«Na América, Disse Jonathan nasce de um convite da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento a Gonçalo M. Tavares (GMT) para uma viagem nos E.U.A.. Parte acompanhado apenas de três pequenas aguarelas com retratos de Kafka, García Lorca e Patti Smith, mas é Kafka (juntamente com uma personagem misteriosa chamada Jonathan) quem lhe faz companhia e serve de filtro a tudo o que vê (e escreve), como um coador das cores da realidade. À medida que se desloca, GMT mede diversas variáveis do seu contexto físico e emocional, colocando hipóteses e questões, na sua já habitual deriva de precisão e absurdo, intercalados conforme as conveniências do momento e servidos por uma escrita sem mácula. As pré-concepções de género literário vão sendo desafiadas, entre o humor, o negrume e a ironia, como Kafka talvez fizesse, perante esta dispersão de sentidos e contradições que é a América.» [Paulo Ribeiro da Silva, Revista Intro, 16/04/2019. Texto completo aqui: https://wp.me/p84fVQ-LC ]
30.4.19
Sobre Kudos, de Rachel Cusk
«Precisa e brilhante, Rachel Cusk encerra a trilogia iniciada com A Contraluz e Trânsito. Narrativas dentro de narrativas e personagens à conversa.
Quando deparamos pela primeira vez com Faye, a personagem central da trilogia romanesca de Rachel Cusk (formada por A Contraluz e Trânsito e Kudos), sabemos pouquíssimo sobre ela. Quase nada. É uma escritora, mãe de dois rapazes, recentemente divorciada e ainda a lidar com o impacto emocional da súbita desestruturação da sua vida. No fim dos três romances, não sabemos muito mais. Ela atravessa os romances como uma presença ausente, um fantasma, um mero catalisador das histórias alheias. O que nos conta é o que ouve. E ela ouve tudo. Na sua presença, os outros entregam-se a confidências e desabafos. Podemos suspeitar que Faye perdeu algo, talvez o essencial, mas Cusk nunca nos diz quanto, nem como, nem porquê. Eis, em todo o seu esplendor, uma radical estratégia de apagamento. Quanto mais reflete os outros, menos se revela. No fundo, estamos diante de uma corajosa e original tentativa de reinventar a forma do romance clássico. Como? Pela abolição das suas categorias mais reconhecíveis, nomeadamente a trama. Nenhum dos três romances permite sequer o conforto de uma sinopse. Porque não há propriamente capítulos, ou cenas, apenas uma sucessão de encontros.» [José Mário Silva, E, Expresso, 27/04/2019]
29.4.19
Sobre Léxico Familiar, de Natalia Ginzburg
«Todos comungamos de uma mesma tradição oral – sejam os mitos coletivos, o idioma partilhado ou as mais modestas histórias de família. A escritora italiana Natalia Ginzburg (1916-1991) elevou estas últimas à condição de matéria-prima capaz de desenrolar tanto os fios da petite histoire como da História coletiva. Léxico Familiar é uma pérola que faz rir e chorar, e que cria ressonâncias nos leitores, mesmo que estes não tenham as mesmas memórias: ter quatro irmãos, uma família cheia de idiossincrasias, um contexto político como o da ascensão do fascismo e a Segunda Guerra Mundial, amizades com escritores como Cesare Pavese e Italo Calvino, um luto traumático... O primeiro marido de Natalia, o antifascista Leone Ginzburg, foi exilado na aldeia de Abruzzo, e, depois, preso, torturado (e crucificado), morrendo em 1944 na prisão. Mas é a vida e é a força redentora das palavras que triunfam neste relato intimista, em que até os nomes usados são os verdadeiros.
A novela avança transportada pelas frases, pelos bordões, desabafos, exclamações tragicómicas, saídas de cena, expressões favoritas, desabafos e disparates enunciados por todos os protagonistas da biografia de Ginzburg: o pai, citologista judeu, que disparava o insulto de “cafre” a tudo o que lhe desagradava; a mãe, católica e amante de ópera, que recitava poemas à mesa; a avó cativada pela maneira como o futuro marido dizia “côreio” amaciando os R; os tios, amigos, filhos, fantasmas... São retratos verbais, identitários, que ritmam a prosa como uma canção: “Essas frases são o nosso latim, o vocabulário dos tempos idos são, como os hieróglifos dos egípcios ou dos assírio-babilónios, o testemunho de um núcleo vital que deixou de existir, mas que sobrevive nos seus textos, salvos da fúria das águas, da corrosão do tempo.” Viver para contá-la, escolheu Gabriel García Márquez para batizar as suas memórias. Contar como se viveu, diria Natalia.» [Sílvia Souto Cunha, Visão, 15/4/2019]
26.4.19
Sobre Eu Vou, Tu Vais, Ele Vai, de Jenny Erpenbeck
«Por fim, a alemã Jenny Erpenbeck está publicada em Portugal e, lamentavelmente, apareceu sem causar estrondo. “Eu Vou, Tu Vais, Ele Vai”, romance que esteve entre os finalistas do Booker International em 2018, chegou até nós silenciosamente e merece muito mais do que passar ao largo. É um poderoso exercício literário e humanista de compreensão e tentativa de aprofundamento de um dos temas mais trágicos do nosso tempo: o drama dos refugiados africanos na Europa. Isso, sem que a escritora queira ser didáctica — embora o seja — ou moralmente comprometida — inevitavelmente.
O ponto de Erpenbeck é o de questionar a identidade , averiguar o sentido de deslocamento e de estranheza, inquirir sobre até que ponto podemos compreender o que é ser o outro quando o outro parece inacessível. Por razões políticas, culturais, históricas, sociais, económicas, emocionais.» [Isabel Lucas, Público, ípsilon, 26/4/2019]
Sobre O Meu Inimigo Mortal, de Willa Cather
Pelos olhos da jovem Nellie, vemos a vida de Myra, uma lenda da cidade do Sul onde ambas nasceram. Myra trocou o luxo e ostentação em que nasceu pelo amor de Oswald Henshawe, um rapaz pobre com quem fugiu.
Vinte e cinco anos mais tarde, Nellie encontra o casal a viver na elegante pobreza de um modesto apartamento, frequentado por cantores, atores e poetas — no coração da comunidade artística de Nova Iorque.
Mas esta precária distinção dá lugar a uma pobreza real. Myra hospeda-se num hotel barato na Costa Oeste e o seu objetivo de vida — o amor — acaba por se revelar o seu pior inimigo.
De Willa Cather a Relógio D’Água publicou também Uma Mulher Perdida e Minha Ántonia.
24.4.19
Sobre A Casa Assombrada e Outros Contos, de Virginia Woolf
Disponível em www.relogiodagua.pt e a chegar às livrarias: A Casa Assombrada e Outros Contos, de Virginia Woolf (trad. de Miguel Serras Pereira)
Em A Casa Assombrada e Outros Contos estão reunidos alguns dos mais inovadores contos originalmente escritos em inglês.
É certo que Virginia Woolf não é uma contista e que foi em romances como «Orlando» e «As Ondas» que sobretudo cumpriu o «insaciável desejo de escrever alguma coisa antes de morrer». Mas é em contos como «A Marca na Parede», «Lappin e Lapinova» e «O Legado» que melhor nos revela o modo como soube captar um universo feminino que os homens desfazem revelando que a marca na parede é uma lesma, recusando-se a recriar a vida de coelhos no ribeiro ao fundo da floresta ou tornando-se apenas desatentos.
Sobre O Táxi N.º 9297, de Reinaldo Ferreira
Disponível em www.relogiodagua.pt e a chegar às livrarias: O Táxi N.º 9297, de Reinaldo Ferreira (Repórter X)
Em março de 1926, verificou-se em Lisboa o assassínio da atriz Maria Alves, estrangulada num táxi com o número 9297 e lançada para a valeta. Investigando por conta própria e baseando-se em anteriores crimes semelhantes, o jornalista Reinaldo Ferreira, conhecido como Repórter X, sugere, nos jornais, que o culpado é o ex-empresário da vítima, Augusto Gomes. Posteriores investigações policiais confirmam a hipótese.
No ano seguinte, Reinaldo Ferreira aluga os estúdios Invicta Film, no Porto, para realizar o filme O Táxi N.º 9297, que tem como ponto de partida a morte de Maria Alves e vai obter os elogios da crítica e a adesão do público. Entre os atores, está a já então famosa Maria Emília Castelo Branco no papel de Raquel de Monteverde.
Aproveitando o êxito do filme, Reinaldo Ferreira adaptou o enredo ao teatro, escrevendo a peça que agora se reedita como novela policial. Trata-se de um dos primeiros «policiais» escritos por um autor português, que não evita alguns estereótipos, onde um enigma surge envolto num enredo de estranhas personagens e uma conspiração internacional que tem Lisboa como cenário.
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