21.3.18

No Dia Mundial da Poesia





«BURNT NORTON
I

O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro
E o tempo futuro contido no tempo passado.
Se todo o tempo é eternamente presente
Todo o tempo é irredimível.
O que poderia ter sido é uma abstracção
Que fica uma possibilidade perpétua
Somente num mundo de especulação.
O que poderia ter sido e o que foi
Apontam para um só fim, sempre presente.
Sons de passos ecoam na memória,
Descem o caminho que nós não seguimos
Em direcção à porta por nós nunca aberta
Para o jardim de rosas. As minhas palavras ecoam
Assim, no teu espírito.
Mas com que propósito
Perturbam o pó numa taça de folhas de rosa
Não sei.
Outros ecos
Habitam o jardim. Vamos seguir?
Depressa, disse o pássaro, procurai-os,
procurai-os,
Ao voltar da esquina. Pelo primeiro portão,
Para dentro do nosso primeiro mundo, vamos seguir
O ludíbrio do tordo? Para dentro do nosso primeiro mundo.
Ali estavam, graves, invisíveis,
Moviam-se
sem pressa, sobre as folhas mortas,
No calor do Outono, pelo ar vibrante,
E o pássaro chamou, em resposta
À inaudível música oculta nos arbustos,
E o invisível relance perpassou, pois as rosas
Tinham o ar de flores que são olhadas.
Ali estavam como convidadas nossas, acolhidas e acolhedoras
Assim nós e elas avançámos, num padrão formal,
Pela alameda vazia, até ao círculo de buxo,
Para olhar para dentro do lago esvaziado.
O lago seco, o cimento seco, de bordos castanhos,
E o lago encheu-se
com água feita da luz do Sol,
E o lótus subiu, devagar, devagar,
A superfície cintilou do coração da luz,
E ficaram por detrás de nós, reflexos no lago.
Passou então uma nuvem, e o lago ficou vazio.
Ide, disse o pássaro, pois as folhas estavam cheias de crianças,
Em excitação escondidas, a refrear o riso.
Ide, ide, ide, disse o pássaro: a espécie humana
Não pode suportar muita realidade.
O tempo passado e o tempo futuro
O que poderia ter sido e o que foi
Apontam para um só fim, sempre presente.»

[De «Quatro Quartetos» (trad. Gualter Cunha), in «Poemas Escolhidos», de T. S. Eliot]

Sobre A Ciência das Sombras, de Bernardo Pinto de Almeida




«A poesia de Bernardo Pinto de Almeida, à exceção de Negócios em Ítaca (2011), está finalmente reunida num único volume, prefaciado por Eduardo Lourenço. Um tratado da melancolia: “Os papéis falam uns com os outros / sobre esta mesa, onde a sombra cai. / A lâmpada esquecida tem remorsos / da luz que antes lhe deu e se esvai.”» [LER, inverno 2017/2018]

Livro do Dia na Feira do Livro de Poesia





Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada, do escritor chileno que recebeu o Prémio Nobel da Literatura em 1971 «por uma poesia que dá vida ao destino e aos sonhos de um continente».

Relógio D'Água na Feira do Livro de Poesia




Abre hoje a Feira do Livro de Poesia, no Jardim da Parada, em Campo de Ourique, em que a Relógio D'Água estará presente. A Feira decorre até domingo, dia 25 de Março, das 12:00 às 20:00.

20.3.18

Sobre Tempo de Escolha, de António Barreto




«No país da festa e do otimismo, a sua voz é muitas vezes silenciada. Os Governos não gostam dos seus avisos; a esquerda não aprecia a sua independência; a direita não aprecia a sua clareza. Tudo vantagens para a leitura de um dos pensadores mais importantes sobre o nosso tempo e os nossos problemas reais.» [LER, inverno 2017/2018]

Sobre Na Rússia com Rilke, de Lou Andreas-Salomé




Pedro Mexia escreveu no Expresso sobre «Na Rússia com Rilke», de Lou Andreas-Salomé


«Embora se intitule “Na Rússia com Rilke” [ou, ainda mais familiarmente, “com Rainer”, no título original], este livro nada nos diz sobre Rilke, mencionado apenas uma vez, com a inicial R., e pressuposto em vários plurais. Sabemos a importância que a viagem à Rússia com Lou Andreas-Salomé teve para Rilke. O poeta viveu o mais exaltado dos seus casos amoroso com aquela inteligentíssima e lindíssima alemã nascida em São Petersburgo, conheceu Tolstoi, e deixou-se contagiar pela religiosidade russa, ele que era uma metafísico agnóstico; mas este diário que Lou manteve durante a viagem (de Abril a Agosto de 1900) é omisso quanto a matérias amorosas, ainda que documente detidamente a questão espiritual. O russo, observa Lou, como outros antes e depois dela, é uma criatura com uma “predisposição religiosa”. Uma religiosidade mais simbólica do que dogmática, que transmite à gente humilde o “sentido transcendente da vida quotidiana”. Os russos têm uma mentalidade “comunista” porque individualista, escreve Lou, num paradoxo fulgurante: o que os irmana é sentirem-se todos iguais, em termos espirituais, pelo menos.» [Pedro Mexia, E, Expresso, 17/3/2018]