13.2.19

Sobre A Origem do Homem e a Selecção Sexual, de Charles Darwin




Em A Origem das Espécies, Charles Darwin recusou-se a escrever sobre a evolução humana, por acreditar que o tema estava «rodeado de preconceitos». Mas desde os anos 30 do século XIX que reescrevia as notas de A Origem do Homem, que só seria publicado em 1871. O livro insere abertamente os macacos na nossa árvore genealógica e considera as raças uma única família, diversificada pela «selecção sexual» — a provocadora teoria de Darwin que diz que a escolha por parte das fêmeas dos machos em competição leva a características raciais divergentes. Por tudo isso, A Origem do Homem de Darwin continua a influenciar a maneira como nos vemos enquanto seres humanos.

«Nenhum homem poderia ter escrito sobre A Origem do Homem melhor que Charles Darwin. E nenhum livro criou uma tempestade tão duradoura, desde os tempos vitorianos até aos tempos modernos, com o seu argumento sobre a evolução humana e o mecanismo de divergência racial a que Darwin chamou “selecção sexual”. Sigmund Freud considerou-o um dos “dez livros mais importantes de todos os tempos”. Para George Eliot e Thomas Hardy, a obra intensificou os temas da ficção inglesa. E para cada Leslie Stephen, “feliz por ver os pobres animais a vingarem-se”, houve um deão de Canterbury a queixar-se dos cientistas que “apagaram a nossa existência”. Alguma vez um livro influenciou deste modo o mundo da ciência, literatura, teologia e filosofia?» [James Moore e Adrian Desmond]

Este e outros livros de Charles Darwin disponíveis aqui: https://relogiodagua.pt/?s=darwin&post_type=product

A chegar às livrarias: Na América, disse Jonathan, de Gonçalo M. Tavares





Califórnia, 7 de Julho de 2016

No meio da floresta das sequóias, sinto-me perdido. Já andei muito. Tento situar-me em relação à entrada.

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Num belo texto, alguém pergunta: «Qual a distância a percorrer para penetrar numa floresta?» E conta-se que uma criança uma vez respondeu, simplesmente: «Até meio.» E, sim, acrescenta-se no mesmo texto, esta resposta é a certa. Entra-se até meio da floresta, a partir daí «está-se a sair».

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Estar perdido, entre muitos indicadores, é também isto: não saberes se estás a entrar ou a sair da floresta.


Florida, 17 de Agosto de 2016

Everglades. No pântano, crocodilos.
Alguém pergunta sobre um crocodilo. É verdadeiro ou falso?
Não é verdadeiro nem falso, está morto.

12.2.19

Sobre A História, de Elsa Morante




A História foi publicado em 1974 e tem como cenário a cidade de Roma durante a Segunda Guerra Mundial. 
Num dia de janeiro de 1941, um soldado alemão caminha pelo bairro operário de San Lorenzo. Àquela hora pouca gente se vê nas ruas.
No seu deambular sem rumo, o soldado, alto, louro e um pouco embriagado, encontra Ida, uma professora viúva que regressa a casa depois do trabalho.
O soldado segue Ida até ao humilde andar que partilha com o filho. Viola-a e depois, com um pedido de desculpas, fuma um cigarro, sai e nunca mais saberemos dele.
Deste ato brutal, mas que a guerra torna quase banal, nasce uma criança, e a história da família judia de Ida vai encher as muitas páginas de um romance que iluminou toda a segunda metade do século xx.

“Este nosso mundo cai aos pedaços… Só tu, Elsa, consegues dar-lhe forma e dignidade.” [Italo Calvino]

“Como romancista e como leitora, o que senti ao ler A História foi profunda gratidão para com Elsa Morante.” [Natalia Ginzburg]

Sobre Memórias do Subterrâneo, de Fiódor Dostoievski




«Eu sou um homem doente… Sou um homem mau. Sou um homem nada atraente. Penso que sofro do fígado. Aliás, não percebo patavina da minha doença nem sei ao certo de que é que sofro. Não me trato e nunca me tratei, embora respeite a medicina e os médicos. Além do mais, sou supersticioso em extremo; bem, o suficiente, ao menos, para respeitar a medicina. (Tenho instrução bastante para não ser supersticioso, mas sou supersticioso.) É por maldade que não me quero tratar. Isto é uma coisa que vocês, leitores, por certo não podem compreender. Pois, mas eu compreendo.»

11.2.19

Sobre Léxico Familiar, de Natalia Ginzburg




«Num belíssimo livro de memórias, Natalia Ginzburg escreveu sobre histórias da sua família, situações iguais às de tanta gente, às de toda a gente


Última de cinco irmãos de uma família burguesa de origem judaica instalada em Turim nos anos do fascismo, Natalia Ginzburg (1916-1991) escreveu romances autobiográficos lúcidos e límpidos, mas a sua melhor autobiografia é uma biografia dos outros. Em “Léxico Familiar” (1963) os outros é que importam, e o “eu” apaga-se, de modo que até instantes decisivos como o casamento da autora, o nascimento dos filhos, a prisão e morte do marido, aparecem de fugida, numa frase, meia frase. Ginzburg diz numa nota introdutória que não inventou nada, que escreveu aquilo de que se lembrava, tal como se lembrava; mas também nota que a memória é feita de fragmentos e lacunas, de omissões, e que por isso uma autobiografia se lê “como se fosse um romance”.» [Pedro Mexia, E, Expresso, 9/2/2019]

Sobre Agustina Bessa-Luís



Um retrato de mulher à sombra de Oliveira iluminou a Berlinale



A Portuguesa, de Rita Azevedo Gomes, baseado em narrativa de Agustina Bessa-Luís, brilha no Festival de Berlim.

A Portuguesa, de Rita Azevedo Gomes, filme seleccionado para a secção paralela Forum, começou em Berlim o seu périplo europeu, depois da estreia em Novembro no festival argentino Mar del Plata. 
O filme tem como argumento um texto de Agustina Bessa-Luís, que por sua vez se inspirou em “A Portuguesa», de Robert Musil. Contrastando com o Inverno grisalho lá fora, a realizadora de A Vingança de uma Mulher e Correspondências constrói, com um passe de magia, uma colorida fábula medieval sobre uma dama lusa casada com um conde guerreiro, o senhor Von Ketten (ou “senhor dos grilhões”) que passa mais tempo fora de casa a guerrear.
Não é – nunca foi – segredo para ninguém a dívida que Rita Azevedo Gomes sempre teve para com o mestre nortenho, de quem se assumiu sempre discípula devota e que nunca escamoteou na sua escassa filmografia. Mas A Portuguesa deixa, de algum modo, a sensação de estar aqui o equivalente de Vale Abraão na obra da cineasta – um retrato de mulher fogosa e desafiadora das normas, que enfeitiça e horroriza aqueles que a rodeiam e que admite ser ateia e blasfema. Já dizia a célebre frase, “as meninas boas vão para o céu, as más para todo o lado”, e a pele de alabastro e o cabelo cor de fogo de Clara Riedenstein, presença aparentemente de porcelana, escondem uma determinação implacável – ela não é uma menina boa.
[A partir do artigo de Jorge Mourinha, Público, 8/2/2019; imagem do filme A Portuguesa, de Rita Azevedo Gomes]

Sobre O Náufrago, de Thoma Bernhard




Neste seu livro, Thomas Bernhard fala da morte. A do músico Glenn Gould e a de Wertheimer, igualmente músico, que se suicidou.
O narrador é o único que abandonou a música, oferecendo o piano à filha de um professor de província, quando compreendeu que nunca poderia igualar Glenn Gould.

Este romance, onde se fala também de Lisboa e da costa de Sintra, que Bernhard conhecia bem, é um profundo monólogo sobre a arte e a psicologia do artista e uma espécie de composição sinfónica sobre essa mentira/verdade que é a arte.