31.10.16

A chegar às livrarias: Dança no Escuro — A Minha Luta: 4, de Karl Ove Knausgård (trad. de Miguel Serras Pereira)



 

Depois de terminar os estudos secundários, Karl Ove desloca-se para uma remota vila piscatória para trabalhar como professor. Não possui qualquer interesse nesse trabalho — ou em qualquer outro — e o seu único objectivo é o de poupar dinheiro e começar a escrever.
Tudo corria bem, até ao momento em que as noites se começam a alongar, e a sua vida sofre uma mudança repentina. A bebida causa-lhe desmaios, as sucessivas tentativas de perder a virgindade terminam em humilhação, e, para sua angústia, apaixona-se por uma sua aluna.
Tudo isto enquanto a sombra do seu pai parece cada vez maior.

«Belamente humano… Ser levado para o mundo de Knausgård é um prazer inevitável.» [The Times]
 
«Afirma-se como o maior acontecimento literário do século XXI.» [Guardian]

A chegar às livrarias: No Outono, de Karl Ove Knausgård, com ilustrações de Vanessa Baird (trad. de Pedro Fernandes)




 

«28 de agosto. Agora, no momento em que escrevo isto, não sabes nada, nada do que te espera, do mundo a que vais chegar. E eu nada sei de ti. Vi uma imagem na ecografia, e pus uma mão sobre o ventre em que estás, é tudo. Faltam seis meses para nasceres e muito pode acontecer durante esse tempo, mas eu creio que a vida é forte e inexorável, e creio que tudo se vai passar bem contigo e que vais nascer perfeita, saudável e forte. Vir à luz, diz-se. Quando a tua irmã mais velha, a Vanja, nasceu, era de noite, a neve rodopiava na escuridão. Um momento antes de ela nascer, uma das parteiras puxou-me, tu vais recebê-la, disse ela, e foi o que fiz, um bebé deslizou para as minhas mãos, escorregadio como uma foca. Eu estava tão feliz, que até chorei. Quando a Heidi nasceu, um ano e meio mais tarde, era outono e o céu estava encoberto, o tempo estava frio e húmido como pode estar em outubro, ela chegou de manhã, o parto foi rápido, e quando a cabeça estava de fora, mas não o resto do corpo, ela emitiu um pequeno som com os lábios, foi um momento tão sereno.»

A chegar às livrarias: Benoni, de Alexandre Andrade




«Entre a cidade e a vila, entre o seu manuscrito e a inércia, assim vivia Benoni. Nada o ligava àquela pequena povoação do interior, excepção feita a um punhado de amigos chegados, também eles, na sua maior parte, visitantes de ocasião, que para ali confluíam periodicamente. Quanto ao resto, nem memórias, nem aspirações, muito menos raízes. Talvez por isso mesmo não acreditava que a atracção sentida por aquele lugar pudesse ser apenas um capricho persistente ou um efeito secundário. Sem hesitar, e sempre que lhe era possível, largava tudo e vinha ali passar uns dias.
(…)
Era naquela época que despontavam as flores, as invejas e os amores. As flores, naturalmente, as invejas, lentamente, os amores em sobressalto. Benoni nem se atrevia a tentar calcular quantos palermas faziam a corte à jovem Lia, por cada ano que passava. A acreditar no que se contava à boca cheia, ninguém, nem sequer o velho e embrutecido taberneiro (especialmente o velho e embrutecido taberneiro) se mostrara insensível aos seus encantos. Tudo começava com uma manhã passada ao nível da terra fria, esperando o momento em que Lia surgiria caminhando em beleza, como a noite de um clima sem nuvens e de céus estrelados, em busca de água para si e para o seu avô, este confinado a uma cadeira de rodas e à amargura. “A pequena vai buscar água, e é tudo? Não se passa nada de escabroso?”, estranhava Benoni, conversando com potenciais, actuais ou pretéritos.»

27.10.16

A chegar às livrarias: Cegueira Moral, de Zygmunt Bauman e Leonidas Donskis





Neste diálogo entre Zygmunt Bauman e Leonidas Donskis fala-se da perda de sensibilidade num tempo marcado pelo terrorismo, a guerra, as migrações e outras formas de violência.
A empatia, a capacidade de nos colocarmos no lugar dos outros, parece diminuir quando era mais necessária. E isso vai a par com a feroz busca de identidade e o desrespeito pela privacidade alheia.
A violência e os desastres tornam-se tão constantes na televisão e nas redes sociais que as sociedades padecem de uma espécie de cegueira moral, de tal modo estão insensibilizadas para o sofrimento e se recusam a compreender o que se passa.


«À medida que a negligência moral cresce em alcance e intensidade, a procura de analgésicos aumenta cada vez mais, e o consumo de tranquilizantes morais transforma-se em vício. Por conseguinte, uma insensibilidade moral induzida e manipulada torna-se uma compulsão ou uma “segunda natureza”: uma condição permanente e quase universal — e as dores morais veem-se desprovidas do seu papel salutar de prevenir, alertar e mobilizar.» [Zygmunt Bauman]

24.10.16

Sobre Karen, de Ana Teresa Pereira




«Em Karen, a escrita de Ana Teresa Pereira adquire uma intensidade particularmente difusa, que joga com vários matizes e referentes. (…)
Mas a neve recusa-se a cair, é apenas chuva no magnífico final deste romance, cuja “banda sonora” fica entregue a Keith Jarrett e Mark Eitzel. E torna-se impossível não nos lembrarmos do cineasta Andrei Tarkovsky quando surge o propósito de acender algumas velas “para salvar o mundo”. Tem sido esse o modo de escrita de Ana Teresa Pereira, embora quase ninguém dê por isso. E não é sequer de espantar que os temas destas variações mudem pouco: “Em tempos pensava que todas as histórias eram uma só, a luta entre o anjo bom e o anjo caído, e sempre à beira de um abismo. Mas havia uma segunda história, a rapariga que se apaixonava por um homem numa casa assombrada por outra mulher.”» [Manuel de Freitas, Expresso, E, 22-10-2016]

Sobre Ficar na Cama e Outros Ensaios, de G. K. Chesterton




«Como todos os bons ensaístas, Chesterton tem um fino dom de observação e a capacidade de fazer distinções, exprimindo a ideia resultante num paradoxo que, além de hábil, tende a ser verdadeiro. As nove dezenas de peças aqui reunidas, selecionadas por Alberto Manguel a partir das várias recolhas que Chesterton publicou, ocupam-se de temas tão diversos como a literatura e a (má) escrita, a contemplação de coisas banais, a Idade Média e São Francisco, os méritos de correr atrás do próprio chapéu na rua e o potencial criativo de ficar na cama. Genial, para usar um cliché.» [Luís M. Faria, Expresso, E, 22-10-2016]

18.10.16

Maria Filomena Molder fala ao JL







A propósito da recente edição na Relógio D’Água de Rebuçados Venezianos, a ensaísta e filósofa Maria Filomena Molder deu uma entrevista a Maria Leonor Nunes do JL. É uma das mais importantes concedidas pela autora de A Imperfeição da Filosofia, nela abordando a sua evolução intelectual e as relações entre arte e filosofia.

 

«— Lembra nesse texto de Rebuçados como se surpreendeu com os bailarinos que caíam, quando sempre tinha acreditado que a dança queria evitar a queda.

— Sim, a queda era uma falha, um desacerto e ali era um movimento desejado, sem dúvida controlado por uma técnica extraordinária. O coração da arte é a técnica. No caso, saber como fazer do corpo um instrumento. Para cair, por exemplo.

— E poder-se-á dizer que o seu pensamento “dança”?

— Talvez o que eu faça seja um substituto dessa impossibilidade. O pensamento tem tendência a aguentar-se no ar, sem ter em conta a força da gravidade. Esse é um dos seus perigos (risos). Hermann Broch tinha uns oito anos quando, como sucede com outras crianças, lhe aconteceu aquilo a que chamou “cair em si”, perceber que um dia ia morrer. Recorda na sua autobiografia que estava a brincar num bosque, perto de Viena, e percebeu que estava sozinho no mundo. Descobriu a solidão da vida humana e que a morte é um acontecimento literário. O pensamento é uma tentativa de superação, uma espécie de protecção contra a morte. Move-se numa área em que ninguém pode viver. Esse é um risco.

 
(…)


— O “estranho” sempre a atraiu. Porquê?

— Escrevi-o a propósito da minha adolescência. Em geral, o adolescente está espontaneamente preparado para saltar para fora do que lhe ensinaram, para criticar, recusar. Mais tarde compreendi que realmente gostava do que não percebia. O estranho atraía-me. Pessoas que não compreendia, obras quase ilegíveis, em cuja leitura persistia.

 
(…)


— O que a levou a juntar estes textos em Rebuçados Venezianos?

— Já tinha publicado um conjunto noutro livro sobre arte e artistas, que incluía textos sobre Ana Vieira, Helena Almeida, Rui Chafes e também sobre o texto de Walter Benjamin Mancha e sinal, uma matriz excepcional sobre a diferença entre a pintura e o desenho. A certa altura, percebi que tinha escrito sobre muitos artistas, depois de 2000, e pensei juntá-los noutro volume.» [JL, 12-10-2016]