12.4.18

Tarde de Agustina




Em 2018, ano em que se assinalam os 70 anos da publicação de Mundo Fechado, decorrerá na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro um conjunto de iniciativas que pretendem dar a conhecer a obra de Agustina Bessa-Luís.
Terão lugar, nomeadamente, as Tardes de Agustina, cujo objectivo é proporcionar leituras diversas da obra da escritora.
A primeira Tarde de Agustina acontece amanhã, 13 de Abril, no Auditório da Escolta de Ciências e Tecnologia da UTAD, em torno do “Princípio da Incerteza”, tendo como convidados Carlos Fiolhais e José Manuel Heleno.

No âmbito desta celebração, haverá Exposições, que terão a colaboração das Escolas Secundárias de Vila Real e da Biblioteca Municipal; um Ciclo de Cinema em torno das adaptações fílmicas de algumas das suas obras literárias; Apresentação de Livros, em articulação com a editora Relógio D’Água; um Colóquio Internacional, a 22 e 23 de Novembro, que pretende agregar convidados em torno da obra de Agustina Bessa-Luís. No final do Colóquio, será concedido o Doutoramento Honoris Causa à escritora.


11.4.18

A chegar às livrarias: O Manto, de Agustina Bessa-Luís (prefácio de João Miguel Fernandes Jorge)




«Tenho um amigo que nos anos difíceis de meados de 1960, nos tempos da recruta, levou consigo O Manto para Mafra e fez deste romance de Agustina a sua pequena casa entre a carreira de tiro, acampamentos e os longos corredores do mosteiro. 
A História de Job e da sua progenitura irrompe, de onde em onde, por entre lugares recônditos e as muitas personagens: o Porto, com a Ribeira, o Barredo, o Douro, desliza através do olhar de Lourença, das visões de Purinha, de Filipe e de uma memória que percorre gentes, pedras, cheiros, casas e se desdobra num pulsar profundo e secreto em luz, quase sempre coada, para que a cidade se nos descubra, em demora, como um palácio abandonado.» [Do Prefácio]

O Manto foi publicado pela primeira vez no final de 1961, segunda versão de um livro que a autora começou por chamar Os Outros Filhos de Job.
O livro tem relação com o então designado «Crime do Guincho», que vitimou um capitão do exército português a 16 de Março de 1960 na região de Sintra. O julgamento do crime realizou-se em Maio de 1961.

Sobre Mulheres Excelentes, de Barbara Pym




«Este livro é, por isso, uma comédia romântica que sugere decididamente, de forma nada romântica, que a sua narradora poderá ser mais feliz sozinha. No contexto de uma Londres pós-guerra, nos primórdios do feminismo e no fim do colonialismo, esta obra encontra a sua força em muito mais do que numa crítica social. O mundo retratado em Mulheres Excelentes não é um mundo de pobreza real: sabemos de início que uma guerra ocorrera, mas não as motivações desta e, se é verdade que as personagens de Pym parecem ter conhecido dias melhores, o romance transcende o seu contexto histórico particular. Isto porque Pym é exímia a retratar a ironia subtil e o pathos inerente ao nosso quotidiano: o prazer singelo que é comprar flores; o sentimento quase deprimente de regressar a casa para encontrar um frigorífico sem nada; jantar sozinha um ovo cozido e ouvir os risos estridentes dos vizinhos; o momento constrangedor que é ficar sem tema de conversa numa festa; o conforto de uma chávena de chá depois de um longo dia; a procura racional de uma desculpa para se beber aguardente sozinha; ou até mesmo a tentativa falhada de apimentar a vida com um novo batom.


Barbara Pym captura astutamente a realidade simples e transparente que é tentar chegar a algum lado e ao mesmo tempo aproveitar a viagem, um mundo de vaga saudade que ultrapassa quaisquer particularidades históricas, tornando-se intemporal.» [Joana Graça, Forma de Vida, 4/4/2018; texto completo em https://formadevida.org/recensoes/144-barbara-pym-2017-mulheres-excelentes-joana-graca ]

10.4.18

A chegar às livrarias: A Expulsão do Outro, de Byung-Chul Han (trad. de Miguel Serras Pereira)





A globalização exige a superação das diferenças entre as pessoas, pois quanto mais estas forem idênticas, mais veloz é a circulação do capital, das mercadorias e da informação. A tendência é para que todos se tornem semelhantes como consumidores.
Os tempos em que existia o outro estão a passar. O outro como amigo, o outro como inferno, o outro como mistério, o outro como desejo estão a ser substituídos pelo igual. E a proliferação do igual, apresentada como crescimento, faz com que o corpo social se torne patológico.
O que hoje leva a sociedade a adoecer não é a alienação, a proibição ou a repressão, mas o excesso de informação e o hiperconsumo.
A expulsão do diferente e o inferno do igual traduzem-se em fenómenos como o medo, os movimentos identitários e nacionalistas, a globalização e o terrorismo, partes integrantes de um processo marcado pela depressão e autodestruição.

9.4.18

Sobre Prefácios, de Søren Kierkegaard




José Riço Direitinho escreveu sobre Prefácios, de Soren Kierkegaard:

«Da sua exposição mordaz ninguém sai incólume, desde professores a filósofos, de autores a editores, a leitores, a autores de recensões, a jornalistas e livreiros. Para extrair o máximo efeito do género satírico por si escolhido, recorre ao ridículo de várias situações, como o faz, por exemplo, em relação à crítica literária (note-se que alguns dos seus livros não foram bem recebidos pela crítica dinamarquesa da época, e vários dos textos são também um ‘ajuste de contas’ com a imprensa): “O tal amigo da província não leu o livro, mas recebeu uma carta de um homem da capital que também não leu o livro, mas que leu a recensão, por sua vez escrita por um homem que não lera o livro, mas ouvira o que aquele homem digno de confiança, que folheara um pouco o livro na [livraria] Reitzel, tinha dito.”
Estes textos mordazes de Kierkgaard mostram a sua vontade demolidora do conceito de cultura “em função da sua época”, bem como a ideia de “nocivo” entre a proximidade da filosofia e da teologia.» [José Riço Direitinho, ípsilon, Público, 6/4/18]

Sobre Ana Luísa Amaral




Ana Luísa Amaral é a autora no mês de Abril na Livraria Lello. A Relógio D'Água publicou o seu último livro de ensaios, Arder a Palavra e Outros Incêndios, além de traduções suas de Emily Dickinson e William Shakespeare.

6.4.18

Sobre Para o Casamento, de John Berger




«Uma vez perguntaram ao britânico John Berger [1917-2017] se a sua escrita era mais influenciada pela literatura ou pela pintura. Depois de pensar um pouco, ele respondeu que era sobretudo influenciada pelo cinema. A pergunta foi feita em 2002 por um colega escritor, o canadiano Michael Ondaatje, e não por acaso essa afirmação ecoa ao ler Para o Casamento, romance de 1995 que conhece edição portuguesa pela Relógio D’Água no início de 2018, um ano após a morte de Berger.
A primeira impressão, e a mais óbvia, é a de uma ficção fortemente contaminada pela poesia (…)

Através de alegorias, da consulta a Homero, Sófocles, Epicuro, à Bíblia, aos construtores de Veneza ou de Atenas, John Berger transforma o que seria um livro negro num luminoso e pungente poema à volta de uma pergunta. Como viver o tempo presente? Não dá respostas, não é essa a sua missão, mas aponta pistas. Estamos sempre a viver nele, condenados ao nosso presente. “... o futuro de uma história, tal como Sófocles sabia, é sempre o presente. O casamento não começou. Vou contar-vos como foi. Todos dormem ainda.”» [Isabel Lucas, ípsilon, Público, 6/4/2018]