6.9.18

Sobre A Arte da Guerra, de Sun Tzu




«Os ensaios de Sun Tzu sobre a arte da guerra são o tratado mais antigo sobre o tema, mas o alcance e a profundidade do seu juízo nunca foram ultrapassados, podendo ser considerados como a quintessência da sabedoria na condução da guerra. Entre todos os teóricos militares do passado, Clausewitz é o único que se lhe pode comparar e apesar de ter escrito mais de dois mil anos depois, está mais “datado” e, em boa parte, mais ultrapassado.
Muitos dos danos causados à civilização nas guerras mundiais do século passado teriam podido ser evitados se, à influência exercida pelos volumes monumentais de Clausewitz, intitulados Da Guerra, e que moldaram o pensamento militar da Europa na era anterior à Primeira Guerra Mundial, se tivesse misturado, temperando-o, um conhecimento da exposição de Sun Tzu sobre A Arte da Guerra. O realismo e a moderação de Sun Tzu contrastam com a tendência de Clausewitz para enfatizar o ideal racional e o “absoluto” com que se esbarraram os seus discípulos ao desenvolverem a teoria e a prática da “guerra total” para lá dos limites ditados pelo bom senso.» [Do Prefácio de Liddell Hart]

A chegar às livrarias: Os Últimos Escritos, de Lev Tolstoi (trad. António Pescada)




Além de uma selecção de cartas e diários, reúnem-se aqui reflexões que Tolstoi fez nos anos que antecederam a sua morte a 20 de Novembro de 1910 na estação de Astapovo. 
É, em particular, evidente a preocupação do autor de Anna Karénina com as questões religiosas, a arte, o amor, a educação, a violência, a paz e a morte.
Tolstoi foi excomungado pela Igreja Ortodoxa em 1901. A sua relação crítica com os poderes religiosos surge em «Resposta ao édito do Sínodo sobre a excomunhão e às cartas que recebi a esse respeito», nos fragmentos de «O que é a religião e em que consiste a sua essência?» e em «Apelo ao clero». O seu conflito com Shakespeare é evidente em «Shakespeare e o drama».
Outras questões essenciais são abordadas em «O trabalho, a morte e a doença» e «A lei do amor e a lei da violência».

Hélia Correia no lançamento de «Take Six — Six Portuguese Women Writers»




Por iniciativa da editora Margaret Jull Costa, foram recentemente publicados na Grã-Bretanha (edição Dedalus) contos de seis escritoras portuguesas, a saber: Sophia de Mello Breyner Andresen, Maria Judite de Carvalho, Hélia Correia, Teolinda Gersão, Lídia Jorge e Agustina Bessa-Luís.

A obra será lançada no próximo dia 21 de Setembro, pelas 17:00, no King’s Building, Strand Campus, no King’s College, em Londres, e conta com a presença da organizadora Margaret Jull Costa, de Hélia correia, Teolinda Gersão e Lídia Jorge.

Os contos escolhidos de Agustina Bessa-Luís são «On the Road to Emmaus», «The Conch Shell», «Green Philosophy», «The Procession», «Mushroom Weather». Os contos de Hélia Correia «Twenty Steps», «Capture» e «Two Hands».

5.9.18

Sobre A Metamorfose, de Franz Kafka




«A Metamorfose, em alemão Die Verwandlung, foi escrito durante o Outono de 1912 e publicado em Leipzig em Outubro de 1915. Em 1917 Kafka tossiu sangue, e o resto da sua vida, que se prolongou por sete anos, foi pontuado por estadas periódicas em sanatórios da Europa Central. Nesses últimos anos da sua breve existência (morreu com quarenta e dois anos), viveu uma feliz aventura amorosa com a amante em Berlim, em 1923, perto do lugar onde eu vivia. Na Primavera de 1924 foi internado num sanatório próximo de Viena, onde morreu a 3 de Junho, de tuberculose da laringe. Foi enterrado no cemitério judeu de Praga. Pediu ao amigo Max Brod para queimar todos os seus escritos, mesmo os textos publicados. Felizmente, Brod não acedeu aos desejos do amigo. (…)
Prestemos atenção ao estilo de Kafka. Na sua claridade, no seu tom preciso e formal, em agudo contraste com o assunto tenebroso do conto. Não há metáforas poéticas a adornar esta severa história a preto-e-branco. A nitidez do seu estilo sublinha a riqueza perversa da sua fantasia. Contraste e unidade, estilo e assunto, trama e forma, alcançam aqui uma coesão perfeita.» [Do Prefácio de Nabokov]

Sobre Na Rússia com Rilke, de Lou Andreas-Salomé




«Logo desde o início, o que emerge destas páginas não é a descrição (por vezes pormenorizada) das paisagens, dos lugares visitados ou dos objectos expostos em museus e igrejas, mas a leitura social (e não só) que Lou Andreas-Salomé faz das condições em que, por exemplo, algumas obras de arte foram produzidas. Há ainda uma outra singularidade: a maneira como ela se projecta — parecendo tentar quase sempre descobrir-se, e elevar-se acima do quotidiano — numa dimensão religiosa que transcende os objectos descritos, a criação artística, e os próprios artistas. Consciente do acto criativo e da sua natureza, Andreas-Salomé entrega-se a exercícios de escrita que parecem emanar de uma vontade clara de cimentar para si própria uma certa maturidade que sentia estar a chegar durante aquela viagem (que era também uma viagem de regresso a um tempo vivido naquela Rússia, que havia anos tinha deixado — por vezes, parece escrever como se a amedrontasse olhar para trás, pelo sentimento de perda que daí advém). “Aquilo a que tantas vezes chamámos o paganismo da arte talvez seja a religião antiga e autêntica que ela encerra e que só encontramos na piedade da nossa infância e no deslumbramento da contemplação: na consciência de que o exterior e o interior são o mesmo e de que toda a fé assenta nessa unidade.” Desta maneira, as suas preocupações sobre crença, religião, Deus, arte, preconceitos sociais, plenitude de vida e moral, acompanham todas as páginas deste diário.
Durante esta viagem com Rilke, e logo no início, em Maio, ambos visitaram Tolstoi, “um pequeno camponês enfeitiçado, um ser mágico”, que lhes provocou “uma impressão tão estranha e espiritual, tão impressionante e comovedora, como se se tratasse de alguém que já não pertencia a este mundo”. Esta visita a Tolstoi, e o passeio que deram com ele, trouxe a Andreas-Salomé recordações da sua infância, e com isso a descoberta do motivo da melancolia que sempre a assaltava ao partir para o campo. São estas breves notas que por vezes dão ao texto — ou a algumas páginas – uma espécie de janela para uma “intimidade” que, na maioria das vezes, está disfarçada com a cortina de um pensamento filosófico mais profundo, sobretudo na última parte do livro, mas que não deixam de ser divagações que têm a autora sempre como objecto principal.» [José Riço Direitinho, Público, ípsilon, 31/8/2018. Texto completo em: https://www.publico.pt/2018/09/02/culturaipsilon/critica/elevar-acima-do-quotidiano-1842252 ]

4.9.18

Sobre Obra Completa, de Arthur Rimbaud




«Esta edição da obra de Rimbaud, que não hesitaríamos em chamar histórica, tem um prefácio, da autoria do editor Francisco Vale, intitulado, precisamente, “A Vida Está noutro Lado”.
Como Vale sublinha, a obra de Rimbaud não deixará de antecipar o que viria a ser a sua aventurosa e dispersiva vida depois de abandonar a poesia e as paragens europeias — “A minha jornada está feita; vou deixar a Europa. O ar marinho queimará os meus pulmões; os climas perdidos tisnar-me-ão. Nadar, calcar a erva, caçar e sobretudo fumar; beber licores fortes como metal a ferver — como faziam esses caros antepassados à volta das fogueiras. Regressarei, com membros de ferro, a pele escura, o olhar furibundo; pela minha máscara, julgar-me-ão de uma raça forte. Terei ouro: serei ocioso e brutal.” (p.341); “Amei o deserto, os pomares queimados, as lojas fanadas, as bebidas requentadas.” (p.369) “Anjo no exílio”, como lhe chamou Verlaine (Les Poètes Maudits), Rimbaud parecia querer extirpar de si todo o artificialismo, qualquer laivo de mesura ou domesticação. (…)

Assinada por dois tradutores — Miguel Serras Pereira e João Moita —, esta tradução de Rimbaud dispersa a força irrefragável do poeta por um esforço realmente repartido. Tanto MSP, quanto JM, traduziram poemas e cartas, não havendo, por hipótese, uma separação das versões por géneros. Nesse particular, importará sublinhar que esta edição inclui “toda a poesia de Rimbaud e uma extensa selecção das suas cartas (excluíram-se os poemas em latim, os exercícios escolares e cartas comerciais irrelevantes)” (da ficha técnica). O que significa que estão presentes a sua poesia em verso e aquela que o poeta escreveu em prosa, e é, possivelmente, parte muito significativa da sua melhor poesia. Ou seja, Uma Temporada no Inferno e Iluminações, mas também a sua poesia “lírica” (carreguem-se todas as aspas), da qual nunca se afasta muito a sátira, o que contempla poemas tão diversos como “Ofélia”, “A Minha Boémia”, “As Cata-Piolhos”, “Soneto do Olho do Cu” (parte do “Album Zutique”); e os próprios títulos revelarão como a irreverência sempre foi algo mais do que um sinal de idade para quem deixou a escrita antes de completar vinte anos.» [Hugo Pinto Santos, Público, ípsilon, 31/08/2018. Texto completo em https://www.publico.pt/2018/08/31/culturaipsilon/critica/rimbaud-primeiro-poeta-de-uma-civilizacao-ainda-por-surgir-1842250 ]

3.9.18

Sobre Pais e Filhos, de Ivan Turguéniev




«Pais e Filhos não só é o melhor romance de Turguéniev, mas também um dos maiores romances do século XIX. Turguéniev conseguiu fazer aquilo a que se propôs: criar um personagem masculino, um jovem russo, que afirmasse a sua — do personagem — ausência de introspecção e que, ao mesmo tempo, não fosse uma marioneta nas mãos de um repórter social. Bazárov é um homem forte, sem dúvida — e muito possivelmente, tivesse ele vivido além dos vinte anos (acaba de sair do liceu quando o conhecemos), ter-se-ia tornado um grande pensador social, um médico famoso ou um revolucionário activo, para lá dos limites do romance.» [Do Posfácio de Vladimir Nabokov]