2.4.19

Livros a sair em Abril de 2019




1 — As Pessoas Felizes, de Agustina Bessa-Luís (Prefácio de António Barreto)
O prefácio é de António Barreto e a obra mostra a lucidez com que a autora de Fanny Owen abordou famílias burguesas nortenhas antes e logo após Abril de 1974.

2 — Trajectos Filosóficos, de José Gil
Em breves ensaios, segue-se o deslizar de certas ideias — como a subjectividade populista ou o tempo da meditação Zazen — segundo linhas improváveis mas rigorosas. Acompanhando o movimento interno dos conceitos, o autor procura responder à pergunta: como se move o pensamento filosófico?

3 — À Beira Do Mar De Junho, de João Miguel Fernandes Jorge
Um episódio luminoso na já vasta obra do autor.



4 — Pintado com o Pé, de Djaimilia Pereira de Almeida
A autora de Luanda, Lisboa, Paraíso persegue, nas suas crónicas e breves ensaios, os fios da memória e as ligações afectivas e familiares como mais ninguém o faz. O livro é completado com dois ensaios mais desenvolvidos, Amadores e Inseparabilidade.



5 — Kudos, de Rachel Cusk (tradução de Ana Falcão Bastos)
É uma das autoras que, com Alice Munro, Margaret Atwood e Michael Ondaatje, colocou a literatura canadiana num lugar de destaque. Tal como em Trânsito, mostra-se capaz de romper com os moldes estabelecidos sem se perder em inovações estéreis.

6 — Tu Sabes que Queres, de Kristen Roupenian (tradução de Alda Rodrigues)
“Amante de Gatos”, um dos contos do livro, foi em 2017 o mais lido, tanto online como em papel, da The New Yorker. Recebeu elogios do The Washington Post. Segundo a The Atlantic, o conto capta o medo de se ser uma jovem mulher a viver em 2017, o que, entre outras coisas, implica uma desesperante necessidade de ser boa e simpática a todo o custo. O livro será adaptado a série de televisão pela HBO.

7 — Açores — O Canto das Ilhas, de Carlos Pessoa
Numa colecção de viagens publicada em Portugal, não podia faltar um volume sobre os Açores. É escrito por um jornalista que percorreu e viveu as suas ilhas em tempos e modos muito diversos.

8 — Pensamentos, de Blaise Pascal (Introdução de T. S. Eliot e tradução de Miguel Serras Pereira)
«Pascal oferece muito sobre que o mundo moderno faria bem em pensar. E de facto, por causa da sua combinação e equilíbrio únicos de qualidades, não sei de nenhum escritor religioso mais pertinente para o nosso tempo.» [Da Introdução de T. S. Eliot]

9 — Ensaios Escolhidos, de T. S. Eliot (tradução de Maria Adelaide Ramos)
Este livro reúne alguns dos mais importantes textos de ensaio e crítica literária escritos por Eliot entre 1917 e 1962.

10 — Party e A Casa, de Agustina Bessa-Luís (Prefácio de António Preto para A Casa)

11 — Ver Uma Mulher, de Annemarie Schwarzenbach (tradução de Isabel Castro Silva)
Esta novela foi escrita pela autora aos 21 anos e narra a atracção amorosa entre duas mulheres, revelando uma coragem rara na época.

12 — Mataram a Cotovia — Romance Gráfico, de Harper Lee (adaptado e ilustrado por Fred Fordham)


13 — Chico Caramelo e as Suas Ferramentas, de Chris Monroe (tradução de Maria Eduarda Cardoso)

Sobre Léxico Familiar, de Natalia Ginzburg




«O registo em tom autobiográfico esteve sempre muito presente na sua escrita. Léxico Familiar (1963) — considerado um clássico da literatura italiana contemporânea, e o principal livro da autora — tem também esse tom de quem conta de si, mas de um modo bastante singular: o “eu” que vai escrevendo aquilo que recorda não é central à narrativa, pouco aparece; percebe-se que foi participante dos acontecimentos mas que ao narrá-los se torna apenas numa sua testemunha, fazendo dos outros os verdadeiros biografados, são eles quem lhe importa. Léxico Familiar é assim uma espécie de autobiografia afectiva da autora.
Natalia Ginzburg adverte que não inventou nada, e recorda o seu “velho costume de romancista”: sempre que inventava, sentia-se de imediato impelida a destruir o que escrevera. Os nomes são reais. Escreveu apenas aquilo de que se lembrava, mas não escreveu tudo o que recordava; e de entre as lembranças deixou de fora tudo o que lhe dizia mais directamente respeito. “Não tinha muita vontade de falar de mim. Não se trata, com efeito, da minha história, mas antes, com vazios e lacunas, da história da minha família.”» [José Riço Direitinho, Público, ípsilon, 29/3/2019. Texto completo em https://www.publico.pt/2019/04/01/culturaipsilon/critica/nao-inventei-nada-1866814 ]

Sobre Todos Nós Temos Medo do Vermelho, Amarelo e Azul, de Alexandre Andrade




«Com um título tirado de uma série de quadros de Barnett Newman, Todos Nós Temos Medo do Vermelho, Amarelo e Azul, de Alexandre Andrade, é um livro de contos sobre a cor e a violência que encerra.
[…]
Não subordinando a literatura nem a realismos serôdios que trazem sempre a marca de uma das palavras mais vazias do dicionário - “atualidade”; e o distante que estamos do veredicto de Rimbaud: “Il faut etrê absolutment moderne” -, nem, também, aos imperativos televisivos dos guionistas, os contos de Todos Nós Temos Medo do Vermelho, Amarelo e Azul, o mais recente livro de Alexandre Andrade, transportam o enigma e o segredo que, entre a pintura e a literatura, transformam a arte num território tantas vezes inóspito, anterior ao homem. [..]

E se Alexandre Andrade consegue evitar uma solução fácil quando se trata das relações entre literatura e artes visuais - a écfrase, a mera descrição dos quadros que vão surgindo nos diversos contos -, num dos seus melhores momentos é a cor que invade a escrita, ao ponto de o mundo se transformar numa vertigem em que apenas esta subsiste.» [João Oliveira Duarte, i, 27/3/2019. Texto completo em https://ionline.sapo.pt/651476 ]

1.4.19

A chegar às livrarias: O Doente Inglês, de Michael Ondaatje, tradução (revista) de Ana Luísa Faria




No final da Segunda Guerra Mundial, numa villa italiana transformada em hospital de campanha, um irreconhecível aviador inglês, com o corpo queimado, absorve as atenções de Hana, uma jovem enfermeira a quem a guerra arrebatou a família e os sonhos.
As suas companhias são Caravaggio, um ladrão e aventureiro italo-canadiano de mãos estropiadas, e um jovem sikh ao serviço do exército britânico e cujo trabalho é a desminagem.
É uma atmosfera fora do mundo, onde cada um vai revelando pouco a pouco os seus segredos, à medida que os ecos da guerra se esbatem na distância.
Mas o mais misterioso é aquele homem queimado, ligado à enfermeira por um estranho vínculo, e que é ao mesmo tempo um enigma e uma provocação para os que o rodeiam. As suas recordações de traição, dor e salvação iluminam a narrativa como estilhaços de luz.

«O Doente Inglês consegue uma tripla proeza: é profundo, belo e apaixonante.» [Toni Morrison]

«Mais do que um romance, é um tapete mágico que nos transporta através de épocas e geografias […] uma cativante rede de sonhos extraordinários.» [Time]


Este livro obteve o Man Booker Prize em 1992 e o Golden Man Booker em 2018.

A chegar às livrarias: Pensamentos, de Blaise Pascal, com introdução de T. S. Eliot (trad. de Miguel Serras Pereira)





«Pascal oferece muito sobre que o mundo moderno faria bem em pensar. E de facto, por causa da sua combinação e equilíbrio únicos de qualidades, não sei de nenhum escritor religioso mais pertinente para o nosso tempo. Os grandes místicos, como São João da Cruz, são em primeiro lugar para leitores com um objectivo especialmente determinado; os escritores devotos, como São Francisco de Sales, são em primeiro lugar para aqueles que já se sentem conscientemente desejosos do amor de Deus; os grandes teólogos são para os interessados em teologia. Todavia, não consigo pensar em nenhum autor cristão, nem mesmo Newman, que mais do que Pascal devesse ser recomendado àqueles que duvidam, mas que têm a capacidade intelectual para conceber e a sensibilidade para sentir a desordem, a futilidade, a ausência de sentido, o mistério da vida e do sofrimento, e que apenas conseguem encontrar paz através da satisfação de todo o ser.» [Da Introdução de T. S. Eliot]

A Chama, de Leonard Cohen, premiado pelos livreiros de Espanha




Na passada segunda-feira, teve lugar em Madrid a segunda edição dos prémios literários de Los Libreros Recomiendan 2019 — atribuídos por livrarias independentes espanholas a obras que se destaquem pela qualidade, com o apoio da Dirección General del Libro, la Lectura y las Letras del Ministerio de Cultura y Deporte.
O prémio na categoria de poesia foi atribuído à edição espanhola de A Chama (Ediciones Salamandra), publicado em Portugal pela Relógio D’Água.

Sobre Na América, disse Jonathan, de Gonçalo M. Tavares




«Um dos romances póstumos de Franz Kafka ficou conhecido como “América”, embora o título original fosse “O Desaparecido”. E talvez ambos os títulos justifiquem que a peregrinação americana de Gonçalo M. Tavares se  assuma como um “projecto Kafka”, tarefa que consiste em ir fotografando o icónico escritor no meio das mais diversas e às vezes mais inóspitas paisagens americanas, como uma loja de conveniência ou um deserto. […]
Do Wyoming ao Dakota do Sul, Gonçalo M. Tavares parece manifestar um certo interesse pela “América profunda” ou esquecida, o que não impede que  livro seja uma abstracção mitológica, não um inquérito etnográfico. A mitologia americana é-nos muito familiar, e o viajante descreve e fotografa lugares com um estatuto especial na nossa imaginação, desde logo na imaginação cinéfila, de Venice Beach a Cabo Canaveral, de Los Angeles a Las Vegas. A América confunde-se com as imagens da América, imagens como as estradas infindáveis, como os grandes vazios. E o livro quer-se mais geografia física do que humana, uma geografia imaterial que nasce da materialidade das coisas e das nossas ideias acerca das coisas.

Se o autor viaja acompanhado de um tal Jonathan, logo entendemos que Jonathan não é ninguém, é um amigo imaginário, uma personagem, ou uma espécie de ciborgue, um “tu” utilitário com quem o viajante possa ir mantendo um diálogo, uma interacção. Em última análise, “Na América, disse Jonathan”, mais do que uma ficção ou um diário, é uma “performance”, um jogo ilustrado e humorístico que produz imagens tão inusitadas e cheias de possibilidades como a cabeça de Kafka dentro de um capacete de astronauta.» [Pedro Mexia, Expresso, E, 23/3/2019]