4.4.19

Sobre Açores — O Canto das Ilhas, de Carlos Pessoa




Disponível em www.relogiodagua.pt e a chegar às livrarias: Açores — O Canto das Ilhas, de Carlos Pessoa

«Por mim, o gran finale desta viagem pelo arquipélago dos Açores poderia ocorrer com o observador confortavelmente sentado, e por fim serenado, na esplanada exterior do hotel Azoris Faial Garden, na Horta, tendo a piscina suspensa à sua frente e contemplando, no dia que lentamente se extingue, a montanha do Pico para lá do canal, deixando-se fundir com o ocaso solar e aspirando os matizes de luz e cor reflectidos na encosta, enquanto a constante dança das nuvens molda uma e outra e outra vez o maciço rochoso, num movimento incessante de ocultamento e desvelamento da própria montanha, até que a noite caia.
(…)

[A]percebe-se da suspensão do tempo, a imobilidade eterniza-se, a emoção irrompe, tudo ao mesmo tempo, num turbilhão perturbador e único. Enquanto isso, o Sol desce para o ocaso, lá longe na imensidão do mar das Flores, e as luzes vibrantes do dia prestes a terminar ajudam a instalar um estado de excepção, que é a expressão sublime da transcendência na vida, descobrindo, possivelmente pela primeira vez, que só assim ela vale a pena ser vivida.»

Sobre Anne das Empenas Verdes, de L. M Montgomery




«É um milhão de vezes melhor ser a Anne das Empenas Verdes do que a Anne de nenhum sítio em especial.»


Quando Anne Shirley chega a Avonlea surpreende toda a gente e abala a calma do lugar. Mas rapidamente a sua imaginação fértil a deixa em apuros…

Sobre O Vale dos Assassinos, de Freya Stark




Freya Stark viajou a pé, de burro, de camelo e automóvel para chegar à antiga fortaleza de Alamut, descrita por Marco Polo, situada no vale da sociedade secreta dos Assassinos.
Na ausência de mapas da região, Stark convenceu um guia local a conduzi-la através de montanhas e planícies até encontrar a fortaleza coberta de tulipas. Após a viagem, elaborou o primeiro mapa da área.

O Vale dos Assassinos é a viagem a um mundo que hoje só podemos visitar em livro.

Sobre Ressurgir, de Margaret Atwood




Ressurgir é o segundo romance de Margaret Atwood e nele são já visíveis os traços essenciais da sua ficção.
Uma jovem mulher viaja até à remota ilha da sua infância, com o companheiro e um casal amigo, para investigar o misterioso desaparecimento do seu pai. Após a chegada à ilha, antigos segredos afloram à superfície do lago que os rodeia, com objetos nele afundados. 
Imersa nas suas memórias, a narradora compreende que regressar a casa é não apenas voltar a outro lugar, mas também a outro tempo. E depois de descobrir uma caverna submersa com pinturas rupestres, imagina-se em fusão anímica com a natureza. 

Ressurgir é um romance preocupado com as fronteiras da língua, da identidade nacional, da família, do sexo e dos corpos, tendo como pano de fundo um Canadá rural, transformado pelo comércio, a construção, o turismo e a engrenagem dos média. 

Livro disponível em https://relogiodagua.pt/produto/ressurgir/

3.4.19

Sobre Moderato Cantabile, de Marguerite duras




«— O que quer dizer moderato cantabile?
— Não sei.»
Uma lição de piano, uma criança teimosa, uma mãe que ama o filho, não há expressão mais autêntica da vida tranquila numa cidade da província. Mas um súbito grito vem rasgar a trama, revelando sob a contenção de uma narrativa de aparência clássica uma tensão que vai crescendo até ao paroxismo final. 

«Porque é que o grito súbito de uma desconhecida e a visão do seu corpo ensanguentado perturbaram de tal modo Anne Desbaresdes, que é uma mulher jovem e rica, ligada apenas ao seu filho? Porque é que voltou ao café do porto, onde o cadáver da desconhecida desabara ao cair do dia? Porque é que interroga um outro desconhecido, Chauvin, uma testemunha como ela? Uma estranha embriaguez apodera-se dela, os copos de vinho que pede, e que bebe lentamente, são apenas pretextos. Volta todos os dias ao local do crime que outra pessoa cometeu e de cada vez interroga mais, fala um pouco mais longamente.» [Dominique Aury]

«Moderato Cantabile poderia definir-se como sendo Madame Bovary reescrito por Béla Bartók, se não se tratasse, antes de mais, de um romance de Marguerite Duras (que não se parece com ninguém) e do seu melhor livro (o que é dizer muito).» [Claude Roy]

Sobre Tchékhov na Vida, de Ígor Sukhikh




«A estes trechos juntam-se linhas de contos e peças que espelham aquilo de que Tchékhov fala e ainda frases do que se escreveu sobre ele. Textos assinados por biógrafos, amigos, colegas: antes e depois da sua morte. Tudo junto, ficamos entre mãos com uma enciclopédia sobre Tchékhov. Uma declaração de amor tão larga como a vida. São 50 entradas onde se fala de tudo, desde o poder ao dinheiro, passando pela fé e pela medicina. No capítulo “Visão do Mundo”, Maksim Gorki defende Tchékhov daqueles que o acusam de não ver além do seu umbigo: “A maioria de nós, os humanos, tem uma visão do mundo precisamente idêntica à das baratas, ou seja, fica metida num lugar quentinho, mexe as antenas, como pão e procria baratas.” Em 1894, Tchékhov escreve a Suvórin, um amigo: “Pergunta ‘o que deve o homem russo desejar agora?’ A minha resposta é: deve desejar. Precisa, antes de mais, de desejos, de temperamento. Estamos fartos de moleza.” Numa carta ao seu grande amor, Olga Knipper, assume um tom mais prosaico: “Perguntas-me: o que é a vida? É o mesmo que perguntar: o que é  a cenoura? A cenoura é a cenoura, e não se sabe mais nada.” Para quem ama Tchékhov, há um antes e um depois da leitura deste livro.» [Rui Lagartinho, Expresso, E, 30/3/2019]

2.4.19

Lourença Baldaque serve de guia para o mundo de Agustina





«Onde está Agustina? De uma pergunta surge uma busca para encontrar o mundo de uma das mais reputadas escritoras portuguesas. Pela voz da neta, Lourença, seguimos numa viagem pelo mundo da autora de ‘A Sibila’: na casa que construiu, ao lado das memórias e dos mistérios de uma mulher ausente desde 2006 — mas ainda atenta a tudo e a todos.

— E quem é a avó da Lourença?
— É a mesma pessoa. Embora haja um lado privado de Agustina. A minha avó foi sempre uma mulher muito privada — esse lado eu também o conheço, mas não totalmente: há coisas da vida da minha avó às quais nem eu tenho acesso; acho que nem quero ter acesso, acho bom que as pessoas tenham os seus mistérios também e a Agustina tem essa aura de mistério na vida dela e na sua personagem literária; e eu penso que é isso que dá densidade também à sua obra, ou à obra de um artista que consegue preservar esse tal mistério.
É uma avó generosa, é uma avó dura também. Muitas vezes foi um bocado dura. É uma avó que diz o que pensa. Uma avó presente, uma avó... Enfim, que tem muita estima pelos netos e pela família.
— E qual é o porto e o Porto de Agustina Bessa-Luís?
— O porto seguro de Agustina acho que é a sua casa, na cidade do Porto. Foi aqui que escolheu viver. Já vive em permanência na cidade do Porto desde os anos 1960 — teve um período em que andou um bocadinho a escolher o sítio onde ia viver, ainda viveu uma temporada grande em Esposende, mas acabou por escolher o Porto e a cidade do Porto acho que representa para a minha avó a cidade de resguardo para poder criar e imaginar uma obra literária.

Uma cidade — e uma casa — onde pode ter o ambiente certo para poder ler, escrever e pensar toda uma obra.» [Entrevista de Lourença Baldaque a Pedro Botelho, Sapo24, 1/4/2019. Texto completo aqui.]