31.10.18

A chegar às livrarias: A Saga de Selma Lagerlöf, de Cristina Carvalho




«Este romance biográfico foi escrito a horas imprecisas do dia ou da noite; não obedeceu a nenhuma rotina disciplinada. Como em todos os actos de paixão, fui sobrevivendo em equilíbrios improváveis.
Conheci regiões que jamais imaginei conhecer, reconheci a vida desta pessoa, imaginei-a com a possível intimidade.
Julguei, muitas vezes, ouvi-la.

O conhecimento dessa vida foi como o silvo das auroras boreais ou como o zurzir do relâmpago na noite profunda.»

Sobre Pais e Filhos, de Ivan Turguéniev (trad. António Pescada)




«Pais e Filhos não só é o melhor romance de Turguéniev, mas também um dos maiores romances do século XIX. Turguéniev conseguiu fazer aquilo a que se propôs: criar um personagem masculino, um jovem russo, que afirmasse a sua — do personagem — ausência de introspecção e que, ao mesmo tempo, não fosse uma marioneta nas mãos de um repórter social. Bazárov é um homem forte, sem dúvida — e muito possivelmente, tivesse ele vivido além dos vinte anos (acaba de sair do liceu quando o conhecemos), ter-se-ia tornado um grande pensador social, um médico famoso ou um revolucionário activo, para lá dos limites do romance.» [Do Posfácio de Vladimir Nabokov]

30.10.18

Hélia Correia entrevistada por Maria Leonor Nunes, no JL, a propósito do seu último romance, Um Bailarino na Batalha





«É a sobrevivência do humano que atravessa o seu último livro, Um Bailarino na Batalha, edição Relógio D’Água. Sem tempo, nem geografia, é uma ficção poética, “coreográfica”, em que perpassa o que está a acontecer no mundo contemporâneo, as migrações, os refugiados, os que fogem das guerras, das secas, da fome, os que a Europa não quer. Uma travessia do deserto e uma demanda da Humanidade, hoje como noutros tempos. 
(…)
— Do romance?
— Sim. Senti que queria escrever um poema sobre o que anda a acontecer.

— Porquê um poema?
— Porque só na linguagem poética consigo dar eco ao que me preocupa. E pensei que iria escrever e dar o nome Um Bailarino na Batalha a esse livro.

— E sentiu que o título se ajustava ao poema?
— Adaptava-se. O nome vem de Nietzsche e tenho uma imagem muito forte da aflição dos cavalos na batalha. E dos homens, por contaminação, do mesmo pânico, da mesma incompreensão. Mas não usei este livro apenas para resolver o problema. Desde o início, pensei que o ia amar. Com essa espécie de luz comecei a escrever um texto poético, embora tenha narrativa e personagens.

— Em toda a sua ficção há uma linguagem poética.
— Sim, na minha prosa, a frase obedece também à música e a esse motor poético. De resto, este é um livro muito coreográfico. A dança é sempre muito forte no meu imaginário.

— A começar pela capa…
— Foi o João Barrento que traduziu a epígrafe para mim. E a capa é uma felicidade. Queria muito que fosse esta, com um bailarino de quem gosto muito,. Akram Khan.

— A sua companhia vem de novo a Portugal, em breve…
— Com In the Mind of Igor, não com a coreografia que aparece na capa do meu livro, da última vez que esteve em palco. Estreou na Grécia e chama-se Xenos, Xenofobia. Não é sobre estes problemas dos nossos estrangeiros, mas inspirado em problemas coloniais na Índia, porque ele é do Bangladeshe. Mas esse é o nome da dança e o espírito do livro. E Akram Khan é absolutamente um bailarino na batalha.» [JL, 24/10/2018]

Sobre Sonhos Elétricos, de Philip K. Dick




«Resumindo: um conjunto de histórias em que PKD agrupa diversas das suas temáticas, aplicando uma técnica narrativa sagaz que permite a leitores menos atentos fruírem de uma história de aventuras, com as características da Ficção Científica sempre em primeiro plano. Contudo, quem se detenha com um pouco mais de acuidade e aprofunde a simbologia e a metaforização das circunstâncias, rapidamente se depara com relatos de grande rigor antropológico, inseridos numa lógica civilizacional que privilegia a crítica e a denúncia.» [João Morales, no blogue BranMorrighan, texto completo aqui.]

29.10.18

Ana Margarida de Carvalho vence Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco





Pequenos Delírios Domésticos, de Ana Margarida de Carvalho, venceu, por unanimidade o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco, atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores e pela Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão.
O júri foi constituído por Cândido Oliveira Martins, Fernando Batista e Isabel Cristina Mateus, que declarou: «Trata-se de um conjunto de contos que surpreende o leitor pela invulgar actualidade temática e sociológica (dos incêndios que devastaram o país, em 2017, aos dramas íntimos de portugueses convertidos ao estado islâmico, de refugiados sírios num lar de velhos ou de uma mulher tunisina que dá à luz num barco apinhado de gente durante a travessia do Mediterrâneo, entre outros), aliadas a um notável trabalho de precisão e depuramento da palavra e, acima de tudo, a um olhar atento aos dramas humanos, independentemente do lugar mais ou menos doméstico que lhes serve de palco.»

O prémio tem o valor de 7500 euros e será entregue em data a anunciar.

Sobre Confabulações, de John Berger




«O derradeiro testemunho do autor inglês, escrito contra o “estado de esquecimento” a que a civilização contemporânea está submetida hoje em dia, por via do aparente triunfo de “uma espécie de amnésia cívica e histórica”, começa pelo poder da linguagem: “Uma língua falada é um corpo, uma criatura viva (…), e o lugar onde esta criatura reside é tanto o que não se diz quando o que se diz.” Segundo ele, vivemos num mundo onde impera o “‘comércio de palavras’ mortas”, que é preciso contrariar, dando lugar à 2confabulação de palavras”, deixando que elas se unam por nexos ainda desconhecidos, escutando o “regresso do pré-verbal”. Ver e escutar são assim instrumentos de aferição da realidade não ofuscada “pela tirania global do capitalismo financeiro”, acolitada pela mediática indústria do entretém. A arte é uma porta de entrada para o mundo não contaminado pela vulgaridade, contrariando desse modo a “solidão histórica” do tempo presente.» [José Guardado Moreira, Expresso, E, 20/10/2018]


De John Berger, a Relógio D’Água editou também Para o Casamento.

Sobre Cândido ou o Otimismo, de Voltaire




Cândido ou o Otimismo é um conto filosófico de Voltaire, publicado pela primeira vez em Genebra em janeiro de 1759. A par de Zadig e Micromégas, é um dos escritos mais famosos de Voltaire, tendo sido reeditado vinte vezes em vida do autor.
O livro é pretensamente traduzido de uma obra alemã do Dr. Ralph, pseudónimo utilizado por Voltaire para evitar a censura.
No essencial, trata-se de uma crítica às teses do filósofo alemão Leibniz, convencido da excelência da criação divina, através dos princípios da «razão suficiente» e da «harmonia preestabelecida». Voltaire faz essa crítica através das aventuras de Cândido, um jovem alemão possuidor de um espírito simples e reto, nascido como filho ilegítimo no seio da nobreza e adotado pelo barão de Thunder-ten-tronckh. É no castelo deste que vai ser educado por Pangloss, partidário, como Leibniz, de que «tudo está o melhor possível».

Depressa se torna evidente para os leitores o sarcasmo com que Voltaire trata não apenas as teses de Leibniz mas também o conservadorismo social e a nobreza arrogante.