30.6.17
Sobre Baixo Contínuo, de Rui Nunes
«A escrita de Rui Nunes há muito prescinde de comodismos literários e nunca teve ilusões quanto ao futuro da Humanidade e, provavelmente, da arte: “segue-se: o lixo”. De resto, e como o título por si só sugere, “Baixo Contínuo”, que se divide em quatro andamentos, é um livro com uma forte componente musical, onde encontramos referências explícitas a J. S. Bach, Beethoven, Boulez e Stockhausen. Entre a composição e a desintegração (“da melodia, do corpo, da palavra”), o jogo musical dá-se também a ver no prelúdio ao desconcertante “Basso Continuo / de Rui Nunes” que surge na página 15. Mas pouco importa, no fundo, onde começa ou termina este livro, pois a terrível lucidez que o atravessa (os olhos abertos não podem não ver”) diz-nos claramente que “tudo é restos, sobras”. A uma “música total”, que pode ser lida enquanto alegoria da solução final sonhada por Eichmann e outros minuciosos peritos da barbárie, sobrepõem-se ora “sons terminais”, ora o “peso do primeiro som”: “uns ouvem os piolhos a rebentar entre as unhas dos polegares, outros, uma suite de Bach”. E, embora tudo pareça acontecer nos antípodas de Wagner, atente-se no fortíssimo Leitmotiv da mulher perseguida/lapidada (que “de queda em queda, repete a morte”) ou ainda do frustrante encontro sexual de um velho com um jovem extremamente depilado. De um modo cada vez mais conciso e acutilante, a escrita de Rui Nunes afasta-se das futilidades romanescas em voga: “temos a morte no final de cada palavra. E isso torna-nos livres”.» [Manuel de Freitas, Expresso, E, 27/6/2017]
A chegar às livrarias: A Letra Encarnada, de Nathaniel Hawthorne (trad. de Fernando Pessoa)
Depois de ter sido declarada culpada por adultério, Hester Prynne é obrigada a usar a letra vermelha “A” bordada nas roupas como castigo pelo seu crime. Enquanto o seu vingativo marido procura descobrir a verdadeira identidade do seu amante, Prynne tem de enfrentar as consequências da sua infidelidade e encontrar um lugar para si e para a sua filha ilegítima no ambiente hostil da Boston puritana em pleno século XVII.
Esta narrativa de Hawthorne surpreendeu os leitores pela sua densidade psicológica sem precedentes. O romance é agora considerado um marco na literatura americana.
«O melhor livro de escrita imaginativa alguma vez escrito neste país.» [Henry James]
PVP: € 10,00
28.6.17
Sobre Lincoln no Bardo, de George Saunders
«A ideia de Abraham Lincoln abraçar Willie, o filho morto, lembrou-lhe a Pietà. Um filho morre e o pai, ou mãe, agarram-se ao seu corpo como que a resgatar qualquer indício de vida e assim negar a sua morte. O escritor George Saunders ouviu a mulher contar-lhe que quando Willie Lincoln morreu, aos 11 anos, vítima do que se especula ser febre tifóide, o então presidente dos Estados Unidos visitava à noite a sepultura do filho no cemitério de Georgetown, debruçando-se sobre ela num trágico lamento. Willie era para Abraham como Jesus nos braços da Virgem na escultura de Michelangelo que está na Basílica de S. Pedro, em Roma.
Durante vinte anos essa imagem perseguiu Saunders de forma quase obsessiva, mas ele achava-se incapaz de a transformar em literatura. Até 2012. Nessa altura decidiu tentar e partiu dela para chegar ao subterrâneo como fez em cada um dos contos que publicara e o confirmaram como um dos mais notáveis autores em língua inglesa. Tinha 55 anos e não queria que a sua lápide o identificasse como o tipo "com medo de embarcar no projeto artístico assustador, que desesperadamente desejava tentar", como afirmou num texto sobre a génese de Lincoln no Bardo, o seu primeiro romance publicado em Março nos Estados Unidos e que acaba de ter edição portuguesa pela Relógio d’Água.
Era um livro muito aguardado por quem conhece e gosta da escrita de Saunders e também pelos que suspeitam do talento de quem cultiva apenas o conto como género. Para esses, o romance seria a legitimação do autor. Mas ele não se sentou a escrever o romance, ou melhor, não tomou a iniciativa de escrever uma história que trazia na cabeça e a dar-lhe maior fôlego.» [Isabel Lucas, Público, ípsilon, 23/6/17]
Hélia Correia e Daniel Faria homenageados na Universidade Federal de Minas Gerais
Homenagear a obra dos escritores portugueses Daniel Faria e Hélia Correia é o objetivo da sétima edição da Jornada de estudos em poesia portuguesa moderna e contemporânea, que será realizada nos dias 21 e 22 de junho, no campus Pampulha. O evento também contará com a apresentação de trabalhos sobre os autores José Osório de Oliveira, Sophia Andresen, Manuel de Freitas, Rui Pires Cabral, Luís Quintais e Carlos de Oliveira.
A professora da Faculdade de Letras Viviane Cunha, que tem pós-doutorado em Literatura Medieval, ministrará a conferência de abertura, A figura da malmaridada no cancioneiro românico medieval, em que vai tratar das formas de representação das mulheres.
Além das discussões sobre as obras de Daniel Faria e Hélia Correia, a programação prevê um terceiro espaço de discussão, a mesa A palavra em seu gume: poesia portuguesa moderna e contemporânea, que vai abordar os escritores José Osório de Oliveira e Sophia Andresen e as relações entre poesia, música e cinema.
A Jornada é promovida pelo Centro de Estudos Portugueses em parceria com o Polo de Pesquisa em Poesia Portuguesa Moderna e Contemporânea.
23.6.17
Sobre Uma Volta ao Mundo com Leitores, de Sandra Barão Nobre
«O livro de Sandra Barão Nobre, Uma Volta ao Mundo com Leitores (Relógio D’Água), é um exercício de resposta. Provavelmente todos nos questionamos sobre o que leem aqueles que leem no nosso caminho. Há um traço de identidade que se define pelo que lemos. Creio que auscultamos os livros dos outros para sabermos de que modo nos podem corresponder. É um certo jogo de Cinderela. O livro não podia ser melhor sapato de cristal para encontrar amigos ou amores. Lembro de ver uma moça a ler Um Certo Plume, de Michaux, e de me precipitar sobre ela como se descobrisse uma gota de água no extenso deserto. Lembro de responder-me que encontrara o livro num banco. Nem sequer estava a gostar. Parecia-lhe poesia. O sapato de cristal partiu bem no meio do meu coração.
Há uns bons anos acompanho o blogue de Sandra Nobre, Acordo Fotográfico, feito do instante da leitura, esse lado de lata intimidade e errância. Sinto como se visse gente meio despida. Gente que se revela. À volta do mundo, gente que lê serve para um retrato do que se pode pensar e almejar hoje. O percurso que Sandra Nobre faz permite intuir um certo desiderato. Há como que um sonho pressuposto em cada leitura. ainda que possam temer o fim de todas as coisas, mesmo o fim da vida, os que leem sonham ainda. Não se lê senão com essa condição de estar para lá do que há.
O trabalho de Sandra Barão Nobre traz a ternura que pode guardar-se por quem lê, como nos enternece que o conhecimento, a sua depuração e a beleza possam ser uma ansiedade também dos outros. Move-nos a esplendorosa esperança numa eureka que mude um cidadão para um herói ou um amante, alguém que solucione ou ame, alguém que verdadeiramente se redima da condenação de consumir e passe sobretudo a ser pessoa. Que seja um herói ou um amante, que significam algo de tão semelhante. Tão admiráveis e sagrados.
Não é o voyeurismo que está em causa, é o sapato de cristal para heróis e amantes. Uma busca fundamental num tempo em que acreditamos menos no futuro de um olhar de soslaio na rua. Os livros são imediatos olhares ao recato ou fremente de cada um. São como ver com um mapa esboçado o que pode ser o labirinto identitário de cada um. Por onde tem a Sandra Nobre passado. Pelo labirinto riquíssimo dos que leem. Para que nos conheçamos todos e nos salvemos ou, ao menos, amemos. Tão sagrados, todos.» [Valter Hugo Mãe, JL]
19.6.17
Sobre Benito Cereno, Bartleby e Billy Budd, de Herman Melville
«Na sua coleção de clássicos, a Relógio D’Água disponibiliza três textos essenciais de Melville: Benito Cereno, uma novela que Jorge Luis Borges considerou ser talvez “deliberadamente inexplicável”; o conto Bartleby, sobre um homem que “prefere não o fazer”, símbolo de insubmissão e recusa; e Billy Budd, narrativa sobre o que aconteceu a um “gajeiro de traquete” durante um motim naval, ocorrido em 1797.» [Expresso, E, 17/6/17]
Sobre Arquipélago das Galápagos ou As Ilhas Encantadas, de Charles Darwin e Herman Melville
«A opção editorial de conjugar num volume estes textos de Charles Darwin (1809-1882) e de Herman Melville (1819-1891), tão diversos na sua génese e nos seus propósitos, tem sido replicada ao longo dos anos em diversos países e em diversas línguas e será imediatamente justificável pela evidência do tema comum: as “encantadas” ilhas adjacentes ao Equador que formam o arquipélago das Galápagos (tartarugas, em castelhano). (…) A objectividade do observador, contudo, deixa campo a inesperadas selfies, como quando vemos Darwin divertindo-se a assustar veneráveis e gigantescas tartarugas e a cavalgá-las de pé, embora fosse “muito difícil manter o equilíbrio”; ou a elogiar a “bela sopa” que se obtém cozinhando exemplares juvenis.» [Mário Santos, Público, ípsilon, 16/6/17]
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