8.1.18

Em entrevista concedida a Ana Sousa Dias, no DN, o escritor espanhol Vila-Matas afirma-se impressionado com a obra de Gonçalo M. Tavares






«[Enrique Vila-Matas:] Leio muito autores obsessivos, são os que me interessam mais. Os mundos de Thomas Bernhard, de Kafka, de Lobo Antunes, de Tavares…

[Ana Sousa Dias:] Gonçalo M. Tavares?


[Enrique Vila-Matas:] Sim, leio-o muito, li-o deste o princípio. Tenho praticamente todos os livros, num corredor, e sempre que passo por lá vejo toda a obra dele. Impressiona-me muito. Há um caso parecido, o de César Aira, da Argentina Também tem muitos livros acumulados e muito interessante como autor. É a fórmula de Simenon.» [DN, 11/12/2017]

5.1.18

Eduardo Pitta escreve sobre Pequenos Delírios Domésticos






«Depois do universo distópico que caracteriza o seu segundo romance (obra que a levou a bisar o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores), a autora regressa ao real com este livro de contos que leva por título um verso “roubado” a Sérgio Godinho. À laia de prefácio, Chão zero dá testemunho da devastação que assolou o país durante os incêndios de Outubro: «A minha infância é um esgoto atravancado de detritos.» A casa dos bisavós perdida num mar de cinza. Com invulgar economia retórica, e muita eficácia, a frase-síntese diz tudo. Um poema da autora, Apfelstrudel, separa esse texto de abertura do resto do livro. Estamos agora no centro das periferias desapossadas: os prédios-gaiola com as suas «vidraças enjauladas» e toda a panóplia Kitsch que dá cor à miséria dos que têm abertura de telejornal garantida, esse microcosmo de onde por vezes saem voluntários para as madrassas do ódio. Manuel, ou Man-hu-el (o rapaz convertera-se), foi um deles. A Síria pareceu-lhe uma boa solução para virar costas à disfunção familiar. Era isso ou continuar «aos caídos, a arrumar carros, a assaltar velhotas pensionistas para pagar a próxima dose…» Mas na hora da verdade faleceu-lhe a certeza. E o Chico também não foi capaz. O desfecho é absolutamente português. Não deixa de ser uma ironia que o adjectivo «domésticos» surja no título de um livro cujos primeiros contos estão focados em problemas de natureza planetária, tais como a tragédia das migrações e seus efeitos colaterais. Homens e mulheres, aos milhares, que o Mediterrâneo vai engolindo, depois de terem fugido da guerra, da fome, da escravidão, de toda a sorte de abusos e violências. A ilusão da terra prometida foi-lhes fatal: «E alguns, fiados nesse doce rugir da indulgência, deixam-se ir…» O conflito entre Israel e a Palestina não é esquecido. Ana Margarida de Carvalho tem uma prosa limpa, fluente em vários registos, dotada de vocabulário anterior ao regime tuiteiro. Sirvam de exemplo contos como Uma Vida em Centrifugação ou, mais denso, Os Elefantes Têm Sismógrafos nos Pés.» [Eduardo Pitta, no blogue Da Literatura, a propósito de crítica publicada na revista Sábado, 28/12/2017]

Sobre A Princesa de Clèves, de Madame de Lafayette




«A Princesa de Clèves é um clássico da literatura, agora publicado em nova tradução. Surgido em 1678, anonimamente, conta-nos a vida na corte francesa dos Valois — onde parecem apenas deambular “belas mulheres”, e homens “admiravelmente constituídos” — nos últimos anos do reinado de Henrique II. A sua autora, Madame de Lafayette (n. 1634), nascida numa família nobre, possuidora de uma sólida instrução, privou com inúmeras figuras da corte, e frequentou salões culturais, como era moda — tendo criado também o seu, em Paris, onde recebia figuras como La Fontaine ou La Rochefoucauld. Como romance histórico, mostra também o papel das mulheres na vida cultural do século XVII. (…)
Se antes da publicação de A Princesa de Clèves as personagens não agiam para se analisar — ou melhor, a acção como que parava enquanto as personagens se explicavam, ou então isso não servia para a fazer progredir — com Madame de Lafayette e este seu romance essa introspecção, essa análise de motivações da acção de agir, torna-se no próprio mecanismo de progressão da narrativa, e é para ele material preciso e necessário.» [José Riço Direitinho, Público, ípsilon, 5/1/2018]

Nas livrarias: A Família Golovliov, de Saltykov-Shchedrin




Intensamente quente no Verão e fria no Inverno, a herdade da família Golovliov é o final do caminho. É lá que Arina Petrovna comanda os em- pregados e a família — até ceder o poder ao seu filho Porfírio. Um dos monstros mais memoráveis da literatura mundial, Porfírio é o perfeito hipócrita e maquinador que ataca sem remorsos aqueles que dele se aproximam. Mas no final até ele se revela incapaz de resistir a Golovliovo.

«… o grande romance A Família Golovliov, o mais sombrio e implacável exemplo de comédia negra na literatura russa do século XIX.» [V. S. Pritchett]


«A linhagem que começa com Dostoievski, passa por Shchedrin e chega a Hamsun é visível. Assim considerado, A Família Golovliov, um livro estranho e áspero, cujas personagens a um tempo sofrem a doença do nada e aspiram a ela, um livro que é por vezes uma ampla sátira, outras um livro de terror gótico, e outras ainda um anti‑romance, torna‑se cada vez mais moderno com a passagem do tempo.» [James Wood]

Conflito Interno, de Kamila Shamsie, considerado livro do ano por vários jornais e revistas internacionais





Algumas das distinções recebidas pelo último romance de Kamila Shamsie, recentemente editado pela Relógio D’Água:
— Seleccionado para a shortlist do Costa Novel Award 2017
— Seleccionado para a longlist do Man Booker Prize 2017
— Livro do Ano 2017 no The Guardian
— Livro do Ano 2017 no The Observer
— Livro do Ano 2017 no The Telegraph
— Livro do Ano 2017 na New Statesman
— Livro do Ano 2017 no Evening Standard
— Livro do Ano 2017 no The New York Times

Isma está livre. Criou os seus irmãos gémeos após a morte da mãe e agora pode regressar ao sonho que há muito interrompera — estudar na América. Mas não consegue deixar de se preocupar com Aneeka, a bela e obstinada irmã que vive em Londres. Ou com Parvaiz, o irmão que desapareceu em busca do próprio sonho — provar a si mesmo que é herdeiro do legado jihadista do pai que nunca conheceu.
Depois Eamonn entra na vida das irmãs. Bem-parecido e privilegiado, vive em Londres, num mundo diferente. Filho de um poderoso político muçulmano britânico, Eamonn tem um legado a defender — ou a desafiar.
O destino das duas famílias está inextricavelmente ligado.
Conflito Interno é uma história sobre lealdades que não resistem à colisão entre amor e política e confirma Kamila Shamsie como uma grande escritora dos nossos tempos.

4.1.18

Nas livrarias: Petersburgo, de Andrei Béli (trad. Nina Guerra e Filipe Guerra)





A história de Petersburgo decorre no Outono de 1905 e inclui reaccionários, niilistas, uma tentativa de parricídio e uma bomba escondida numa lata. No entanto, a personagem principal é mesmo a cidade que dá título ao romance. No coração do livro está a questão que durante gerações tem atormentado os russos: a identidade nacional.

«As grandes obras em prosa do século XX são, por esta ordem, o Ulisses de Joyce; A Metamorfose de Kafka; Petersburgo de Béli, e a primeira metade do conto de fadas Em Busca do Tempo Perdido de Proust.» [Vladimir Nabokov]

«Andrei Béli é um poeta de primeira ordem e o autor mais admirável ainda das Sinfonias em prosa, de O Pombo de Prata e de Petersburgo, romances que, antes da Revolução, operaram nos seus contemporâneos uma radical mudança de gostos, de onde jorrou a primeira prosa soviética.» [Boris Pasternak]

«A literatura do período entre as duas revoluções (1905-1917), decadente no seu humor e no seu alcance, extremamente refinada na sua técnica, uma literatura do individualismo, do simbolismo e do misticismo, encontrou em Béli (Branco) a sua expressão mais alta e, ao mesmo tempo, mais directamente prejudicada pela Revolução de Outubro. Béli acredita na magia das palavras.» [Lev Trotsky]

«Um romance que resume a Rússia inteira.» [Anthony Burgess]

«Um homem de percepções estranhas e inauditas — um homem mágico e, na tradição da ortodoxia russa, um louco sagrado.» [Isaiah Berlin]

«O romance Petersburgo, seja qual for o modo como se aborda a sua con- cepção, é um acontecimento imenso na história da prosa russa…» [Ilia Ehrenbourg]


«O romance russo mais importante, mais influente e mais perfeito do século XX.» [New York Review of Books]

Sobre A Autobiografia de Alice B. Toklas, de Gertrude Stein




«Pelo salão de Gertrude Stein, em Paris, passavam Picasso, Cézanne, Matisse, Gris, Apollinaire, Cocteau, Pound, Hemingway, Fitzgerald. “Os génios vinham para conversar com Gertrude e as mulheres faziam sala comigo”, diria Alice B. Toklas, companheira da escritora. Muitas histórias da fervilhante vanguarda parisiense do princípio do séc. XX tornam particularmente apetecível A Autobiografia de Alice B. Toklas, um olhar autobiográfico sobre a existência da escritora norte-americana que se fixou em Paris, em 1903, de regresso com o irmão à cidade onde nascera.» [JL, 6/12/17]