12.11.18

O Quarto de Marte vence Prémio Médicis 2018





O Prémio Médicis para melhor livro estrangeiro acaba de ser atribuído a O Quarto de Marte, da escritora norte-americana Rachel Kushner.

Rachel Kushner foi duas vezes finalista do National Book Award.O seu livro Os Lança-Chamas foi considerado “o melhor, mais corajoso e interessante livro do ano” por Kathryn Schulz da revista New York.

Estamos em 2003 e Romy Hall enfrenta duas penas de prisão perpétua consecutivas na penitenciária feminina de Stanville, em Central Valley, na Califórnia.
Lá fora está o mundo do qual foi privada: a cidade de São Francisco da sua juventude e o filho, Jackson. Dentro, uma nova realidade: milhares de mulheres que lutam por bens essenciais à sobrevivência; os jogos, ostentações e atos casuais de violência perpetrados por guardas e reclusas; e o modo inoperante e absurdo que pauta a vida institucional nas prisões, que Kushner evoca com humor e precisão.

“Este é o melhor livro de Kushner. Mais um enorme passo em frente.” [Jonathan Franzen, The Guardian]

“A ficção de Kushner triunfa porque está repleta de histórias vibrantes, únicas e intensamente vivas.” [James Wood

“Kushner é uma jovem mestre. Não entendo como sabe tanto e consegue passar esse conhecimento para os seus livros de uma forma tão interessante.” [George Saunders]

Sobre Fuck The Polis, de João Miguel Fernandes Jorge, em breve nas livrarias:





«Este livro abre com uma tríade de imagens que fixam a nossa atenção numa Grécia mais ampla do que a de um período áureo, ou de alguns aspectos mais fulgentes de uma civilização — “Na manhã, em direcção ao/ rio: o pedagogo, o escravo/ o amigo.” (p.11) Porque este triângulo revela, desde logo, facetas que pertencem à legenda, ao domínio do símbolo, embora representem aspectos muito concretos do mundo clássico. A servidão do pedagogo, a philia, são emblemas de uma cultura, matriz que a poesia de João Miguel Fernandes Jorge desde sempre conhece e interpela. Não nos esqueçamos de que a epígrafe inicial do seu primeiro livro, Sob Sobre Voz (in Obra Poética, vol. 1, Presença, 1987), é retirada da Ética a Nicómaco, “uma paixão ao tempo deste livro”, conforme nota do autor. Eis, portanto, o “quadro” de um mundo, o clássico, actualizado, ao longo deste novo livro, na imagem multímoda de uma Grécia arcaica e clássica que regressaremos, nas páginas deste livro. No entanto, o título deve servir-nos de instrumento de temperança e de possível aviso. A rotação no idioma, o impropério, a violência, serão valores importantes. A eles voltaremos.
Fuck the polis retém, repete e encena certos gestos que funcionam como repercussões de uma emissão iniciada na noite dos tempos.» [Hugo Pinto Santos, Público, ípsilon, 9/11/2018. Texto completo aqui.]

A chegar às livrarias: Viver, de Yu Hua (trad. de Tiago Nabais)





Depois de esbanjar a fortuna da família no jogo e em bordéis, o jovem Fugui instala-se numa quinta para fazer um honesto trabalho de agricultor. Forçado pelo Exército Nacional a deixar a família, Fugui assiste aos horrores e privações da Guerra Civil, para anos depois ser envolvido na teia de dificuldades criadas pela Revolução Cultural. Abandonado, e acabando por ter como única companhia um boi, Fugui torna-se um modelo de autenticidade e resiliência.

«Yu Hua é hoje a voz mais profunda da China. Este livro capta a essência da China e da sua gente, e chega aos ossos e ao sangue do que significa ser humano.» [Lisa See, autora de On Gold Mountain]

«Os livros de Yu Hua são sobre a China, mas a sua força é universal.» [Ha Jin, autor de À Espera]

«Um trabalho de impressionante poder emocional.» [Dai Sijie, autor de Balzac e a Costureirinha Chinesa]

«Yu Hua merece um lugar em qualquer boa estante.» [Wang Ping, autora de Aching for Beauty e Foreign Devil]


De Yu Hua, a Relógio D’Água publicou também Crónica de Um Vendedor de Sangue e China em Dez Palavras.

H. G. Cancela recebe hoje Grande Prémio de Romance e Novela da APE




Hoje, 12 de Novembro, às 18:00, na sala 2 da Fundação Calouste Gulbenkian, terá lugar a cerimónia pública de entrega do Grande Prémio de Romance e Novela da APE 2017. O vencedor é  H. G. Cancela, com As Pessoas do Drama, romance publicado pela Relógio D’Água em Maio de 2017.
O prémio foi atribuído por maioria, tendo votado a favor Isabel Cristina Mateus, José Manuel de Vasconcelos e Paula Mendes Coelho. 
Isabel Ponce de Leão e José Carlos Seabra Pereira votaram  no romance de Luís Cardoso.
Foram admitidos 72 livros publicados no ano passado, com a chancela de 35 editoras.
Dotado com o valor de 15 000 euros, o Grande Prémio de Romance e Novela da APE foi já atribuído a 30 autores.
Na Relógio D’Água, H. G. Cancela (nome literário de Helder Gomes Cancela) publicou Impunidade em 2014, que ficou em 2.º lugar no Grande Prémio de Romance e Novela da APE referente a esse ano. A editora acaba de lançar uma outra obra sua na colecção de ficção científica e fantasia, A Terra de Naumãn.
H. G. Cancela nasceu em 1967. Publicou, entre outras obras, além dos romances mencionados, AnunciaçãoDe Re Rustica e o ensaio O Exercício da Violência.
A sua ficção explora situações-limite do relacionamento humano, como a culpa, a solidão, a dor, o incesto, o sexo e o amor como desespero e possível redenção, e a violência. É uma linguagem despojada, agreste, em ruptura com as tendências predominantes na literatura portuguesa.
Em entrevista concedida a Isabel Lucas em finais de Julho de 2017, afirmava: «Para mim o essencial na literatura, no romance, é a construção de um espaço narrativo, a construção mesmo de um mundo. O mundo onde estamos e a partir do qual a realidade pareça verosímil, mesmo a mais inverosímil.»
É actualmente professor na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto.


«À minha frente, um muro. Uma faca nas costas. Eu sentia-lhe a lâmina, seca como uma luz que apenas projectasse sombra. Entre o muro e a lâmina não havia nada. Vontade, medo, expectativa, nada. Eu teria perguntado, se soubesse a pergunta, teria respondido, se houvesse resposta. Não, em ambos os casos. Não a quem perguntar, não a quem responder, não a quem acusar, eu próprio mergulhado nessa mistura de solidão e de miséria sexual de onde emergem arte, crime e religião, todos obrigados a cavar o vazio que depois se esforçam por preencher ou por dissimular. Eu duvidava, no entanto, que dos dois lados da faca o vazio fosse compatível com aquilo que o pretendia preencher. Voltei-me devagar.» [De As Pessoas do Drama]

Apresentação de Um Bailarino na Batalha de Hélia Correia na Livraria Ferin, em Lisboa




O romance Um Bailarino na Batalha de Hélia Correia vai ser apresentado na Livraria Ferin, na Rua Nova do Almada, n.º 72, em Lisboa, hoje, 12 de Novembro, segunda-feira, às 18:30.
O livro será apresentado pelo filósofo José Gil.

Um Bailarino na Batalha é o primeiro romance de Hélia Correia depois de Adoecer.
Num português que foi considerado por Eduardo Lourenço um dos mais magnificentes da literatura portuguesa, Hélia Correia aborda de um modo singular a migração de um povo que atravessa parte do continente africano em direcção à Europa.
São homens e mulheres que procuram desesperadamente alcançar o mar, que é, neste caso, símbolo da fuga à miséria.
Nessa caminhada vão-se alterando as relações entre homens e mulheres.

«Pesados como pedras, no entanto velozes como pedras, eles caminham, os últimos errantes, uns poucos dias mais adiante, os poucos dias que os separam da música dos ossos. Eles caminham, os últimos errantes, embatendo uns nos outros, repelindo, à força de olhos e de cotovelos, à força daquele ronco que lhes bate, mais do que o coração, dentro do peito, repelindo e chamando, concentrados na marcação das cenas animais, na coreografia da matilha. Pois tudo aquilo que séculos, milénios, foram acumulando, abstracções, certa elegância na sobrevivência, as leis cujo poder suspende a faca e faz descer a faca, tudo era fácil de rasgar, tudo era um mero adorno, um véu de rapariga, algo que não resiste à impiedade.

Agora dormem agitadamente, entregues uns aos outros, confiando primeiro nos laços de família, só depois na vizinhança, e confiando pouco, enfurecidos contra os próprios sonhos que impedem a vigília. Fogem da pátria. Tinham pátria? Tinham, pelo menos, povo. Porque as pátrias surgiam num momento e apagavam-se noutro. Os povos, não.»

Hélia Correia entrevistada por Diogo Vaz Pinto, no Sol:

«—Parece-lhe que é esse o momento que estamos a viver?
—É uma percepção que vou tendo. A de que depois de tanta abundância, desse convívio tão fraterno entre os povos do Ocidente, essa abundância chegou a um extremo que só podia gerar a sua própria decadência. Quando olho para o Ocidente hoje vejo uma sociedade em decadência. Vejo a construção da bela civilização ocidental a abater pela força do seu próprio peso. Porque há abundância a mais, estamos doentes de abundância. Não era preciso mais nada. Essa abundância seria o suficiente para que perecêssemos. Claro que a acicatar isso há este passo que causa uma vertigem de mil anos em vinte anos de cronologia e que é dado com a chegada das novas tecnologias. Isso sim provocou uma grande revolução, que é aterradora porque não é acompanhada pela matéria humana. E quando falo de matéria falo também de espírito, porque as próprias faculdades mentais não estão aptas a acompanhá-la. Ora, isto cria um rasgão tremendo nas nossas sociedades. Mas essa seria uma outra conversa, também ela muito longa.
E o que é que isto provocou?
De repente, os outros acordam. A nossa felicidade, que nos faz estragar tanta coisa, estragar a terra, estragar os alimentos, estragar tudo à força de tanto termos, é agora ameaçada pelo outro. Eu tinha aliás uma frase que pedi ao Saramago que ma escrevesse num cartão. Ele disse-me certa vez uma coisa magnífica: «O outro existe. Sou eu». Tendemos a esquecer-nos que também somos o outro. Estamos tão empolgados com a nossa caminhada, pela extraordinária beleza e comodidade do sítio a que chegámos, que nos esquecemos que outros ficaram para trás. E que os outros têm quereres, necessidades e ambições como nós tivemos. E há uma história de dominação por parte do Ocidente que cria ressentimentos recalcados, e quanto mais recalcados mais intensos são. 
De que modo entra aí a perigosa bondade dos ocidentais?
Esta coisa do ocidental bonzinho, que quer receber todos os refugiados, porque eles saíram de sítios horríveis, é uma construção típica de um teórico. Porque depois a prática da vida real desvenda o grande problema que está por trás disto, e que é este: enquanto temos a nossa casa, as nossas coisas, todo esse excedente de que nós vivemos, somos bons. Quando enfrentamos uma ameaça somos feras. E digo que somos feras porque são as feras que estão dotadas dos instintos que permitem a uma raça perseverar. E é a defesa animalesca, primordial, é o egoísmo que acorda nestas alturas. Porque, no fundo, o egoísmo é o grande motor dos grupos humanos em crise. E nós estamos a viver uma crise terrível. Pessoalmente, custa-me muito chegar a esta conclusão porque eu vivi de ideologia grande parte da minha vida. E a ideologia estrutura completamente um ser humano e fundamenta todas as suas reações, as suas palavras, as suas escolhas, e custa-me muito perder a ideologia. Mas eu quero ter a coragem de olhar e ver. E o que eu vejo é outra coisa. O que vejo com olhos nus, simples, só de olhar…»
[Sol, 28 de Outubro de 2018, entrevista completa em: https://sol.sapo.pt/artigo/631952/helia-correia-estamos-doentes-de-abund-ncia- ]

9.11.18

Agustina Bessa-Luís vai receber Doutoramento Honoris Causa




Em 2018, ano em que se assinalam os 70 anos da publicação de Mundo Fechado, decorrerá na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro um conjunto de iniciativas que pretendem dar a conhecer a obra de Agustina Bessa-Luís.
Terão lugar, nomeadamente, as Tardes de Agustina, cujo objetivo é proporcionar leituras diversas da obra da escritora.

No âmbito desta celebração, haverá Exposições, que terão a colaboração das Escolas Secundárias de Vila Real e da Biblioteca Municipal; um Ciclo de Cinema em torno das adaptações fílmicas de algumas das suas obras literárias; Apresentação de Livros, em articulação com a Editora Relógio D’Água; um Colóquio Internacional, a 22 e 23 de Novembro, que pretende agregar convidados em torno da obra de Agustina Bessa-Luís. No final do Colóquio, será concedido o Doutoramento Honoris Causa à escritora.
Mais informações aqui.

A chegar às livrarias: Como Derrotar Trump e Outros Ensaios, de Slavoj Žižek (trad. Miguel Serras Pereira)




«Enquanto a maior parte dos outros líderes ocidentais cruzam os braços e cometem erros, Donald Trump reforça politicamente o seu poder arrogante. A única maneira de o travar é criar uma verdadeira nova ordem mundial.
As decisões impulsivas de Trump, como a sua recusa de aceitar a declaração do G7 aprovada no Quebec, não são simples expressão dos seus caprichos pessoais. São, pelo contrário, reação perante o fim de uma época do sistema económico global, reações que assentam numa compreensão inadequada do que está a acontecer. No entanto, a visão distorcida de Trump baseia-se apesar de tudo na intuição acertada de que o sistema global existente deixou de funcionar.»

Neste conjunto de artigos, Slavoj Žižek confirma a sua capacidade de abordar de modo original temas da atualidade.
É o caso da ação de Trump, do conceito de felicidade, da relação entre a sexualidade e do movimento liberal, dos direitos de robôs, dos problemas de identidade, do politicamente correto no Vaticano e até do casamento real britânico.

«Žižek é um pensador que considera que nada está fora do seu campo de reflexão: o resultado é profundamente interessante e provocador.» [The Guardian]

«Žižek não deixa nenhum fenómeno social ou cultural por teorizar. É um mestre da observação.» [The New Yorker]