15.3.18

Sobre Os Três Estigmas de Palmer Eldritch, de Philip K. Dick




João Morales escreveu sobre «Os Três Estigmas de Palmer Eldritch», de Philip K. Dick, na Time Out:

«Palmer Eldritch regressou de Proxima e será o responsável pela disseminação de uma nova substância, a Chew-Z. Este é o ponto de partida. (…)

“Não será possível alterar o passado? Evidentemente que não. A causa e o efeito funcionam apenas num sentido e a mudança é real”, lemos. As histórias de Dick questionam sempre a dimensão humana, os seus limites e limitações, a sua necessidade de se fazer representar a si mesma ao longo dos tempos. Contudo, “se o mapa não é o território, o vaso não é o oleiro”.» [João Morales, Time Out Lisboa, 7/3/18]

Hélia Correia na Textos e Pretextos




«Este número (outono 2017/inverno 2018) é dedicado a Hélia Correia, ficcionista, dramaturga e poetisa. Contém ensaios, testemunhos, imagens de manuscritos, cronologia e bibliografia, complementados por uma iluminadora entrevista conduzida por Margarida Gil dos Reis, e procura mostrar uma obra em que “a vida e a linguagem se fundem esplendorosamente”.» [Expresso, 10/3/2018]

14.3.18

Stefan Zweig está a ser lido pelos dirigentes chineses




Em Agosto passado, ficou a saber-se que os dirigentes chineses, em vez de relerem Marx no quase segundo centenário do seu nascimento, estão absortos na leitura de «Momentos Decisivos da Humanidade», do austríaco Stefan Zweig.
Segundo o historiador Niall Ferguson*, a obra de Zweig está a ser recomendada a todos os membros do Politburo chinês por Wang Qishan, considerado o mais influente dirigente chinês a seguir ao presidente Xi Jinping.
Num período em que este está a ser designado pela palavra chinesa correspondente a «líder», e que até agora fora reservada a Mao Tsé-Tung, e nunca usada sequer em relação a Deng Xiaoping, é difícil saber quais os momentos decisivos da humanidade que terão impressionado a nomenclatura chinesa.
É difícil imaginar que possa ser a chegada inglória ao Pólo Sul pelo Capitão Scott, e muito menos a perseguição e o bárbaro assassinato de Cícero pelo imperador António.
Menos provável ainda é que o tenham inspirado o momento em que Händel compôs a Ressureição. É possível que tenha alguma coisa que ver com «a primeira palavra que atravessou o oceano» ou «o minuto mundial de Waterloo», mas o mais provável é que tenha sido o próprio conceito de momento decisivo, como aquele em que a China parece estar, hesitando entre tentar ser a maior potência global e consolidar apenas a sua influência na região e nas antigas Rotas da Seda.

«Momentos Decisivos da Humanidade» reúne alguns momentos decisivos da humanidade. São aqueles em que, nas palavras do próprio Zweig, «o drama reveste formas inauditas, imensas». 
Recorrendo a documentos históricos e preenchendo as lacunas com a imaginação, Zweig fala-nos do «Minuto Mundial de Waterloo», a 18 de junho de 1815, da «Elegia de Marienbad», que recorda Goethe a 5 de setembro de 1823, da luta do capitão Scott pela chegada ao Polo Sul, da «Conquista de Bizâncio», da Ressurreição de Händel, da «Primeira Palavra Que Atravessou o Oceano» e do que se passou em torno da perseguição e morte de Cícero.



Sobre Karen, de Ana Teresa Pereira




Maria da Conceição Caleiro escreveu sobre Karen, de Ana Teresa Pereira, na última edição da Colóquio/Letras:


«Neste livro, numa das faces da medalha, temos três personagens a viver na casa que não era propriamente pequena: Karen; Karen que são duas, “Karen e eu”. Cada um são dois, duas pessoas, “uma está adormecida num lugar; enquanto a outra pessoa possui outra existência” (45). O dois é nuclear aqui: até o gato tem uma vida dupla, “tive uma impressão de estranheza, como se fosse Karen a pensar dentro de mim” (ibid.). Alan, o marido, aristocrata arruinado, escritor de um só livro que não se encontra, em buscar de mais inspiração. Muito belo, enigmático, insondável, o homem da fotografia, de uma das fotografias na cabeceira da cama onde Karen, diferindo de si, sem memória porque a perdeu, um dia acordou. Do lado oposto, o retrato de uma mulher. Seria o dela? Alan, homem capaz de hipnotizar. E Emily, mulher ainda jovem, inteira, que era a governanta, ou melhor, do ponto de vista da narradora, parecia representar esse papel. Entre ela e Alan, uma estranha atração, cumplicidade absoluta, não erótica, antes, se assim se pode dizer, umbilical, de mãe e cria.» [Maria da Conceição Caleiro, Colóquio / Letras, n.º 197, Janeiro-Abril 2018]

Sobre Este Ofício de Poeta, de Jorge Luis Borges




José Carlos Fernandes escreveu sobre Este Ofício de Poeta, de Jorge Luis Borges, na Time Out


«As gravações das seis palestras (em inglês) realizadas por Jorge Luis Borges na Universidade de Harvard em 967-68 ganharam pó durante mais de 20 anos e só em 2000 foram transcritas e editadas por Colin-Andrei Mihailescu, sob o título This Craft of Verse. São, apesar da brevidade — cada palestra ocupa em média uma quinzena de páginas — uma reveladora visita guiada pela mão de um Mestre à história da poesia e da cultura, que não se perde em digressões impenetráveis e exibições gratuitas de erudição e mantém um tom límpido, distendido, elegante, despretensioso, levemente irónico e autodepreciativo: “Penso-me essencialmente como leitor. Como sabem, aventurei-me na escrita; mas penso que as coisas que escrevi foram muito menos importantes do que as que li. Porque lemos aquilo de que gostamos — mas não escrevemos o que gostaríamos de escrever, apenas o que podemos escrever.”» [José Carlos Fernandes, Time Out Lisboa, 7/3/2018]

13.3.18

«Livro da Dança» na Argentina




Uma das primeiras obras de Gonçalo M. Tavares, «Livro da Dança», acaba de ser publicada na Argentina. Silvina Friera assina a crítica no suplemento argentino «Página 12».
«El poeta, narrador, ensayista y dramaturgo en lengua portuguesa logra en este libro lo que consigue en todos los géneros que aborda: ubicar la literatura en un lugar de resistencia del lenguaje, combinando claridad y ambigüedad.


El aguijón de la vacilación respira en el poema. La letra mayúscula deviene epifanía óptica. La minúscula al principio –en el lugar menos esperado o reglado– es una manera de prescindir de la corrección ortográfica y de expresar que las palabras también se mueven, se estiran, se elevan por encima del suelo de la página.»
Texto completo aqui.

Sobre O Sagrado e o Profano, de Mircea Eliade




O Sagrado e o Profano, de Mircea Eliade, ocupa-se da forma como o homem religioso se esforça por se manter num universo sagrado e da diferença entre a sua experiência de vida e a do homem privado de sentimentos religiosos, daquele que vive ou deseja viver num mundo dessacralizado.
Para a consciência moderna, a alimentação ou a sexualidade não são mais do que fenómenos orgânicos, qualquer que seja o número de tabus que os rodeia. Mas, para o primitivo e para algumas populações atuais, um tal ato é, ou pode tornar-se, um «sacramento», quer dizer, uma comunhão com o sagrado.
O sagrado e o profano constituem duas modalidades de ser no mundo, duas situações existenciais assumidas pelo homem ao longo da sua história. Estes modos não interessam apenas à história das religiões ou à sociologia. Em última instância, os modos de ser sagrado e profano dependem das diferentes posições que o homem ocupa no cosmos.