23.11.17

A chegar às livrarias: De Portugal para a Europa, de António Barreto




«Na verdade, se a Europa, qualquer que seja a sua construção futura, prescindir das identidades nacionais, das culturas dos seus povos e do seu pluralismo intrínseco, está condenada. Ou então é sinal de que um qualquer despotismo imperial ou burocrático se instala. Rever o seu pluralismo e repensar as suas identidades nacionais, mantendo­‑as vivas, é talvez, para as próximas gerações, a tarefa mais difícil e o objectivo mais complexo. Mas será certamente uma condição de sobrevivência.» [Da Apresentação]

Nas livrarias: Deuses de Barro, de Agustina Bessa-Luís (prefácio de Mónica Baldaque)





«“Nós devemos escrever sobre aquilo que conhecemos”, foi sempre o conselho dado por Agustina aos que se iniciavam na escrita. E foi por onde também começou — pelo mundo rural que tão bem conhecia, a Casa do Paço, em Travanca, aquele mundo fechado que frequentara em criança e adolescente, onde o convívio com as tias Maria e Amélia, sobretudo Amélia (a Sibila), fora o exemplo para a sua vida, um legado de sabedoria transmitido como uma profecia. As duas últimas páginas d’A Sibila testemunham, numa linguagem oracular, como num transe arrepiante e comovente, pela revelação do profundo, a transmissão de um destino, que ela, Agustina, terá de continuar a cumprir, depois da morte da Sibila. Deuses de Barro, se por um lado é um esboço para a descoberta dos mundos fechados que integram estes três romances iniciais, por outro, representa já um grito de liberdade, ousadia, revolta e desafio contra os deuses de barro que nos vigiam, nos tolhem, com quem somos obrigados a conviver e a venerar.» [Do Prefácio]

22.11.17

A chegar às livrarias: Quem Vê Caras, de Donna Leon (trad. Rita Carvalho e Guerra)





Nos livros do commissario Guido Brunetti são frequentes as conversas familiares sobre arte e literatura. Mas em Quem Vê Caras os livros estão no centro da ação como nunca antes aconteceu.
Uma tarde, Brunetti recebe um inquietante telefonema da bibliotecária-chefe de uma prestigiosa biblioteca veneziana. Alguém roubara páginas de diversos livros raros.
O suspeito óbvio parece ser o professor americano que requisitara os volumes. Mas depressa se torna claro que o professor não é quem dissera ser. No decurso da investigação, as suspeitas multiplicam-se quando uma personagem aparentemente inofensiva é brutalmente assassinada e Brunetti é confrontado com a necessidade de saber o que faz de alguém inocente ou culpado.


De Donna Leon, a Relógio D’Água publicou As Águas da Eterna Juventude, Cair de Amores e Restos Mortais.

A chegar às livrarias: Ubik, de Philip K. Dick





Glen Runciter está morto. Ou não? Alguém morreu na explosão orquestrada pelos seus rivais, mas mesmo depois de o seu funeral ser marcado, os seus empregados continuaram a receber mensagens desconcertantes do patrão. Entretanto, o mundo à sua volta está a deformar-se e a regredir de uma forma que sugere que o seu tempo está a terminar. Se é que ainda não terminou…

«Mais genial do que experiências semelhantes realizadas por Pynchon ou DeLillo.» [Roberto Bolaño]

«Dick narra uma história inquietante sobre a perceção da realidade, um pesadelo do qual nunca temos certeza de conseguir acordar.» [Lev Grossman, Time]

«Para todos os que se sentem perdidos nas múltiplas realidades do mundo moderno, lembrem-se: Philip K. Dick foi o primeiro a chegar a elas.» [Terry Gilliam]

Considerado um dos melhores 100 romances do mundo pela revista Time.

De Philip K. Dick, a Relógio D’Água publicou também Será que os Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, O Homem Duplo e O Homem do Castelo Alto, Relatório Minoritário e Outros Contos e Os Três Estigmas de Palmer Eldritch.

A chegar às livrarias: Relógio sem Ponteiros, de Carson McCullers (trad. de Fernanda Pinto Rodrigues)





Numa pequena cidade no sul dos EUA, quatro homens de diferentes idades debruçam-se sobre o seu passado e futuro.
J. T. Malone, um homem solitário de meia-idade que gere uma farmácia, descobre que está a morrer e tenta reconciliar-se com o que resta da vida. O juiz Clane, um homem de idade, resiste aos novos tempos e anseia pelo regresso das antigas maneiras do Sul. Ao mesmo tempo, Jester, o seu neto idealista, nutre simpatia por Sherman, um órfão negro, alegre e de olhos azuis, que está em busca da sua identidade.
Gradualmente, descobrem que as suas vidas estão intrinsecamente unidas. Em Relógio sem Ponteiros, o seu último romance, Carson McCullers explora com humor e talento temas como o preconceito, o segredo e a redenção.

«Carson McCullers entendia o coração dos homens com uma profundidade que nenhum outro escritor consegue alcançar.»[Tennessee Williams]


De Carson McCullers, a Relógio D’Água publicou Reflexos num Olho Dourado, O Coração É Um Caçador Solitário, A Balada do Café Triste, Frankie e o Casamento, e uma selecção de Contos. 

21.11.17

Sobre Maigret e o Seu Morto, de Georges Simenon




«Neste caso, um jogo de assassinos impiedosos, como entrevira desde a manhã em que um pobre desgraçado lhe telefonara em pânico pedindo ajuda: estava a ser perseguido, iam matá-lo. Assim foi. O cadáver foi abandonado na rua, esfaqueado e desfigurado. Maigret começa a desfiar o novelo, com aquela sensação de déjà vu que por vezes o tomava em sonhos, “e eram esses sonhos que desde criança melhor fixava. Via-se avançar através de um cenário quase sempre complicado e, de repente, experimentava a sensação de que já ali fora, de que fizera os mesmos gestos, pronunciara as mesmas palavras. Essa sensação dava-lhe uma espécie de vertigem, sobretudo no instante em que compreendia estar a viver horas que já vivera antes.”» [José Guardado Moreira, Expresso, E, 18/11/17]

De Georges Simenon, a Relógio D’Água publicou também O Quarto Azul e O Homem Que Via Passar os Comboios.

Em memória de Alberto Luís





O advogado Alberto Luís faleceu no passado dia 12 de Novembro no Porto. Era casado com Agustina Bessa-Luís, sendo, conjuntamente, com Mónica Baldaque, responsável pela edição das obras de Agustina Bessa-Luís. Pôde apenas acompanhar o início desse projecto em que se empenhou com comovedora dedicação.
Publicamos a seguir um fragmento do texto que a neta Lourença Baldaque escreveu em sua memória.

Francisco Vale

«Em memória do meu avô Alberto Luís (1922-2017)

Alberto Luís, advogado de profissão e meu avô materno, foi certamente um dos homens mais inteligentes e letrados que eu alguma vez conheci. De humor mordaz tinha sempre uma resposta, e sabia sempre onde procurar o mais ínfimo pormenor e explicação sobre qualquer assunto. “O avô deve saber” era uma daquelas frases que se repetia com frequência no núcleo familiar.  
Da minha parte, foi um convívio de 38 anos com este único avô que eu conheci. Casado com a escritora Agustina Bessa-Luís, minha avó, desde 1945, e com quem desenvolveu uma parceria tanto na vida como no trabalho, numa esfera muito própria onde não se habita apenas e só por sucessão. É preciso conquistar um lugar.
Nesta esfera paira o ónus da resistência, do rigor, da justeza das palavras que – muito importante – formam ideias, conduzem a um pensamento, revelam um parecer. E até as trivialidades são rapidamente avaliadas à luz da complexa teia dos comportamentos humanos. Em suma, o clima que foi criado naquela casa provém da alma, da sabedoria, do sentido do combate e da capacidade para o riso.


As discussões sobre livros e autores, sobre textos ou apenas excertos que conduziam a outros livros e a outros autores, foi sempre muito mais do que um estilo de vida: é verdadeiramente a essência que ali se sente e se respira. Neste contexto, o primeiro autor que me veio à memória foi o de Joseph Brodsky (1940-1996). Há tempos o meu avô emprestou-me um livro deste poeta, tradutor e ensaísta russo que admirava. Disse-me para ficar com ele em casa, para o ir lendo, e sugeriu-me interessar-me pela vida do autor. E foi o que eu fiz. E não foi difícil perceber o encanto de Joseph Brodsky, tanto na poesia como na obra que me emprestou que reúne alguns dos seus ensaios: Menos que uno (Versal, 1987), Less than one na versão original de 1986. 
O que o meu avô queria era que eu soubesse que Brodsky manifesta uma irreverência e uma profunda independência que faziam parte do seu espírito; ninguém o ensinara a ser daquele modo e não doutro. Desde logo, Brodsky decidiu aos quinze anos “protagonizar uma melodramática saída” (Brodsky, 1987) de uma sala de aula para nunca mais voltar. Decidiu que a partir daquele dia seria um auto-didacta. 
(…)
Esta é uma apenas uma pequena parte da romanesca história de vida deste poeta. Por que me lembrei dela? Talvez pelo conhecimento de vida que o meu avô nos quis transmitir: o de procurar viver num registo tão livre e consciente quanto possível; e de que as vidas comportam, todas elas, uma vertente aventureira e polémica.   
Quando casou tinha o meu avô 23 anos e a minha avó 22 anos de idade. Agustina era aspirante a escritora, Alberto Luís seria ainda aluno de Direito em Coimbra. Construíram um caminho em conjunto, sem sentimentos opressivos em relação às vocações de ambos, e sem nunca ter pedido à minha avó para se tornar numa outra mulher, num tempo em que as mulheres ainda precisavam de um impulso maior do que a vida para se afirmarem nas suas reais vocações. Nestas circunstâncias, haverá maior sentido de emancipação, maior estima do que esta? 
O meu avô faleceu no passado domingo, dia 12 de novembro, aos 95 anos de idade, na sua casa do Porto. Trabalhou, leu e escreveu até ao seu último dia.»


[Imagem: Pormenor do jardim dos avós de Lourença Baldaque, Porto]