«“Um Bailarino na Batalha”, de Hélia Correia, não parece um poema, mas é-o, em certa medida. Percorro definições de poesia que o atestem, que isto da teoria literária pouco diferente será da água benta, cada qual toma de quanta quer e como lhe convém. Benzo-me, com uns salpicos abençoados por Valèry, para dizer ao que venho. Se bem não faz, também não prejudica: “A poesia é o desenvolvimento de uma exclamação”. E por aqui se comprova o lirismo de Hélia Correia, ainda que numa novela que não descuida todas as categorias da narrativa: os vários tempos e ritmos a atravessar a temporalidade ficcional que manipula, por sua vez, os cordéis da acção, as personagens, o espaço e o narrador a um canto, afadigado, gerindo pontos de vista. Tudo isto ao serviço de uma inquietação aguda, de uma exclamação crescente: espécie de ponto luminoso que se acende, brilha até à sua intensidade máxima, quase cegando, e que depois se apaga. A luz fere, desaparece, fugaz, mas o golpe de luz permitiu ver, mesmo por breves instantes, uma imagem que persiste como emoção exclamativa, um brado que se ouve, apesar de embutido na garganta. Meu tão certo secretário, já que cá viestes, dando-vos a esta maçada, permiti-me continuar, que as metáforas são como as cerejas…» [Rita Taborda Duarte, Hoje Macau, 11/3/2019. Texto completo em https://hojemacau.com.mo/2019/03/11/o-desenvolvimento-de-uma-exclamacao/ ]
15.3.19
14.3.19
Sobre A Mulher de Trinta Anos, de Honoré de Balzac
Disponível em www.relogiodagua.pt e a chegar às livrarias: A Mulher de Trinta Anos, de Honoré de Balzac (trad. Dóris Graça Dias)
A Mulher de Trinta Anos foi publicado em 1832 e, tal como outros romances de La Comédie humaine, evidencia a atualidade da obra de Balzac.
Quem afinal é essa mulher de trinta anos, nascida na primeira metade do século xix em França?
Submetida à obrigação do casamento, atravessa um momento decisivo da vida, pois é então que pode conhecer a liberdade, o que para o caso significa ter um amante, ligação que a sociedade pune.
Balzac denuncia a condição das mulheres casadas com homens de quem só descobrem os defeitos a meio das suas vidas. O autor constata o fracasso do casamento de amor e, com os filhos nascidos sem amor, a frustração da maternidade.
Mas esta história, onde a sexualidade desempenha um papel importante, não se confina às relações conjugais e amorosas, cruzando-se com episódios aventurosos e reivindicações políticas e sociais.
Contrariando uma visão que prevaleceu até há pouco, Balzac defende que a mulher tem o direito de amar e ser amada em qualquer idade, mesmo fora do casamento, e de ser reconhecida pela sociedade pelo que é e não apenas como esposa e mãe.
De Honoré de Balzac a Relógio D’Água tem publicados A Rapariga dos Olhos de Ouro, Pierrette seguido de O Padre de Tours e Sarrasine.
Sobre Húmus, de Raul Brandão
Húmus, de Raul Brandão, foi um acontecimento insólito na vida literária portuguesa, como um desses rochedos que, sem razão aparente, surgem no meio de uma planície.
Publicada em 1917, e refundida em posteriores edições, a obra não tem relação com a dos autores da Geração de 90 nem com as dos escritores estrangeiros seus contemporâneos, como Romain Rolland, Pirandello e Gorki. As únicas semelhanças poderão ser com a de Dostoievski e a que Kafka ia escrevendo.
O próprio Raul Brandão situou nas suas Memórias o tempo em que o Húmus se inscreve: «A nossa época é horrível porque já não cremos — e não cremos ainda. O passado desapareceu, de futuro nem alicerces existem. E aqui estamos nós sem tecto, entre ruínas, à espera…»
Maria João Reynaud definiu na edição das Obras Completas de Raul Brandão o contributo do autor de Húmus: «Se a arte de Raul Brandão surge muitas vezes na fronteira da vida com a literatura, é porque ele concebeu a função do escritor em termos autenticamente modernos, isto é, em íntima conexão com uma atitude intelectual que a cada momento reivindica o livre exercício do espírito contra todas as formas de degradação dos valores humanos e contra todos os dogmas.»
No centenário do nascimento de Iris Murdoch
No ano em que se comemora a 15 de Julho o centenário do nascimento de Iris Murdoch, a obra da escritora irlandesa adquire renovada importância, sendo objecto de diversas reedições.
Num mundo dominado pela ciência, os seus romances, desde o inicial Sob a Rede, de 1954, até ao último, Jackson’s Dilemma (1995), afirmaram a importância da literatura.
Iris Murdoch nasceu em Dublin, na Irlanda, numa família protestante, mas cresceu e viveu em Londres.
No final da década de 1930, começou a estudar Filosofia e Línguas Clássicas em Oxford, ao lado de uma brilhante geração de filósofas, como Philippa Foot, Mary Beatrice Midgley ou Elizabeth Anscombe.
Estudou Grego com Eduard Fraenkel, o que lhe permitiu aprofundar o seu conhecimento da obra de Platão, cujas concepções influenciaram toda a sua obra (outras referências foram Kant, Simone Weil e Wittgenstein).
Casou em 1956 com o crítico literário John Bayley, com quem viveu até morrer em 1999. O seu amante, Elias Canetti, inspirou muitas das suas personagens masculinas.
Iris Murdoch começou por escrever ensaios de filosofia, sendo a autora da primeira monografia britânica de Jean-Paul Sartre.
Mas, como afirmaria em entrevista, «a literatura faz muitas coisas, a filosofia só uma».
Vários sos seus romances podem ser considerados como partindo de um gesto em que a autora lançou personagens no meio das casas, das ruas e dos parques londrinos e os deixou à solta, acompanhando as suas vidas, dúvidas, vocações e amores.
Escreveu 25 romances, sendo classificada muitas vezes na década de 70 como a mulher mais brilhante de Inglaterra. Reivindicou a importância da espiritualidade em relação à religião e a narrativa como espaço dramático de averiguação moral.
Recusou o modernismo de Joyce, inspirando-se na tradição do romance clássico de Dostoievski e Tolstoi, Eliot e Proust, que inovou. Mas Shakespeare e o teatro atravessaram toda a sua obra, a começar no que é talvez o seu mais importante romance, O Mar, o Mar.
Na Relógio D’Água tem publicados A Máquina do Amor Sagrado e Profano, O Mar, o Mar, O Bom Aprendiz, Um Homem Acidental, O Príncipe Negro, Uma Cabeça Decepada, Sob a Rede, O Sino e O Sonho de Bruno.
13.3.19
Sobre Na América, disse Jonathan, de Gonçalo M. Tavares
Carlos Vaz Marques falou sobre «Na América, disse Jonathan», de Gonçalo M. Tavares, no programa Livro do Dia de 11 de Março na TSF. O programa pode ser ouvido aqui: https://www.tsf.pt/programa/o-livro-do-dia/emissao/na-america-disse-jonathan-de-goncalo-m-tavares-10665594.html?autoplay=true
Sobre O Aroma do Tempo, de Byung-Chul Han
Byung-Chul Han continua neste livro a sua abordagem filosófica de processos marcantes da sociedade atual, neste caso daquilo que considera ser uma crise temporal.
Segundo o autor germano-coreano, não estamos perante uma aceleração do tempo, mas sim de uma atomização e dispersão temporal, de uma dissincronia. É isso que faz com que qualquer instante pareça igual a outro e não exista nem um ritmo, nem um rumo, que confira significado às nossas vidas.
Numa constatação que tem que ver com as conceções de Zygmunt Bauman sobre a atual «sociedade líquida», Byung-Chul Han diz que tudo é vivido como efémero, sensação essa em que nós próprios estamos incluídos. É assim que a morte surge como um instante mais, prematuro e quase sempre sem sentido.
Tal como nas suas obras anteriores, de A Sociedade do Cansaço até A Agonia de Eros, aborda as causas dessa evolução e reflete sobre a possibilidade de a inverter. Para o filósofo, o final do tempo como duração narrativa não teria de implicar um vazio temporal. Existe, pelo contrário, agora a possibilidade de uma vida que prescinda da teologia e da teleologia e que apesar disso tenha um aroma próprio. Para isso seria necessário recuperar conceitos de Hannah Arendt, pois a crise temporal só poderá ser ultrapassada quando a vita activa acolher de novo a vita contemplativa.
Sobre O Banqueiro Anarquista e Outros Contos, de Fernando Pessoa
«Tínhamos acabado de jantar. Defronte de mim o meu amigo, o banqueiro, grande comerciante e açambarcador notável, fumava como quem não pensa. A conversa, que fora amortecendo, jazia morta entre nós. Procurei reanimá-la, ao acaso, servindo-me de uma ideia que me passou pela meditação. Voltei-me para ele, sorrindo.
— É verdade: disseramme há dias que você em tempos foi anarquista…
— Fui, não: fui e sou. Não mudei a esse respeito. Sou anarquista.
— Essa é boa! Você anarquista! Em que é que você é anarquista?... Só se você dá à palavra qualquer sentido diferente...
— Do vulgar? Não; não dou. Emprego a palavra no sentido vulgar.»
O Banqueiro Anarquista foi publicado no 1.º número da revista Contemporânea, saído em 1 de Maio de 1922.
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