremulam as luzes.
Do trágico outono são pobres os esplendores.

Novembro de 1913
S. Petersburgo»

«Akhmatova começou, entretanto e felizmente, a ser mais traduzida em português. Quanto a mim várias hipóteses acerca da sua obra se me foram colocando, além da imediata: a sujeição ao totalitarismo.
O sofrimento dos homens e das mulheres, portanto também dos poetas, que não se tornavam flor de regime, era cravado inexoravelmente na vontade de extermínio da dissidência, a qual podia ser simplesmente o ausentar-se das suas manifestações. Contudo, dentro deste regime de totalitarismo, não deveriam contar-se somente os quase impensáveis processos dos comunismos, dos fascismos ou dos nazis. Também se devem colocar os extermínios do indivíduo e do seu habitat que o anonimato capitalista — com os seus cada vez maiores e mais supostos direitos absolutos em nome do lucro, a sua leniência perante o socialmente violento, a permissibilidade da inquietação dos que trabalham na contingência de o poderem vir subitamente a não poder continuar a fazer e a sua indiferença face aos que não conseguem pagar o custo da sua dor — desencadearam.
O séc. XX, que foi o de Akhmatova, encontrou nela, na sua linguagem, um dos declaradores cimeiros da devastação. Esta palavra reúne todos os sistemas políticos (mas também todas as religiões que se arrogam o direito de proibir e assassinar interiormente) que por ela atingiram os seus auges de poder. De um modo ou de outro, todos — mesmo hipocritamente falando em nome do humano — dizimaram, desfiguraram, impediram o indivíduo que não abdicasse de ter o direito de não se deixar padronizar. Tal como abalaram, não se sabe até que ponto irremediavelmente, o mundo natural, olhado como um espaço digno de qualquer esmagamento.
A irónica dádiva do séc. XX, tão preocupado com curas científicas, foi a morte no alheamento, a todo aquele que não fosse o banal ou o assujeitado. A morte de cidadania, quando não a própria morte por provocação da impossibilidade real de sobrevivência.» [Da Nota Introdutória]


Poemas de Anna Akhmatova (tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Vadim Dmitriev) está disponível em https://relogiodagua.pt/produto/poemas-de-anna-akhmatova/

Sobre Prosas Escolhidas e Poemas sem Herói, de Anna Akhmátova




«De mim, resumidamente

Nasci a 11 (23) de Junho de 1889 nos arredores de Odessa (Bolchói Fontan). O meu pai era, à data, engenheiro-mecânico reformado da Marinha. Com a idade de um ano fui levada para o Norte, para Tsárskoe Seló, onde vivi até aos meus dezasseis anos.
As minhas primeiras recordações estão ligadas a Tsárskoe Seló: a magnificência verde e húmida dos parques, um pasto aonde me levava a minha ama, o hipódromo onde corriam cavalinhos pequenos e malhados, a velha gare e outras coisas que, mais tarde, entraram na «Ode a Tsárskoe Seló».
Passava todos os verões nos arredores de Sevastópol, na Enseada Strelétskaia, e ali fiz a amizade do mar. A minha impressão mais forte desses anos é a da antiga Quersoneso, perto da qual vivemos.
Aprendi a ler pela cartilha de Lev Tolstói. Aos cinco anos, só de assistir às aulas que a preceptora dava aos meus irmãos mais velhos, aprendi também a falar francês.
Compus a minha primeira poesia quando tinha onze anos. Para mim, a poesia começou, não com Púchkin e Lérmontov, mas com Derjávin («Ao Nascimento do Infante Real») e Nekrássov («Velho do Gelo, Nariz Vermelho»). A minha mãe sabia estas obras de cor.» [De «Prosa Autobiográfica», p. 13]


Prosas Escolhidas e Poemas sem Herói (tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra) está disponível em https://relogiodagua.pt/produto/prosas-escolhidas-e-poemas-sem-heroi/

4.3.20

Sobre Departamento de Especulações, de Jenny Offill




Departamento de Especulações fala-nos de um casamento, sendo uma sedutora contemplação dos mistérios da intimidade, confiança, fé, conhecimento, e da condição universal de fracasso que nos une. 
A heroína de Jenny Offill, «a esposa», trocou cartas de amor com o marido, carimbadas como «Departamento de Especulações» — nome de código para todas as incertezas inerentes à vida e para os contornos estranhamente definidos de uma relação prolongada. À medida que enfrenta alguma catástrofes vulgares — um bebé com cólicas, um casamento hesitante e ambições estagnadas —, analisa a sua difícil situação, invocando tudo, desde Keats e Kafka, passando pelas duras experiências dos estoicos, e terminando em lições de cosmonautas russos.
A autora reflete sobre a experiência do amor maternal e sobre a quase completa destruição do «eu» que dele surge, confrontando a fricção da vida doméstica com as seduções e exigências da arte.

«Um romance maravilhosamente difícil de definir, porque aponta simultaneamente para várias direções, brilhando com diferentes tons de emoção. Se é uma descrição angustiante de um casamento em perigo, é também um poema em louvor do matrimónio.» [James Wood, The New Yorker]

«Departamento de Especulações, de Jenny Offill, não se assemelha a nenhum outro livro que tenha lido. Se vos disser que é divertido, tocante e verdadeiro; que é tão compacto e misterioso como um neutrão, que nos conta uma profunda história sobre amor e paternidade, e que para isso invoca (entre outros) Keats, Kafka, Einstein, cosmonautas russos e conselhos para as domésticas de 1896, serão capazes de acreditar em mim, e lê-lo?» [Michael Cunningham]

Departamento de Especulações (trad. José Miguel Silva) está disponível em https://relogiodagua.pt/produto/departamento-de-especulacoes/

Sobre O Doente Inglês, de Michael Ondaatje




No final da Segunda Guerra Mundial, numa villa italiana transformada em hospital de campanha, um irreconhecível aviador inglês, com o corpo queimado, absorve as atenções de Hana, uma jovem enfermeira a quem a guerra arrebatou a família e os sonhos.
As suas companhias são Caravaggio, um ladrão e aventureiro italo-canadiano de mãos estropiadas, e um jovem sikh ao serviço do exército britânico e cujo trabalho é a desminagem.
É uma atmosfera fora do mundo, onde cada um vai revelando pouco a pouco os seus segredos, à medida que os ecos da guerra se esbatem na distância.
Mas o mais misterioso é aquele homem queimado, ligado à enfermeira por um estranho vínculo, e que é ao mesmo tempo um enigma e uma provocação para os que o rodeiam. As suas recordações de traição, dor e salvação iluminam a narrativa como estilhaços de luz.

«O Doente Inglês consegue uma tripla proeza: é profundo, belo e apaixonante.» [Toni Morrison]

«Mais do que um romance, é um tapete mágico que nos transporta através de épocas e geografias […] uma cativante rede de sonhos extraordinários.» [Time]

Este livro obteve o Man Booker Prize em 1992 e o Golden Man Booker em 2018.

O Doente Inglês (tradução revista de Ana Luísa Faria) e outras obras de Michael Ondaatje estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/michael-ondaatje/

O Homem Invisível no grande ecrã




Estreia amanhã em Portugal o filme O Homem Invisível, com argumento e realização de Leigh Whannell, baseado na obra homónima de H. G. Wells. O filme conta com a participação de Elisabeth Moss, Oliver Jackson-Cohen, Aldis Hodge, Storm Reid e Harriet Dyer.
Esteve prevista a participação de Johnny Depp, quando a Universal quis criar uma saga sobre monstros chamada «Dark Universe», que trazia de volta para os cinemas também a Múmia, Drácula, Lobisomem e A Noiva de Frankenstein, mas o filme foi readaptado para a interpretação de Elisabeth Moss ( https://mag.sapo.pt/cinema/atualidade-cinema/artigos/o-homem-invisivel-nova-versao-da-era-metoo-sem-johnny-depp-e-sucesso-de-bilheteira )
A Relógio D’Água publicou a obra de H. G. Wells em 2017.



Em O Homem Invisível, H. G. Wells narra a transformação de um homem até um estado de brutalidade, causado pelo seu fascínio pela ciência. 
Griffin — um homem com o rosto coberto por ligaduras, olhos ocultos por trás de uns óculos escuros e mãos cobertas — é o novo hóspede da pousada Coach and Horses. Apesar de todos assumirem que o seu estado se deve a um acidente, a verdade é bastante mais estranha.
Griffin descobriu um processo de se tornar invisível, e está agora em busca do antídoto. Quando é expulso da aldeia e se vê impelido para o assassínio, Griffin procura a ajuda do seu amigo Kemp. Mas o destino que o aguarda afeta-lhe os pensamentos, e, quando Kemp se recusa a ajudá-lo, Griffin resolve planear a sua vingança.

O Homem Invisível (tradução de Alda Rodrigues) e outras obras de H. G. Wells estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/h-g-wells/

Sobre Contos de Petersburgo, de Nikolai Gogol




«Gogol era uma criatura estranha, mas o génio é sempre estranho; só o escritor de segunda ordem e são de espírito é que parece ao leitor agradecido um sábio e velho amigo que expõe com finura as suas próprias opiniões (do leitor) sobre a vida. A grande literatura roça o irracional. O Hamlet é o sonho demente de um académico neurótico. O Capote de Gogol é um pesadelo grotesco e sinistro que abre buracos negros no desenho pouco claro da vida. O leitor superficial verá nessa história apenas as cabriolas pesadas de um bufão extravagante; o leitor solene terá como certo que a primeira intenção de Gogol era denunciar os horrores da burocracia russa. Mas nem aquele que quer umas boas gargalhadas, nem o que anseia por livros “que nos façam pensar” compreenderão de que trata O Capote realmente. Mas deem-me o leitor criativo; este conto é para ele.» [Do Posfácio de Vladimir Nabokov]

Contos de Petersburgo (trad. Carlos Leite) e Roma (trad. Nina Guerra e Filipe Guerra) estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/nikolai-gogol/

3.3.20

Sobre Nós e Outras Novelas, de Evguéni Zamiátin




«Nós, que começou como uma crítica à sociedade inglesa e à sua inclinação para regulamentar in extremis a vida dos cidadãos, acabou por ser proibida na União Soviética, sendo publicada nesse país pela primeira vez em 1988. As semelhanças, ainda que obviamente exageradas, com o regime soviético, opuseram-no ao Partido Comunista da URSS, partido que Zamiátin chegou a apoiar anos antes. As palavras de I-330, “assim como não existe o maior número, também não pode haver a revolução final”, não devem ter caído bem aos dirigentes soviéticos. Ainda assim, o autor conseguiu ver a sua obra publicada fora da União Soviética, ao longo da segunda metade dos anos 20.
As duas “novelas inglesas” de Zamiátin, “Ilhéus” e “O Pescador de Homens”, funcionam quase como comédias de costumes, e, de certa forma, criticam aquele aspeto da sociedade inglesa que Nós também criticava, o problema de se confiar em demasia numa existência mecânica, e o quão ingénuo é tentar levar uma vida perfeita e imaculada. Este tipo de vivência irrealista resulta em desgraça quando a inevitável mancha ou imperfeição entra em cena. Estas narrativas podem ser vistas como prequelas de Nós, não só pelos temas que abordam e por terem sido escritas antes, mas porque há pistas no fim de cada uma que apontam para uma mudança de mentalidade geral, no caso de “Ilhéus”, ou um conflito mundial prestes a surgir, no caso de “O Pescador de Homens”, podendo assim fazer a ligação com a obra distópica.
O último texto desta antologia intitula-se “O Flagelo de Deus” e representa uma grande mudança em relação aos outros. É uma narrativa histórica passada nos anos de decadência do império romano. É um relato muito interessante sobre o que é ser um estrangeiro numa terra distante, e das dificuldades de inclusão, especialmente quando a terra que acolhe o estrangeiro tem para com ele um sentimento de superioridade. […]
Zamiátin apresenta-se-nos como um autor altamente versátil, indo da ficção científica distópica, à comédia de costumes, terminando no romance histórico épico.» [Miguel Troncão, Observador, 29/2/2020. Texto completo em https://observador.pt/2020/02/29/evgueni-zamiatin-o-livro-com-paredes-de-vidro/ ]


Nós e Outras Novelas (trad. Nina Guerra e Filipe Guerra) está disponível em https://relogiodagua.pt/produto/nos-e-outras-novelas/