10.4.17
Entrevista a Karan Mahajan
«O atentado bombista, a que o Sr. e a Sra Khurana não assistiram, foi um acontecimento arrasador e cheio de repercussões.” A primeira frase do livro põe o leitor perante o trauma que será o motor de A Associação das Pequenas Bombas (Relógio d’Agua), o segundo romance do indiano Karan Mahajan. Em Maio de 1996, o mercado de Lajpat Nagar, no sul de Nova Deli, foi alvo de um atentado terrorista. Treze pessoas morreram ao rebentar “uma bomba de pequena dimensão”. Entre as vítimas estavam os dois filhos do Sr. e da Sra. Kharana, dois rapazes de 11 e 13 anos. O amigo de ambos, Mansoor, ia com eles e sobreviveu, mas a sua existência passou a ser para sempre determinada por um antes e um depois da bomba.
É esta a tragédia definidora não apenas das suas vidas, mas de todo o livro que se estrutura à volta da impossibilidade do luto após um atentado terrorista. Não há luto possível para o terror porque há no terror qualquer coisa de global. A ideia atravessa o romance. “O bom atentado bombista começa em todo o lado ao mesmo tempo. Um mercado cheio de gente também começa em todo o lado ao mesmo tempo”, continua o livro que tanto se passa na intimidade de cada uma das personagens como se alarga, tentando conquistar o domínio universal.» [Isabel Lucas, Público, ípsilon, 7/4/2017; entrevista a Karan Mahajan: https://www.publico.pt/2017/04/09/culturaipsilon/noticia/contra-o-olhar-miope-sobre-terrorismo-e-religiao-1767616 ]
Sobre Lincoln in the Bardo, de George Saunders
«Lincoln in the Bardo, o primeiro romance do escritor George Saunders (Amarillo, Texas, 1958), publicado nos Estados Unidos há menos de um mês, vai ter edição portuguesa pela Relógio D’Água.
Em menos de um ano, aquele que é um dos mais elogiados e criativos autores norte-americanos passa de inédito e quase desconhecido em Portugal para um dos autores mais disputados pelas editoras portuguesas. (…)
A Relógio D’água anuncia a publicação desse romance para os próximos meses de Maio ou Junho. A tradução será de José Lima e em português deverá chamar-se Lincoln no Bardo.
Passa-se num tempo muito diferente dos contos. Conhecido por ser um autor focado no quotidiano das classes média e baixa, que narra com recurso ao absurdo e a uma linguagem a desafiar clichés, Saunders situa este livro no século XIX, mais precisamente na morte do filho do presidente Abraham Lincoln. Estamos num cemitério, em Washington D. C., dominados pelo sentimento de perda, com Saunders a conseguir momentos de grande e devastador brilhantismo literário, com a consciência numa deambulação meio alucinada a deixar-se visitar por anjos e fantasmas. O homem na sua dor e na fantasia da sua mente.
Numa recente conversa com o Ípsilon, a propósito da publicação em Portugal de Pastoralia, Saunders contou que levou quatro anos a escrever Lincoln no Bardo, uma obra com menos recurso ao nonsense, mas onde a linguagem e a estrutura voltam a desafiar clichés. Fortemente influenciado por escritores como Raymond Carver ou David Foster Wallace, de quem foi amigo, George Saunders vai aos comportamentos subterrâneos para falar da essência.» [Isabel Lucas, Público, ípsilon, 7/4/17]
7.4.17
Sobre Até já não É adeus, de Cristina Carvalho
«Na sua dupla qualidade de título e máxima, “Até já não É adeus” terá presságio e parémia do percurso da autora. Enquanto texto, quer pela sua extensão quer pela sua completude, poderia, como no caso de “Ana de Londres”, ganhar vida própria; enquanto alegoria de uma escrita, recupera e desenvolve um traço muito próprio, suficientemente impetuoso para — umas vezes melhor do que outras — se adequar ao espírito conturbado de um tempo que não tem suficiente espaço para o sortilégio e que no entanto o inventa.
Confesso que esta marca de autor me estimula e que é no conto que encontro a Cristina Carvalho que prefiro, quando a autora se permite conjeturar para lá do devaneio, no reverso de outros géneros que cultiva. É neste universo imagético que Cristina Carvalho constrói vidas em que dissimuladamente incrusta um sonho feito de quotidianos sórdidos, ou encantatórios, que interpelam quem corre o risco de a ler.» [Luísa Mellid-Franco, Expresso, E, 1/4/2017]
Sobre A Poesia como Arte Insurgente, de Lawrence Ferlinghetti
«Nos textos aqui reunidos, que se recusam a pousar em definitivo no aforismo, no poema, ou no manifesto, todo o discurso é utópico. Essa utopia consiste, fundamentalmente, em conceber o poético como suprema rebeldia, acção erguida e reerguida em permanente vigor, “primeira língua antes da escrita” (p.51). A poesia como figuração directa, implacavelmente próxima do pulsar das coisas. É toda a indignação do poeta que aqui reage contra um mundo estagnado e estéril. Dirigida contra consciências e corpos parados que esperam a morte — “A poesia não é uma ocupação sedentária, não é uma prática do género ‘sente-se, por favor’. Levanta-te e diz-lhes o que pensas.” (p.15) Qualquer um destes textos forma um clamor de rebelião que procura na poesia a expressão mais capaz da liberdade e da afirmação mais plena — “Os poemas são notícias sobre os confins mais distantes da consciência, vindos da sua fronteira em expansão” (p.53).» [Hugo Pinto Santos, Caliban, 5/4/17, texto completo aqui.]
Henry David Thoreau na Biblioteca Nacional
“Resistência Civil | Acordo com a Natureza: Bicentenário de H. D. Thoreau”, organizado pelo Grupo de Estudos Americanos do Centro de Estudos Anglísticos da Universidade de Lisboa (CEAUL) em parceria com a Biblioteca Nacional de Portugal, conta com uma exposição biblio-iconográfica e atividades que exploram a obra e as repercussões do autor.
A 10 de abril, a exposição abre com uma visita comentada, duas palestras e um debate que encadeará os elos do libertarismo, da ecologia, da objeção de consciência e do estilo e influência do poeta ensaísta e no qual participa Alda Rodrigues, tradutora de Walden e Ktaadn.
No dia 26 de abril, haverá um colóquio com comunicações académicas. Para finalizar, haverá leituras da obra do autor, havendo ainda o lançamento de um catálogo e do livro Nada Natural, do poeta Gary Snyder.
A chegar às livrarias: O Que Maisie Sabia, de Henry James (trad. de Daniel Jonas)
«Creio que a impressão que me deixaram essas atividades amorosas entre quatro pessoas adultas, observadas pelo frio olhar de uma espécie de Alice-no-país-das-maravilhas, foi sobretudo a de um romance mundano (…) quase perverso de tão engenhoso, singular pelo virtuosismo com que as personagens secundárias mudam de lugar em redor da pequena heroína, como os elementos de um corpo de baile ou de uma equação de álgebra.
(…) Na época em que James escreveu Maisie, ou seja, em 1897, ninguém se atrevia a explorar seriamente o campo da sexualidade infantil. Freud era conhecido apenas por alguns especialistas. No entanto, não podemos deixar de pensar que a sociedade bem-pensante havia arrumado a um canto o pecado original, e que Santo Agostinho teria ficado menos surpreendido do que os primeiros leitores de Maisie ao comprovar a tranquila naturalidade com que esta rapariga se movimentava no meio a que chamamos o “mal”.» [«Os Encantos da Inocência. Uma Releitura de Henry James», Marguerite Yourcenar]
6.4.17
Sobre A Crisálida, de Rui Nunes
«É outra coisa, no entanto, aquilo que se encontra em causa em Rui Nunes — um lance mais arriscado, uma interrogação sem piedade, uma recusa sem cedências, não apenas ao mundo mas, também, à própria língua. Chamemos-lhe, a título provisório, um resto, mesmo que isso mantenha alguma ambiguidade — o resto da história, por exemplo, que facilmente se encontra em diversos momentos dos textos de Rui Nunes, poderá ainda apontar para um lado redentor. Em Crisálida, Rui Nunes designa como “vulgaridades sem redenção” aquilo que, em última análise, constitui o seu pequeno objecto de experimentação.» [João Oliveira Duarte, Caliban, 3/4/17, texto completo aqui.]
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