31.7.18

«Com Esta Chuva» de Annemarie Schwarzenbach no «Público»


No suplemento Ípsilon, do Público, de 27 de Julho, Mário Santos escreve sobre Com Esta Chuva, de Annemarie Schwarzenbach:

«Escritas em meados da década de 1939, estas narrativas breves são devedoras, na geografia física e cultural e na melancolia do clima emocional que as perpassa, das viagens que por essa época fez a autora ao Médio Oriente, que então prodigalizava escavações arqueológicas, e das quais resultaram livros como Inverno no Próximo Oriente, publicado pela mesma editora no ano passado.
As personagens destas histórias, por vezes só esboçadas, são pessoas em trânsito, estrangeiras em toda a parte, patriotas sentimentais sem pátria (que só existiu no passado e na infância, ou na imaginação). São expatriados, europeus, sobretudo, mas também norte-americanos, de entre as duas guerras, que conversam em terraços de hotéis suspensos “sobre o mar como a coberta de um navio”. Conversam em Beirute, no final de Setembro, como se estivessem em Juan-les-Pins, no Verão, nos bons velhos tempos. Conversam à maneira de Hemingway ou Bowles. Diz uma personagem (do conto “No regresso a casa…”): “[…] devíamos tirar a Europa da cabeça. Essa velha e querida Europa, que vive de sentimentalismo!”»



27.7.18

Sobre Breves Notas sobre Literatura-Bloom, de Gonçalo M. Tavares




«Uma linguagem literária batizada à sombra de um nome tutelar é um jogo coerente para Gonçalo M. Tavares, autor de uma galáxia em perpétua expansão, a que se juntam estas Breves Notas Sobre Literatura-Bloom (Relógio d’Água, 96 págs., €14). Um exercício sobre um fazer da literatura, arrumado em entradas em que se fala da “adiposidade” desnecessária das frases, da “necessidade de um nível de crueldade médio numa frase literária”, de “toda a literatura-Bloom” ser “feita contra os dicionários”, ou do “Sacrilégio”, isto é, “a evidência de frases sucessivas. A beleza onde não existe a mancha. A mancha onde não existe a breve beleza. A frase que pareça terminar”. “A ética Bloom implica tanto o escritor como o leitor”, descreve Borja Bagunyà no posfácio. É “uma declaração de amor radical” que conjura resistência.» [Sílvia Souto Cunha, Visão, 23/7/18]

26.7.18

Rachel Kushner na corrida ao Man Booker Prize 2018




O Quarto de Marte, de Rachel Kushner, recentemente publicado pela Relógio D’Água, é uma das 13 obras seleccionadas na longlist do Man Booker Prize 2018.
Os outros semifinalistas são Belinda Bauer, Anna Burns, Nick Drnaso, Esi Edugyan, Guy Gunaratne, Daisy Johnson, Sophie Mackintosh, Michael Ondaatje, Richard Powers, Robin Robertson, Sally Rooney e Donal Ryan.
O júri é constituído por Kwame Anthony Appiah (presidente); Val McDermid; Leo Robson; Jacqueline Rose; e Leanne Shapton.
A lista de finalistas será anunciada a 20 de Setembro e o vencedor será conhecido dia 16 de Outubro.
O vencedor da última edição do prémio foi George Saunders, com Lincoln no Bardo, também editado pela Relógio D’Água.

24.7.18

Sobre Nesta Grande Época, de Karl Kraus




José Carlos Fernandes recomenda a leitura de Nesta Grande Época para o Verão


«Ouve-se alguém reclamar “Liberdade de escolha!”, mas não há razão para alarme: não se exige democracia, tão-só liberdade de escolha dos tecidos, uma reivindicação que era fácil de satisfazer na Viena de 1910 e é ainda mais fácil hoje. Da vasta produção de Kraus para a revista satírica Die Fackel seleccionaram-se duas dúzias de artigos, que conservam boa parte da pertinência (e toda a acidez) um século depois.» [José Carlos Fernandes, Observador, 15/7/18]

23.7.18

Sobre O Quarto de Marte, de Rachel Kushner




«Romy Leslie Hall tem 29 anos e foi condenada a duas penas perpétuas (“e mais seis anos”: detalhe de um preciosismo cruel) pelo homicídio de um antigo cliente regular, que começou por gastar rios de dinheiro em lap dances, quando ela trabalhava como bailarina e stripper no clube noturno manhoso que dá título ao romance, e acabou a persegui-la de forma obsessiva. Quando Romy encontra Kurt Kennedy, o “Asqueroso Kennedy”, à sua porta, em Los Angeles, para onde se mudara, vinda de San Francisco, decide arrumar o assunto de vez. As circunstâncias do crime ficam nebulosas, nunca chegamos a saber muito bem o que aconteceu, porque isso não interessa. O que interessa é que Romy foi considerada culpada, sem atenuantes, e teve de deixar o filho de cinco anos, Jackson (“o grão de realidade” sempre no centro dos seus pensamentos e angústias), entregue aos cuidados da avó materna, única pessoa no mundo que lhe pode valer. […]
Embora o registo seja diferente daquele que marca os dois romances anteriores (Telex de Cuba e Os Lança-Chamas, ambos publicados pela Relógio D’Água), há uma qualidade plástica da prosa de Kushner que é imediatamente reconhecível. Uma espécie de textura. Uma capacidade de captar o real nos seus cambiantes mais subtis, bem como o humor nas situações mais negra. Uma inventividade verbal que a coloca, sem favor, lado a lado com os maiores escritores americanos contemporâneos.» [José Mário Silva, E, Expresso, 21/7/18]

Sobre Para o Casamento, de John Berger




«Tal como na poesia, este livro divide a nossa atenção entre o conteúdo e a forma. John Berger constrói um romance com linhas simples, elípticas e quase talismânicas. Apesar da aparente narrativa simples — em que as personagens surgem elipticamente para nos contar as suas histórias —, o romance possui uma atmosfera particular e densa, obrigando-nos a parar e a desfrutar deste stimmung particular de Para o Casamento. A história é sobre Ninon e Gino, um jovem casal de apaixonados que irão casar, apesar de Ninon ter sido diagnosticada com uma doença terminal. Ao invés de trágica, a história rejuvenesce o espírito. Trata-se de um romance sobre a transitoriedade da vida, sobre como coisas terríveis acontecem a pessoas inocentes, mas, sobretudo, como tudo por momentos pode ser eclipsado pelo mais singelo dos sentimentos: a ternura.
A história não pertence exclusivamente a Ninon e Gino, sendo que duas outras personagens, em particular, impulsionam a narrativa: Jean e Zdena, o pai e a mãe de Ninon, que viajam separadamente pela Europa para o casamento da filha. Jean, um trabalhador ferroviário francês, decide viajar na sua moto atravessando os Alpes até ao vale do Pó — sítio onde ocorrerá o casamento —, e Zdena, uma cientista, parte da Checoslováquia de comboio. O pai de Ninon dá-nos conta da liberdade que é viajar de moto, da beleza das paisagens e da solidão do percurso que, irremediavelmente, o leva a confrontar os próprios sentimentos. Por outro lado, pelos olhos de Zdena observamos uma mulher agora em profundo sofrimento. Viaja por uma Europa pós-Guerra Fria, que lhe é desconhecida, onde tudo aquilo que ela julgava serem verdades incontestáveis revelam-se agora memórias do passado.» [Joana Graça, Forma de Vida, 18/7/2018. Texto completo em: https://formadevida.org/recensoes/154-john-berger-2018-para-o-casamento-joana-graca ]

De John Berger, a Relógio D’Água acaba de publicar Confabulações.

Jaime Rocha entrevistado por Tiago Alves Costa na revista Palavra Comum




«Afirma que o seu livro “Preparação para a Noite” é um registo poético mais seu, um regresso a um ambiente mais urbano. A cidade possui essa cadência fulgurante e sedutora do real?

O meu livro “Preparação para a Noite“, publicado em 2017, na editora Relógio D’Água, de Lisboa, é um regresso à cidade, após uma tetralogia poética muito particular que atravessou uma década dedicada e inspirada praticamente ao mundo dos pré-rafaelitas ingleses, poetas e pintores do séc. XIX (Dante Gabriel Rossetti, Swinburne, Burne-Jones, William Morris, Millais, Elizabeth Siddal, entre outros). A “Preparação para a Noite” foi o retomar de um registo poético iniciado pelo meu livro “Do Extermínio”, publicado pela primeira vez em 1995. A cidade seduz-me tanto como me perturba e ameaça. É um real muito forte, perigoso, sujo, violento, onde se vive na iminência da morte, dentro de um perigo constante, sem saída, angustiante, que sufoca. Assim eu a vejo, no meio de alguma festa e de uma imensa liberdade, bem como de uma fulgurante beleza. Neste caldeirão urbano, descubro também os textos que dão forma ao meu teatro e aos meus romances (para além do texto narrativo ligado à minha memória de infância de que é exemplo a “Escola de Náufragos“, de 2016), aquilo que sobra da poesia e que é muito.»