«Um top 5 dos
melhores livros publicados em Portugal que pretenda ser justo teria que colocar
nos cinco primeiros lugares cinco volumes do romance de Proust. O mundo
divide-se em dois tipos de pessoas: aquelas que acham que é possível definir o
mundo subdividindo-o em dois grupos descritos em menos de vinte palavras e as
que percebem que não podemos compreender completamente o que quer que seja nem
que dediquemos a essa tentativa mais de três mil e setecentas páginas. Proust está
neste segundo grupo. E é por isso que é um dos melhores escritores de sempre.»
[João Pedro Vala, Observador, 18-12-2016]
27.12.16
23.12.16
A Relógio D’Água nos Balanços do Expresso e do Público
No balanço anual da
actividade literária e ensaística, saído no suplemento Ípsilon do Público, a
Relógio D’Água é a editora com mais obras escolhidas (cinco).
A
Minha Luta: 4 – Dança no Escuro de Karl Ove Knausgård
aparece em 4.º lugar, ex aequo; Escola de Náufragos de Jaime Rocha, em
6.º; e Karen, de Ana Teresa Pereira,
em 10.º, ex aequo.
Isto na Ficção, em que
surge em primeiro lugar Não Se Pode Morar
nos Olhos de Um Gato, de Ana Margarida de Carvalho.
Na Não-Ficção, Rebuçados Venezianos, de Maria Filomena
Molder, está em 5.º lugar, numa lista encabeçada pela tradução da Bíblia em grego feita por Frederico
Lourenço.
Na Poesia, A Crisálida, de Rui Nunes, é escolhida
numa série de dez títulos, onde é destacado Letra
Aberta, de Herberto Helder.
No suplemento E, do Expresso, oito críticos literários escolhem, cada um deles, dez
títulos, apresentando referências avulsas a outras obras.
Da Relógio D’Água são
destacados oito obras: Para lá das
Palavras de Carl Safina por Ana Cristina Leonardo; Todos os Contos de Clarice Lispector, por José Guardado Moreira; Morrer Sozinho em Berlim de Hans Fallada
e Ficar na Cama e Outros Ensaios de
G. K. Chesterton, por Luís M. Faria; Até
já não É adeus de Cristina Carvalho, por Luísa Mellid-Franco; A Crisálida de Rui Nunes e Karen de Ana Teresa Pereira, por Manuel
de Freitas; e Será que os Androides
Sonham com Ovelhas Elétricas? de Philip K. Dick, por Pedro Mexia.
Sobre As Muitas Faces dos Anonymous de Gabriella Coleman
«Numa
altura em que muito se tem falado do papel dos media, das notícias falsas, da pós-verdade, do papel das redes
sociais na difusão de informação, As
Muitas Faces dos Anonymous é um livro fascinante. Não porque aborde estes
temas em particular, mas porque fala de um grupo tão complexo que os media raramente o conseguem explicar, o
que os torna alvos fáceis das tais notícias falsas e pós-verdade. Mas deixemos
estes palavrões de lado e falemos do livro de Gabriella Coleman.
Quem
são os Anonymous? Coleman, antropóloga cultural, precisou de um livro inteiro,
e anos de investigação e vivência no meio de alguns Anonymous, para o conseguir
explicar. E mesmo assim haverá sempre pontas soltas, porque uma das bases dos
Anonymous é precisamente a sua rejeição da organização. Não quer dizer que os
seus membros não se organizem em grupos para levar a cabo certas acções, que às
vezes atraem centenas de participantes, mas enquanto grupo, colectivo ou o que
lhe quiserem chamar, os Anonymous não têm líderes, não têm canais de
comunicação oficiais, não têm manifestos, não têm orientação.»
[Gonçalo
Mira, no suplemento Ípsilon, do Público, 23/12/2016]
22.12.16
Sobre Escombros, de Elena Ferrante
«Hoje
na Sábado escrevo sobre Escombros, de Elena Ferrante (n. 1943).
Chave: “Uma história é antes o precipício
das mais diversas experiências, acumuladas ao longo da vida.” Quem o diz é
a autora, numa das entrevistas coligidas para a nova edição do livro de 2003
que foi agora reeditado em Itália. (…) Três itens centrais: o direito ao
anonimato, a “verdade” em literatura, a defesa intransigente do feminismo.
Sobre este último tópico, bem defendido do ponto de vista teórico, faz ouvir
uma voz desalinhada: “Temo a linearidade das militâncias, em
literatura têm um péssimo efeito.” Aí está um
desabafo que não seria possível nos anos 1960. Entretanto, reage com frieza à
desconfiança e mesmo hostilidade que o seu anonimato suscita em Itália: “Como
se o meu gesto de me subtrair fosse um comportamento ofensivo e digno de culpa.”
Clareza desarmante sobre a obra: “Eu escrevo sobre experiências comuns,
dilacerações comuns, e a minha máxima obsessão [é ser] capaz de tirar,
camada após camada, a gaze que enfaixa a ferida, e chegar à história verídica
da chaga.” O princípio não se esgota na epopeia de Elena e Lila. O mesmo
tipo de preocupação matiza o diálogo que estabelece com Mario Martone a
propósito do guião para cinema de Um Estranho Amor. O filme chocou-a,
provocando-lhe “um grande mal-estar”, mas a carta de Maio de 1995,
inacabada e nunca enviada ao realizador, é um dos momentos altos do livro.
Resumindo, Escombros é uma obra
decisiva para entender o fenómeno Elena Ferrante.»
[Eduardo Pitta, do
blogue Da Literatura, 21/12/2016]
21.12.16
Sobre Breve História de Sete Assassinatos, de Marlon James
«Vencedora
do Man Booker Prize em 2015, esta Breve
História… não tem nada de breve. Com 665 páginas em letra pequena, é um
longo fresco onde vão aparecendo e reaparecendo muitas vozes diferentes –
membros de gangues, polícias, artistas, diplomatas, agentes da CIA, políticos,
estudantes, desempregados, jornalistas –, alternando registos que vão do inglês
culto ao balbuciar delirante. A narrativa arranca na Jamaica em meados dos anos
70 e expande-se a partir daí. (…) Para o leitor, há a gratificação de centenas
de páginas de texto denso mas legível, geralmente coloquial e muitas vezes em dialeto
(parabéns ao tradutor, que não teve tarefa fácil), onde não falta verve nem
tragédia à espreita: “Sempre que entro num autocarro, há um momento em que
sinto que ele vai explodir. Mas penso sempre que a explosão vai ser na parte de
trás, por isso sento-me na parte da frente. Como se sentar-me à frente fosse
fazer qualquer diferença.”»
[Luís
M. Faria, na revista E, 17/12/2016]
19.12.16
Sobre O Delfim, de José Cardoso Pires
«Trata-se, portanto, de José Cardoso Pires ser Aquele que tira e não
aquele que põe. Tira o que está a mais, o que está exatamente a mais.» [Gonçalo
M. Tavares, Estante, Outono de 2016, a propósito de O Delfim, de José
Cardoso Pires, um dos 12 melhores livros portugueses dos últimos cem anos]
Sobre Húmus, de Raul Brandão
«Raul Brandão
tem uma total empatia social mas não é um autor político no sentido estrito da
palavra. É um autor que deve muito aos autores russos, àquela espécie de
socialismo cristão.» [Pedro Mexia, Estante, Outono de 2016, a propósito de Húmus,
de Raul Brandão, um dos 12 melhores livros portugueses dos últimos cem anos]
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