10.12.18

Comemorando a Hora Clarice




Para comemorar a Hora Clarice, que a 10 de Dezembro celebra o nascimento da autora de Perto do Coração Selvagem, a Relógio D’Água publica duas obras: Todas as Crónicas e Correio para Mulheres.



Clarice Lispector escreveu para os jornais crónicas destinadas a um público feminino. Fez isso desde os tempos de estudante de Direito, quando fez reportagens para o jornal A Noite, até ao período final da sua carreira, quando entrevistava personalidades da vida cultural para revistas semanais.
No entanto, para estabelecer uma distinção em relação à sua obra literária, usou nesses trabalhos jornalísticos os nomes de Helen Palmer, Tereza Quadros e Ilka Soares. 
Neste Correio para Mulheres, foram reunidos textos antes publicados em Correio Feminino e Só para Mulheres, oferecendo-se ao leitor uma visão de conjunto deste trabalho de Clarice Lispector. Por vezes, entre conselhos diversos, muitas vezes de caráter prático, há cintilações literárias inconfundíveis do estilo de Clarice Lispector.




Todas as Crónicas reúne pela primeira vez num só volume toda a obra de Clarice Lispector como cronista, incluindo mais de uma centena de textos inéditos.

«Melhor do que Borges.»[Elizabeth Bishop]

«A maior escritora latino-americana de prosa.» [The New York Times]

«Um dos génios escondidos do século XX, na mesma liga de Flann O’Brien, Borges e Pessoa — original e brilhante, acutilante e perturbador.» [Colm Tóibín]

«Senti-me fisicamente abalada pelo seu génio.»[KATHERINE BOO, Financial Times]


«Clarice Lispector possuía uma inteligência dura como um diamante, um instinto visionário, e um sentido de humor que ia desde a admiração ingénua até à comédia mais perversa… Lispector tenta captar o que é pensar na nossa existência enquanto ainda estamos nela — no “maravilhoso escândalo” da vida, como a autora diz. Um trabalho espetacular, sem uma real continuidade dentro da literatura nem fora dela.» [Rachel Kushner, Bookforum]

A chegar às livrarias: Eu Vou, Tu Vais, Ele Vai, de Jenny Erpenbeck (trad. do alemão de Ana Falcão Bastos)





Uma das maiores escritoras europeias contemporâneas aborda um dos problemas mais prementes da Europa. 

Toda a vida Richard foi professor universitário, imerso no mundo dos livros e das ideias. Mas, agora que está aposentado, com os seus livros ainda amontoados em caixas, entretém-se a calcorrear as ruas da sua cidade, Berlim. Em Alexanderplatz, descobre uma nova comunidade — uma cidade de tendas, erguida por refugiados africanos. Embora hesitante, trava conhecimento com os recém-chegados, enquanto começa a questionar o seu próprio sentido de pertença a uma cidade que outrora dividiu os seus cidadãos entre eles e nós.

Uma apaixonada contribuição para o debate sobre raça, privilégio e nacionalidade, e simultaneamente uma análise excecional da demanda de um homem maduro pelo significado da sua vida.

A chegar às livrarias: A Luz da Guerra, de Michael Ondaatje (trad. Margarida Periquito)





Londres, 1945. A capital inglesa convalesce da guerra. Nathaniel, um adolescente de catorze anos, e Rachel, a sua irmã mais velha, são abandonados pelos pais, que saem do país em trabalho, deixando-os à guarda do misterioso Traça e de outros, «que podiam muito bem ser criminosos».
Nathaniel irá ajudar o Flecheiro nas suas atividades ilegais, participando, em recantos furtivos do Tamisa, no transbordo de galgos vindos de França para alimentar o negócio das corridas de cães clandestinas. Com Agnes, despertará para o amor, nos encontros iniciáticos de ambos em casas desocupadas.
Para Rachel, a nova vida será muito mais traumática.
Mas o excêntrico grupo que lhes frequenta a casa será aquilo que pretende fazer crer que é? E, mais importante do que isso, o que foi feito dos seus pais e, sobretudo, da mãe? Serão autênticas as razões que deu para partir? Que segredos esconde o seu passado?
Anos mais tarde, um Nathaniel já adulto começa a encaixar as peças de um puzzle, que fará alguma luz sobre a atroz realidade.

«O nosso livro do ano — e talvez de toda a carreira de Ondaatje.» [Daily Telegraph]

«Uma ficção tão rica, bela e melancólica como a própria vida, escrita com a linguagem visionária da memória.» [Observer]

«Um romance com um fulgor sombrio.» [The Times]


«A Luz da Guerra é uma obra-prima... Um thriller com a sedução de um conto de fadas sombrio.» [The Washington Post]

Sobre VALIS, de Philip K. Dick




Carlos Vaz Marques falou sobre VALIS, de Philip K. Dick, no programa Livro do Dia de hoje, na TSF. O programa pode ser ouvido aqui.

Sobre Vidas Escritas, de Javier Marías




«Em resultado dessa convivência de modalidades literárias, as biografias acolhidas neste Vidas Escritas são sempre relatos de corte preciso, que gerem a administração dos factos enquanto abertura permanente para a fruição. Ao historiar a vida deste conjunto de autores, Marías reflecte sempre sobre as obras por eles produzidas, bem como os processos de escrita que lhes são característicos. Por esse motivo, estes ensaios nunca são um labor exclusivista da biografia, do ensaio, nem da narrativa — mas uma superação da possibilidade de haver fronteiras entre cada uma daquelas vias. 
Insigne cultor da escrita ficcional, conhecedor profundo dos seus mecanismos, como prático e teórico, Marías quebra os pactos dos géneros com amplo donaire. Escrevendo, por exemplo, sobre Nabokov, eis que o narrador se deixa explicitar, saltando borda fora da cabine onde se ocultava na minúcia da sua navegação — “O maior prazer, o maior destino, os maiores êxtases, experimentou-os eles a sós, caçando borboletas, resolvendo problemas de xadrez, traduzindo Pushkin, escrevendo os seus livros. Morreu a 2 de Julho de 1977 em Montreux, com 78 anos, e eu soube dessa morte na calle Sierpes, ao abrir um jornal enquanto tomava o pequeno-almoço no Laredo.” (p.106) Mas Javier Marías ainda acrescentará cambiantes a este diaporama dos géneros escritos. É o caso de uma recensão às cartas trocadas entre Turgénev e Flaubert, que lhe fornece generoso pretexto para um suplemento às suas biografias. (…)
Esta edição inclui uma rubrica que fez parte de Literatura e Fantasma, mas que Javier Marías incorporou numa reedição de Vidas Escritas: Mulheres Fugitivas. Do conjunto destes poderosos retratos femininos, destaca-se aquele que o escritor dedica a Emily Brontë. Um dos vários casos em que Javier Marías faz da biografia um momento de exemplar concisão. Uma brevidade que não inibe, nem o pormenor, nem a liberdade dos relatos — “O senhor Bontë — que exotizou o seu original Brunty durante a sua passagem, como não podia deixar de ser, por Oxford (talvez porque bronte significa ‘trovão’ em grego) — tinha fama de excêntrico e de austero, e, apesar de as informações existentes terem origem em fontes não muito fidedignas (porque ressentidas), afirmava-se que no seu zelo se recusava a dar carne às filhas e as condenava a um regime de batatas” (p.214).

Vidas Escritas é um momento cimeiro da biografia praticada com informação e consumada brevidade. Modelo de escrita e erudição, a recolha de Javier Marías é o trabalho de um escritor que sente entre os seus, mesmo quando anota, sempre com elegância, as suas falhas de personalidade ou os ridículos da sua senda.» [Hugo Pinto Santos, Público, ípsilon, 7/12/2018. Texto completo aqui.]

A chegar às livrarias: Os Sonâmbulos — de Hermann Broch (trad. e prefácio de António Sousa Ribeiro)




«A nostalgia de uma totalidade e um sentido perdidos permeia toda a obra de Broch, numa combinação ambígua entre a lucidez da análise, nomeadamente a análise das modernas sociedades de massas, e o carácter problemático de uma utopia vagamente messiânica. Regressemos à interrogação obsessivamente formulada por Broch em toda a sua obra, tanto literária como ensaística: num mundo sem ética, onde está afinal a possibilidade de uma relação ética com o mundo?» [Do Prefácio]


«O tema deste vasto romance não nos é ocultado. Broch tem o cuidado de pôr em destaque os pensamentos teóricos que de outro modo procuraríamos no interior das suas histórias. Os títulos já dizem tudo: Pasenow ou o romantismo, 1888; Esch ou a anarquia, 1903; Huguenau ou o realismo, 1918; e, acima destes três nomes, a palavra nocturna que aqui nem sequer é uma imagem, mas um diagnós­tico: Os Sonâmbulos.» [Maurice Blanchot]

7.12.18

Agustina, a primeira mulher distinguida com Honoris Causa na UTAD




«O Ano Agustina culminou com a entrega à escritora do titulo Honoris Causa da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Marcelo Rebelo de Sousa comparou-a a um majestoso rio.


“Dar valor a quem o tem enobrece mais quem reconhece do que quem é reconhecido. E por maioria de razão quando, em vez de valor, estamos a falar de génio”, afirmou o Presidente da República, numa mensagem que enviou à Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), na sexta-feira, por ocasião da atribuição à escritora do título de doutor Honoris Causa. Foi o encerrar do Ano Agustina, que partiu de uma ideia de José Silva Peneda, Presidente do Conselho Geral da Universidade (…) e foi depois pensado, organizado e concretizado por um grupo de Professores da UTAD, com o apoio do Círculo Literário Agustina Bessa-Luís. Homenagear a escritora que durante toda a sua vida literária escreveu sobre aqueles lugares, fazendo dessa homenagem uma alavanca científica para a própria universidade era um dos objetivos.
O Ano Agustina culminou com o Colóquio Internacional “Toda eu sou Actividade — obras, relações, sentimentos”, que decorreu nos dias 22 e 23 e onde se reuniram vários pensadores da obra da artista, como Maria Filomena Molder, Álvaro Manuel Machado, Hélia Correia, António Preto, Guillaume Bourgois, entre outros. Em foco as diferentes facetas da escritora, como romancista, jornalista, a sua relação com o cinema, com a História, com a representação do feminino mas, sobretudo, a sua genialidade iconoclasta, a sua ironia, a sua milagrosa sabedoria. Foi ainda apresentada a reedição, pela Relógio d’ Água, do livro As Estações da Vida (com prefácio de António Barreto), um livro excêntrico à restante obra de Agustina, uma travessia nos comboios da linha do Douro, os seus painéis de azulejos, as memórias de uma infância e de um país, que Mónica Baldaque apresenta assim:



‘As Estações da Vida’ é uma joia que apetece guardar num estojo de veludo, como uma joia de família. O António Barreto, porque lhe corre o mesmo sangue de Agustina, um sangue com terra daqueles montes, água daqueles rios, fumo das queimadas das vides, percebeu o texto como ninguém, no prefácio que escreveu para esta edição.É uma conversa sem interlocutor, é uma oração aos sinais de um quotidiano, que constroem caminhos, pontes, esperanças, belas ruínas, eternas.

O Colóquio tinha por mote uma frase de Agustina encontrada numa carta a José Régio, de 12 de março de 1960: “Eu dirijo-me sempre aos tíbios, quero sacudi-los, quero despertá-los— e se alguém de alma delicada me escuta pode cuidar que me alegro em ferir e que me divirto em provocar. Não é isso. Os meus gritos e ranger de dentes não são com criaturas que em si próprias estudam o caminho; são com os que vivem glutonamente no campo da morte, são com os sãos e com os hipócritas”. Assim, o “caminho” pela obra de Agustina Bessa-Luís esteve a cargo da escritora Hélia Correia que comoveu um auditório cheio de alunos, docentes e admiradores e estudiosos ao falar da “Improbabilidade de Agustina”, do espanto, do milagre e do terror desse “diabo de mulher” que escreve como se nunca fizesse qualquer esforço, como se todo aquele caudal de ideias, sabedoria, palavras, frases onde o mundo e a humanidade encontram a sua representação perfeita o que nos faz duvidar se Agustina realmente existe ou se é uma invenção da nossa imaginação coletiva.

Em destaque no colóquio esteve ainda o menos conhecido (e reconhecido) trabalho de Agustina como jornalista. Ao longo de 56 anos a escritora colaborou em múltiplos jornais e revistas, fazendo da crónica o seu trabalho literário mais constante logo a seguir ao romance. Em 2016, todos os artigos foram reunidos por Lourença Baldaque e publicados em três grandes volumes, pela Fundação Gulbenkian, sob o titulo Ensaios e Artigos: 1951-2007.»


[Joana Emídio Marques, Observador, 29/11/2018. Texto completo aqui ; fotografia: Mónica Baldaque, representando Agustina Bessa-Luís na cerimónia na UTAD]