6.3.19

Elena Ferrante em entrevista no Expresso




«Foi “A Amiga Genial” que deu a conhecer [Elena Ferrante] ao mundo. O livro foi entretanto adaptado para televisão e a série pode ser vista na HBO. Assim começa a conversa, por escrito, entre uma professora de literatura da Universidade de Oxford e a autora que escreve em italiano.




[Elena Ferrante:] A definição das psicologias é parte essencial do trabalho de um narrador. Apuram-se as razões superficiais e as razões mais profundas que orientam o modo de agir e de reagir das personagens no decurso do caso. Mas aquilo que decide o bom sucesso de uma personagem é muitas vezes uma meia frase, um substantivo, um adjetivo que bloqueia o mecanismo psicológico como um parafuso lançado na engrenagem, e que gera um efeito já não de dispositivo bem governado, mas de carne e de sangue, de vida autêntica, e por isso incoerente e imprevisível. No cinema este efeito é dado, creio eu, por uma cintilação no olhar, por um esgar irrefletido, por um gesto inesperado. É o momento em que o esquema psicológico rompe e o personagem adquire densidade.» [Entrevista de Merve Emre, Expresso, E, 2/3/2019]

4.3.19

A chegar às livrarias: Hamlet, de William Shakespeare (trad., introd. e notas de Gualter Cunha)





«Ser ou não ser

As palavras iniciais do mais célebre solilóquio de Hamlet são certamente as mais conhecidas de toda a obra de Shakespeare e mesmo de toda a literatura inglesa, porventura até as palavras mais citadas da literatura universal. Pelo modo como equacionam em termos absolutos o mais fundamental sentido da existência, podem ser aplicadas às mais diversas situações imagináveis, trate‑se de pessoas ou de coisas, de caracteres ou de atributos, de estados de espírito ou de opções de vida. Pela sua concisão e simplicidade, facilmente preservadas em tradução (em português é até possível preservar a cadência monossilábica), tornaram‑se numa fórmula aplicável a qualquer situação humana, independentemente dos possíveis sentidos que lhes possam ser atribuídos no contexto específico da obra a que pertencem. Com efeito, é muito frequente estas palavras aparecerem associadas ao momento da peça em que Hamlet contempla uma caveira, quando na verdade as duas situações ocorrem em circunstâncias distintas sem qualquer relação directa entre uma e outra.

A coincidência entre estas duas situações dentro do nosso imaginário cultural, embora não tenha lugar na peça, é, contudo, reveladora do relacionamento comummente estabelecido entre o solilóquio e o tema da morte, o qual é sem dúvida central nas elucubrações de Hamlet, neste momento como também na cena do cemitério em que ele contempla a caveira do bobo da corte de seu pai que tanto o tinha divertido quando ele era ainda criança.» [Da Introdução]

Sobre Todos Nós Temos Medo do Vermelho, Amarelo e Azul, de Alexandre Andrade




«Logo no primeiro conto deste magnífico livro de Alexandre Andrade, uma artista plástica bastante esquiva mete conversa com um dos visitantes da sua exposição, apenas porque ele não a reconhece quando a vê na rua, do lado de fora da galeria. Às tantas, a pintora evoca um quadro de Barnett Newman (“Who’s Afraid of Red, Yellow and Blue III”) e recorda o facto de essa obra ter sido retalhada, com um x-acto, por um pintor esquizofrénico que colocou no ataque um “sentido de missão”, na tentativa de “livrar a humanidade de um perigo imenso”. Esse perigo nasce da vertigem que uma tela pode provocar a quem a contempla: “É demasiado humana a tentação de projectarmos os nossos anseios, terrores e desejos naquela superfície sem fim.” O que une as histórias de “Todos Nós Temos Medo do Vermelho, Amarelo e Azul” é a consciência dessa vertigem, desse mistério, dessa pulsão. […]
Já o melhor conto do livro — e provavelmente o melhor conto que o autor destas linhas leu nos últimos anos (em qualquer língua) — decorre em Odivelas, num edifício “cheio de luz” e paredes de vidro, que alberga uma incubadora de startups (alvo de deliciosa sátira). […] A escrita de Alexandre Andrade é sempre imaculada, mas aqui ergue-se a alturas estratosféricas. Sem risco de exagerar, consideramo-lo um texto perfeito.» [José Mário Silva, Expresso, E, 2/3/2019]

Sobre O Amante, de Marguerite Duras




O Amante é, em larga medida, um romance autobiográfico.
A narradora vive desde a infância com a mãe e os irmãos na Indochina Francesa. Tem quinze anos quando, ao atravessar um afluente do Mékong, conhece um chinês rico e experimentado nas lides do amor, por quem se apaixona. Tudo parece separá-los, a idade, a riqueza e os preconceitos, que se opõem a uma relação amorosa entre um asiático e uma europeia.
A narrativa fala das incertezas de uma adolescente que tem a sua primeira experiência do amor físico, se lança na travessia dos sentidos, e procura a libertação do domínio da mãe e da asfixiante relação que esta tem com o filho mais velho.
Esta paixão adolescente decorre num cenário exótico, perverso, num fundo de lentidão e meandros asiáticos. 
Quase tudo parece esbatido pela memória, a adolescente de rosto infantil e precoce com um chapéu de homem e sapatos de baile, ou a mãe, que luta contra a ruína familiar, ou mesmo a escandalizada comunidade branca. Nítido, só o homem jovem numa barcaça, junto da limusina e do motorista. Ele será a personagem nítida, com uma posição clara, a do amante que dá título ao livro.
Publicado em 1984, O Amante recebeu o Prémio Goncourt e o Prémio Ritz Paris Hemingway, para o melhor romance publicado em inglês, em 1986.

Sobre Musicofilia, de Oliver Sacks




Oliver Sacks explora o lugar que a música ocupa no cérebro e como é que ela afecta a condição humana. Em Musicofilia, o autor apresenta uma variedade daquilo que designa por «desalinhamentos musicais». Entre eles: um homem atingido por um relâmpago que subitamente deseja ser pianista aos quarenta e dois anos; um grupo de crianças com síndrome de Williams, que desde a nascença são hipermusicais; pessoas com «amusia», para quem uma sinfonia soa a ruído de panelas; e um homem cuja memória dura apenas sete segundos excepto quando se trata de música.



1.3.19

Sobre Marlon James






«Bem-vindos ao universo criado pelo jamaicano Marlon James. Uma África ficcional, civilização geradora de lendas e mitos que começou em Black Leopard, Red Wolf, primeiro volume de uma trilogia já com edição portuguesa confirmada. É o início de uma viagem que pode não ter fim. “A criança morreu. Não há nada mais para saber.” Tudo podia acabar aqui, mas começa. São as primeiras palavras da ambiciosa trilogia — protagonizada por um homem chamado Tracker — do jamaicano de 48 anos, vencedor do Booker em 2015 com Breve História de Sete Assassinatos (Relógio D’Água, 2016), romance polifónico sobre os homens que mataram Bob Marley. Nas entrevistas que James foi dando sobre o livro, avisara de que vinha aí uma espécie de Game of Thrones africano. […] 
No princípio do livro uma criança morreu e isso gera o maior dos silêncios. Marlon convoca essa ausência de som, de palavras. Dá um tempo, e entra depois num imprevisível túnel de sentimentos povoado por feiticeiros e vampiros, 640 páginas na edição inglesa, do primeiro volume de uma trilogia com direitos comprados por Hollywood, quando Breve História de Sete Assassinatos está a ser adaptada a série apela HBO (não sem umas palavras azedas de James aos produtores por não concordar com algumas decisões), e uma ou duas marcas: a cada vez maior ligação entre literatura e televisão e a fuga de muitos escritores para universos fantasiosos e especulativos, talvez como escape de um presente que, entretanto, tantos outros autores preferem para explorar numa escrita mais próxima do documentário ou do ensaio jornalístico. A trilogia de Marlon James já foi comprada em Portugal, pela Relógio D’Água e ainda não há data para a publicação do primeiro volume.» [Isabel Lucas, Público, ípsilon, 1/3/2019]

Sobre Filosofia da Aventura e Outros Textos, de Georg Simmel




Muitas vezes, um acontecimento vulgar transforma-se numa aventura devido à intensidade das tensões e emoções que o acompanham. É apenas um fragmento da vida entre outros, mas pertence a formas que, para lá da contingência dos conteúdos, possuem a força secreta que permite sentir por instantes uma condensação da vida nelas acumulada.


De Georg Simmel a Relógio D'Água editou também Fidelidade e Gratidão e Outros Textos e Fragmento sobre o Amor e Outros Textos.