«Como a “sombra que uma criança persegue com a vela”, na
sua escrita Rui Nunes atingiu o limite do horror, iluminando o seu mecanismo de
absurdos.» No jornal i de 31 de Agosto, Diogo Vaz Pinto entrevista o «autor,
que, ao reclamar a vulnerabilidade da pobreza como condição para o homem estreitar
a sua relação com a realidade, encerra a sua obra como um dos exemplos mais
notáveis de uma literatura actuante. (…) Rui Nunes (Lisboa, 1947) começou a
publicar em 1968 e, com mais de 20 títulos de um género inclassificável
editados, hoje admite que não escreverá mais, não apenas porque a progressiva
cegueira que o afecta há vários anos já não o deixa, mas também por sentir que
alcançou um momento final. Referência de um público minoritário, na sua
clandestinidade esta obra alcançou um prestígio enorme. Armadilha e Uma
Viagem no Outono saíram recentemente na Relógio D'Água - o último, numa
edição limitada a 150 exemplares, só pode ser adquirido por encomenda directa à
editora.» [Diogo Vaz Pinto, i, 31-08-2013]
9.9.13
6.9.13
Sobre animalescos, de Gonçalo M. Tavares
Na Time Out de 28 de Agosto, Ana Dias Ferreira escreve sobre animalescos,
de Gonçalo M. Tavares: «animalescos é o novo título da série “Canções”, da qual
faz parte o óptimo título Canções Mexicanas e, tal como esse livro, é um
conjunto de histórias curtas que surgem como alucinações, sem parágrafos, sem
paragens, como uma torrente de palavras que ao mesmo tempo que nos atropelam,
nos engolem. (…) Porque se havia uma distinção entre o narrador de Canções
Mexicanas e a cidade na qual ele tentava sobreviver sem ser degolado, aqui
não há diferenças: dos urubus que comem cães aos cães que comem doentes,
passando pelos médicos que deixaram esses doentes para morrer, todos são
“animalescos”, e os homens regressam a um estado primário em nome da maldade,
da loucura, ou de uma necessidade de sobrevivência.»
5.9.13
Sobre Amada Vida, de Alice Munro
«Na página
213, depois de dez histórias que voltam a revelar, em todo o seu esplendor, a
mestria narrativa de Alice Munro, o leitor de Amada Vida depara com a
seguinte nota: “Os últimos quatro trabalhos deste livro são são propriamente
contos. Formam um conjunto à parte, autobiográfico no sentimento, embora nem
sempre no que concerne aos factos. Penso que são as primeiras e últimas — e
mais íntimas — coisas que tenho a dizer sobre a minha vida.” O que mais
surpreende nestes fragmentos biográficos, construídos a partir das memórias de
infância, é a afinidade evidente com os temas, situações e personagens da sua
escrita ficcional, por muito que a autora procure estabelecer uma barreira
entre os dois domínios. (…) As casas de Amada Vida — talvez o
derradeiro, e belíssimo, livro da escritora canadiana (n. 1931) — são inesgotáveis.»
[José Mário Silva, Expresso, Atual, 31-08-2013]
4.9.13
Sobre Anna Karénina, de Lev Tolstoi
Na Revista do Expresso
de 31 de Agosto, José Mário Silva sugere revisitas aos clássicos no Verão e escreve
sobre Anna Karénina, de Lev Tolstoi: «Sobre Anna Karénina —
a obra-prima de Lev Tolstoi que uma sondagem da revista Time (junto de vários
escritores) considerou, em 2007, o melhor romance de todos os tempos — toda a
gente sabe pelo menos duas coisas. Que abre com uma das mais célebres primeiras
frases da literatura (“Todas as famílias felizes se parecem umas com as outras,
cada família infeliz é infeliz à sua maneira”) e que a protagonista, no fim, se
suicida, atirando-se para a linha férrea quando passa um comboio. (…) E não é
por conhecermos o desenlace que a descida aos infernos de Karénina se torna
menos comovente.»
3.9.13
Sobre O Jogo Sério, de Hjalmar Söderberg
«Foi no ano
passado que a Relógio D’Água traduziu O Doutor Glas, pequena obra-prima
que provocou grande escândalo no momento da sua publicação, em 1905. A mesma
editora regressou há pouco ao escritor sueco, com O Jogo Sério, mais um
exemplo de mestria narrativa, ambiguidade existencial e análise psicológica
atenta.»
[Ana Cristina
Leonardo, Expresso, Atual, 24-08-2013]
Vanda Anastácio sobre Uma Antologia Improvável
Vanda Anastácio falou ao Ler +, Ler Melhor sobre Uma Antologia Improvável. O programa pode ser visto aqui.
2.9.13
Paulo Faria em terras de Cormac McCarthy
No ípsilon
de 30 de agosto, é publicada a reportagem que Paulo Faria e o fotógrafo Peter
Josyph fizeram em terras ligadas a Cormac McCarthy. Mais precisamente na região
do Texas, que tem sido o cenário dos seus livros desde Meridiano de Sangue.
«Em 1979,
Cormac McCarthy publicou Suttree, encerrando com brilho ímpar a primeira
fase da sua obra, a dos Apalaches, e mudou-se para o Texas, onde encetou uma
segunda etapa criativa, cujo primeiro fruto foi o fragoroso Meridiano de
Sangue, de 1985, a que se seguiu Belos Cavalos, menos sanguinolento
porque seria impossível sê-lo mais. Em 2012, em Knoxville, no Tennessee,
perguntei a Jim Long, amigo de infância e juventude de Cormac McCarthy, dos
tempos em que este ainda se chamava Charlie, se Cormac alguma vez manifestara o
género de desinteresse apaixonado pelo Sudoeste americano que justificasse uma
mudança tão súbita e tão radical na sua vida e na sua obra. E Jim, já
visivelmente enfraquecido pela doença que o viria a ceifar poucos meses depois,
quebrou o silêncio que era a sua marca, o silêncio arredio dos que só falam do
que sabem e respeitam muito o valor das palavras, para me dizer que não, nunca
ouvira Cormac ansiar pelo Oeste Americano. E depois rematou: “Acho que foi a escrita
dele que o levou até lá.”
Nesta
resposta clarividente vi o farol que deveria guiar-me numa visita ao Texas, em
demanda da matriz, da ossatura que Cormac McCarthy terá reconhecido de imediato
como sua, instalando-se aqui como quem regressa a casa.»
No mesmo
número do ípsilon, António Guerreiro escreve sobre Armadilha, de
Rui Nunes, e Helena Vasconcelos sobre A Verdadeira Vida de Sebastian Knight,
de Vladimir Nabokov.
A propósito
do último texto publicado de Rui Nunes, António Guerreiro afirma: «Na obra de
Rui Nunes, que já conta com mais de 20 livros, Armadilha é um
texto-limite, um ponto extremo a que só chega a fúria da escrita quando o seu
obsessivo foco de atracção é a parte maldita. É certo que, se os bons
senitmentos não produzem boa literatura, a aproximação ao mal e à morte
comporta riscos simétricos e é sempre uma aposta demasiado elevada. Mas a
escrita de Rui Nunes está à altura do desafio com que se confronta.» [ípsilon, 30
de Agosto 2013]
Sobre A
Verdadeira Vida de Sebastian Knight, primeiro romance em língua inglesa de
Vladimir Nabokov, Helena Vasconcelos escreve: «É caso para perguntar: onde quer
chegar Nabokov com esta intensa e labiríntica narrativa? É óbvio que não se
limita a contar uma história e avança para a arquitectura de todo um edifício
de teoria literária, num desafio arrojado à sua própria capacidade de pensar,
sentir e levar a cabo os seus complicados exercícios mentais numa língua que
não era a sua, mostrando o jogo e colocando as cartas na mesa num tom
desafiador e mordaz: irmãos, duplos, comboios, vagabundagens, mulheres
misteriosas de pele translúcida, veias a palpitar eroticamente, heróis
byronianos, burgueses entediantes, histórias dentro de histórias, são algumas
das ferramentas que usará — e das quais abusará — no seu ofício, culminando
nessa obra-prima que é Lolita.» [ípsilon, 30 de Agosto 2013]
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