29.3.18

Agustina, viagem ao mundo próximo




O último número da revista E, do Expresso, dedica a capa a Agustina Bessa-Luís. A autora do artigo, Ana Soromenho, procurou saber o que se terá passado na vida da autora d’A Sibila e dos seus familiares mais próximos depois da recente morte do marido, Alberto Luís.

«Uma obra não começa nem acaba num número de livros editados. Tem os seus alicerces bem fundados num subterrâneo labiríntico e papéis que sustentam o território do escritor. Originais que nunca foram editados, contos dispersos esquecidos em gavetas, uma vasta correspondência com cúmplices de escrita e familiares, folhas com anotações para conferências, uma peça de teatro que não chegou a ser encenada. Material disperso, à espera de um rumo quando o autor desaparece de cena. Descendo as escadas de tapete vermelho que há quatro meses Alberto Luís tratou de deixar pronta para a mulher, dois dias antes de morrer, é impossível não pensar na carga metafórica que este gesto simboliza.
Agustina tinha a urgência da escrita, “Se vejo um papel diante de mim, apetece-me logo escrever.” Lourença Baldaque, a mais nova dos três netos de Agustina e Alberto, lembra-se de a ver chegar da rua e anotar reflexões nas margens dos livros, nos espaços em branco de uma folha depois de uma conferência. “Sempre a conheci a escrever, mas parecia não ter a preocupação da posteridade. Como se só lhe interessasse o tempo presente, o momento da escrita. Esse desprendimento talvez acontecesse por saber que o meu avô iria tomar conta de tudo. Como aliás sempre fez depois de terminado cada romance.”
O desejo de regressar ao universo literário de Agustina, e tornar novamente presente a obra para que pudesse ser transportada, foi uma determinação de Alberto Luís, seis anos depois do AVC da mulher. (…)
Através das salas silenciosas passam as estantes cheias de livros: Santo Agostinho, a obra completa de Freud, que Agustina leu como se fosse um romance devastador. “Depois disto nada ficou intacto, pensei” Num armário fechado com vidrinhos e objetos preciosos, lá está um retrato de época do tio António, da família do Douro, que morreu de tuberculose. Agustina não o conheceu, mas acompanhou-a muito na imaginação. Em cima de uma mesa estão pousadas edições antigas de “Eugénia e Silvina” e “O Mosteiro”, com cópias de manuscritos entaladas entre as folhas. Há ainda muito para fazer, há caixas que guardam o arquivo privado da escritora, onde está parte da correspondência que não foi mexida. “O arquivo de Agustina manter-se-á na posse da família, filha e netos, que o irão preservar e trabalhar. Eu e a Lourença tomaremos conta da organização”, informa Mónica. “Não haverá, em circunstância alguma, uma casa-museu Agustina Bessa-Luís. As casas-museu são todas aquelas por onde passou, onde viveu, onde se inspirou, onde escreveu, e das quais ficou a memória nas suas obras.” (…)
[Agustina] faz questão de beber uma taça [de champanhe] ao almoço e outra ao jantar, um hábito que adquiriu desde que estabilizou depois do AVC, naquele ato de voluntarismo que espantou a neta. A filha interpreta esta vontade de champanhe a acompanhar cada refeição como a celebração de mais um dia. Das imagens mais fortes que guarda de Agustina é dela na sala, a escrever com uma prancha em cima dos joelhos, papel e caneta e na mão. Mónica entrou de repente na sala, a mãe interrompeu-se e deu-lhe atenção, depois regressou ao texto, numa expressão que a filha estranhou, “como em transe”. Como se tivesse passado para um mundo diferente.» [Ana Soromenho, E, Expresso, 24/3/2018]

Sobre Arder a Palavra e Outros Incêndios, de Ana Luísa Amaral




«Pode ocorrer que uma parte dos leitores da poesia de Ana Luísa Amaral desconheçam a sua atividade de tradutora (poesia de língua inglesa) ou de professora. Este volume reúne alguns ensaios sobre poesia, sexualidade, feminismo e literatura. São textos de intervenção: podemos concordar ou não, mas é bom que sejam lidos.» [LER, inverno 2017/2018]

28.3.18

Sobre Reflexos num Olho Dourado, de Carson McCullers




«No cinema juntou Brando e Liz Taylor sob o olhar de John Huston. Na vida, juntou os personagens tensos e o dramatismo de um crime no Sul da América.» [LER, inverno 2017/2018]

De Carson McCullers, a Relógio D’Água publicou também O Coração É Um Caçador Solitário, A Balada do Café Triste, Frankie e o Casamento, Relógio sem Ponteiros e uma selecção de Contos. 

Sobre Deuses de Barro, de Agustina Bessa-Luís




«Deuses de Barro foi escrito por Agustina aos 19 anos (…), nele está já presente o seu génio, a sua capacidade inventiva e — mais — a sua sabedoria ousada e críptica, como um rio revolto e impuro.» [LER, inverno 2017/2018]

Sobre Nesta Grande Época — Sátiras Escolhidas, de Karl Kraus




«Diz o interessante prefácio de António Sousa Ribeiro ao livro de Karl Kraus que o autor encontra o seu tema principal na "hipocrisia dominante e as suas consequências". Refere-se principalmente à moral sexual, mas nestas sátiras temos de tudo o que se foi passando no princípio do século XX a nível histórico, sendo impossível eleger uma destas performances literárias como a melhor. Melhor, dá uma panorâmica social de um tempo em que as grandes questões atuais já eram antecipadas.» [João Céu e Silva, DN, 24/3/2018]

27.3.18

Sobre Pela Estrada Fora de Jack Kerouac




«Quero uma vida inteira a escrever sobre o que vi com os meus próprios olhos, contando tudo com as minhas próprias palavras, de acordo com o estilo que escolher, tenha vinte e um, trinta, quarenta, ou qualquer idade ainda mais avançada e juntando tudo, como um registo de história contemporânea, para que no futuro seja possível ver o que realmente aconteceu e o que as pessoas realmente pensavam.» [Jack Kerouac ao seu pai Leo]


Sobre A Princesa de Clèves, de Madame de Lafayette




«Passados quase 350 anos, o romance é uma joia de sentimentalismo, paixão, graciosidade e, em simultâneo, de comedimento ideológico e feminismo, explorando pela primeira vez de forma tão clara os subterrâneos do adultério e da capacidade de lhe resistir.» [LER, inverno 2017/2018]