«Esta é a reunião de alguns dos textos publicados por Djaimilia Pereira de Almeida com carácter “avulso” — aqui e ali — mas unidos por um fio invisível: uma tendência notória para o desaparecimento da autoria, num mundo sitiado pela “autoficção”. Vantagem inegável.» [LER, Inverno/Primavera 2019]
21.5.19
Sobre Suíte e Fúria, de Rui Nunes
«A infância, aqui, não se deixa dourar pelos pós da nostalgia. Ela é (pode ser) uma “ameaça”, esconde uma violência secreta. Desconfia-se da nostalgia dos regressos, que herdamos da Odisseiade Homero, e, por isso, ao longo de Suíte e Fúria, com a evocação musical inscrita no título (presente já no livro anterior, Baixo Contínuo, de 2017), é como se ficasse no ar o desejo perverso de ver Ulisses a ceder ao cântico fatal das sereias, a perdição pela liberdade, recusando o ciclo fechado, harmonioso, de uma suposta unidade que o regresso a Ítaca representaria [.] […]
Pois, então, o que é isto? Uma escrita que é radicalmente uma ex-crita, que fere, que incomoda até com o silêncio e a imobilidade da luz. Não o faz com os excursos convencionalmente descritivos das boas e belas histórias, visto que “[d]escrever é petrificar” (p. 74). Pelo contrário, o trabalho está no ritmo sintático, nas farpas que se aguçam na leitura quando uma frase, à medida, que a lemos, de súbito se quebra, se interrompe, ficando a meio, macerada, sem indicação do rumo a seguir – e isto para “torna[r] pungentes as pequenas valências do corpo: a tosse, as dores, a febre” (p. 74). É um modo de escrever rente ao corpo, que torna a leitura suficientemente inquietante para que, no meio de tanto olhar a morte de frente (uma das obsessões do autor), o leitor se sinta radicalmente vivo.» [Diogo Martins, Sol, 8/11/2018. Texto completo aqui.]
Sobre À Beira Do Mar De Junho, de João Miguel Fernandes Jorge
«Que mar é este? Não sabemos. Alusões esparsas a Silves ou ao Infante D. Henrique podem remeter para o Algarve, mas isso na verdade não importa; neste livro tudo é “questão de água e terra!, no sentido territorial-alegórico, mas não no sentido geográfico-biográfico. Como acontece em tantos poemas estivais, um dos territórios em causa é o da infância e juventude, uma velha casa de família, um colega de escola, uma recordação: “Dormimos sobre a infância / sobre os lugares da juventude / a paisagem / as palavras que dissemos // não podiam ser noutro país / nem noutro corpo / nem noutro século.” O título indica essa indistinção entre sítios e épocas, e muitos versos são continuidade a essa indistinção: “O lugar de meu pai / o lugar da sua voz no vento da idade”. Outros poemas sugerem encontros, perigos, pressas, alegrias, e usam uma primeira pessoa do plural que talvez seja do domínio familiar, talvez do domínio amoroso, talvez do âmbito nacional-identitário. Elípticos mas evocativos, aforísticos, os poemas recorrem a mitologias universais, entre as quais as do mar e do Verão, mesmo quando há remissões para a Bíblia ou para os camonianos rios da Babilónia. Num extraordinário posfácio à primeira edição do livro, Joaquim Manuel Magalhães definia estes processos poéticos como um “diálogo interior com o mundo”, uma “subjectivização da realidade” que “torna ‘nenhuma coisa’ todas as coisas”.» [Pedro Mexia, E, Expresso,18/5/2019]
Sobre Confiança e Medo na Cidade, de Zygmunt Bauman
Como se manifesta a experiência quotidiana nas zonas de habitação da nossa cidade? Existe ainda um modo de pensar, um padrão de comportamento, um momento nas relações capaz de constituir um terreno comum sobre o qual possamos fundar uma confiança recíproca? Ou serão a fragmentação e a precariedade processos tão profundos que aumentam a distância social e a indiferença? Os outros serão apenas uma ameaça ou, pelo contrário, sujeitos com os quais temos o dever de conviver e cooperar? O que prevalece, o medo ou a confiança?
Zygmunt Bauman, sociólogo polaco radicado em Inglaterra, é considerado um dos mais atentos observadores das contradições do mundo moderno e pós-moderno. Bauman não procura as leis absolutas do comportamento humano, nem tão-pouco as enreda numa crítica moral, antes se concentra nos laços que permitem a vivência em comum e que tendem a desaparecer.
Zygmunt Bauman nasceu na Polónia, em 1925, onde estudou e ensinou Sociologia. Foi professor na Universidade de Leeds, no Reino Unido. Entre as suas principais obras contam-se Amor Líquido, Modernidade e Ambivalência e A Vida Fragmentada.
20.5.19
Sobre Party * A Casa — Diálogos, de Agustina Bessa-Luís
Disponível em www.relogiodagua.pt e a chegar às livrarias: Party * A Casa, de Agustina Bessa-Luís.
«A propósito dos diálogos que agora se publicam, escritos por Agustina Bessa-Luís sob o título A Casa e oferecidos, com data de 2 de Setembro de 1981, “ao Manoel de Oliveira e à Maria Isabel, com um abraço” para integrar o filme Visita ou Memórias e Confissões, diz o realizador que não conhece “ninguém que tenha mudado tantas vezes de casa como a Agustina”. E mais confidencia que “com respeito a casas” são muito diferentes: ele seria “muito mais o gato” e Agustina “muito mais o cão”. Se o prodigioso diálogo criativo em que ambos se empenharam muitas vezes se pareceu, de facto, a um despique de cão e gato — colaborações de que resultaram, talvez por isso mesmo, algumas das mais notáveis realizações literárias e cinematográficas de um e doutro —, aqui convergem num idílico consenso. Agustina reconhece que este filme é um dos seus preferidos, como confirma que ao longo da sua vida mudou efetivamente dezanove vezes de casa.» [Do Prefácio de António Preto a A Casa]
Sobre Fisiologia do Gosto, de Brillat-Savarin
«Se Brillat-Savarin tivesse escrito o seu livro hoje, não teria faltado quem pusesse no número das perversões esse gosto pela comida que ele defendia e ilustrava. A perversão é, se assim a podemos definir, o exercício de um desejo que não serve para nada, tal como um corpo que se entrega ao amor sem ter a intenção de procriar. Ora Brillat-Savarin sempre assinalou, no plano da alimentação, a distinção entre a necessidade e o desejo: “O prazer de comer exige que se tenha fome ou, pelo menos, apetite; o prazer da mesa é muitas vezes independente de ambos”. Numa época em que o burguês não sentia qualquer culpabilidade social, Brillat-Savarin serve-se de uma oposição cínica: de um lado, há o apetite natural, que é da ordem da necessidade; do outro, o apetite de luxo, que é da ordem do desejo.» [Da Nota de Roland Barthes]
Sobre Arte e Infinitude, de Bernardo Pinto de Almeida
«É provável que a obra teórica de Bernardo Pinto de Almeida nunca tenha alcançado este nível de rigor enciclopédico e analítico. Ao reabrir-se o caminho do seu estudo sobre a origem da contemporaneidade, desenha-se um grande panorama do nosso tempo, explicado ponto por ponto — sem perder a perturbação da Arte.» [LER, Inverno/Primavera 2019]
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