7.5.13

Sobre Contos, de Luigi Pirandello





«Pirandello é um dos “meus” escritores. Cultiva um humor muito particular, original e difícil de definir, às vezes macabro, outras vezes trágico e desesperado. No prefácio da edição de 1947, Graziella Molinari escreve que os contos de Pirandello “apareceram em volumes variamente intitulados, mas foram depois por ele próprio reunidos sob o título complexivo de Contos para um Ano. Tencionava, pois, escrever 365.” Esteve perto: escreveu cerca de 300.» [Rui Manuel Amaral sobre Contos de Pirandello, uma das suas escolhas para a revista digital NovosLivros]

6.5.13

Sobre Sigmund Freud (06-05-1856/23-09-1939)




De Sigmund Freud, a Relógio D’Água publicou Uma Recordação de Infância de Leonardo da Vinci, Psicopatologia da Vida Quotidiana, Moisés e o Monoteísmo, Totem e Tabu, Sobre os Sonhos, O Mal-Estar na Civilização, Autobiografia Intelectual, Para Além do Princípio do Prazer, Três Ensaios sobre Teoria da Sexualidade, A Interpretação dos Sonhos, Cinco Conferências sobre Psicanálise.



A primeira edição de A Interpretação dos Sonhos (Die Traumdeutung) foi publicada em Novembro de 1899. Esta obra inaugurou a teoria da análise do sonho, cuja actividade Freud descrevia como «a estrada real para o conhecimento dos processos mentais do inconsciente»: «Nas páginas que se seguem, apresentarei a prova de que há uma técnica psicológica que permite interpretar os sonhos, e de que pela aplicação desse processo todos os sonhos surgirão como uma configuração psicológica significante, que podemos inserir num lugar específico nas actividades psíquicas da vigília. Além disso, tentarei elucidar os processos que subjazem à estranheza e à obscuridade dos nossos sonhos, e deduzir desses processos a natureza das forças psíquicas cujo conflito ou cooperação são por eles responsáveis. Feito isto, darei a minha investigação por terminada, pois terá atingido o ponto em que o problema do sonho se entronca em problemas mais gerais, cuja resolução exige o recurso a materiais de índole diferente.» [Do I Capítulo de A Interpretação dos Sonhos]

 


Esta Autobiografia é a descrição dos primeiros anos de trabalho e investigação de Sigmund Freud, do modo como foi descobrindo as principais correntes psicológicas e neurológicas da sua época e como, através da influência de Breuer, encontrou o caminho para a psicanálise. E nenhuma teoria sobre o funcionamento da estrutura psíquica exerceu uma influência tão grande como a psicanálise. Esta Autobiografia de 1925 é acompanhada pela História do Movimento Psicanalítíco publicada em 1914. Freud, que estivera praticamente só na defesa da psicanálise durante cerca de dez anos e sujeito às mais diversas e violentas críticas, foi conseguindo obter a adesão para as suas concepções de vários jovens médicos e investigadores de diferentes países. Depois, o próprio movimento psicanalítico foi-se institucionalizando e ramificando, sob o olhar atento de seu fundador.

3.5.13

Soren Kierkegaard (05-05-1813/11-11-1855)




«Soren Kierkegaard (1813-1855) não é daqueles filósofos de quem se espera uma teoria completa e arrumada sobre um qualquer magno assunto. Sartre dizia mesmo que não era filósofo, antes um cristão que recusava sistemas e afirmava a irredutibilidade do vivido. A subjetividade variável tem reflexos no dispositivo textual, com a utilização de pseudónimos e a sobreposição de diferentes registos, numa espécie de ronda permanente em torno das questões. Esse desconstrucionismo aplicado torna-o inconfundivelmente moderno. Reconhecido como um dos pais do existencialismo, a qualidade imaginativa do seu estilo, a oposição à autoridade religiosa e a própria coincidência de obras de diversos géneros no seu corpus — diários, ensaios, panfletos, etc. — também contribuem para o tornar apelativo.» [Luís M. Faria, Atual, 19-01-2013]



«É costume dizer-se que o ócio é uma raiz de todo o mal. Para impedir o mal, recomenda-se trabalho. Entretanto, vê-se facilmente, tanto pela temida ocasião como pelo remédio recomendado, que toda esta observação é de extracção muito plebeia. O ócio, nessa sua qualidade, não está de todo na raiz do mal, pelo contrário, constitui uma vida verdadeiramente divina, quando não nos entediamos. (…)
O tédio é o panteísmo demoníaco. Ao permanecer nele enquanto tal, então, o tédio torna-se o mal; ao invés, assim que é relevado, então, é verdadeiro; mas é relevado apenas através do divertir-se — ergo o homem deve divertir-se. Afirmar que é relevado por via do trabalho denota ausência de clareza; pois o ócio pode seguramente ser anulado pelo trabalho, dado que este é o seu contrário, mas o tédio não pode, o que até também se verifica no facto de os trabalhadores mais diligentes, os insectos mais zumbidores no seu cioso zunido, serem os mais entediantes de todos; e quando não se entediam, conclui-se que não fazem qualquer ideia do que é o tédio; mas, então, o tédio não é relevado.» [Soren Kierkegaard, in Ou—Ou. Um Fragmento de Vida, Primeira Parte]

De O Mistério do Coelho Pensante, de Clarice Lispector




 
«Esta história só serve para criança que simpatiza com coelho. (...) Como a história foi escrita para exclusivo uso doméstico, deixei todas as entrelinhas para as explicações orais. Peço desculpasa pais e mães, tios e tias, e avós, pela contribuição forçada que serão obrigados a dar. Mas pelo menos posso garantir, por experiência própria, que a parte oral desta história é o melhor dela. Conversar sobre coelho é muito bom.» [Clarice Lispector, in O Mistério do Coelho Pensante]

De Duluoz, o Vaidoso, de Jack Kerouac





«Quando despertei daquele devaneio tresloucado e ergui os olhos, fitando as estrelas, ouvi a minha mãe e a minha prima a dar à língua na cozinha sobre variedades de chá, ouvi até o meu pai a berrar do outro lado da rua, na pista de bowling, e dei-me conta de que um de nós os dois era seguramente louco, ou eu ou o mundo; e optei pelo mundo.
E é claro que tinha razão.»


Duluoz, o Vaidoso, de Jack Kerouac, com tradução de Paulo Faria, citado por Rui Manuel Amaral no blogue MaloneMeurt

2.5.13

Sobre Um Sonho Realizado e Outros Contos, de Juan Carlos Onetti





«Por escorreita que seja a linguagem, num registo que por vezes se aproxima da prosa jornalística, Onetti não tem uma escrita fácil, no sentido vulgar da palavra. Nas suas histórias, verdadeiros relatos de um existencialista dépaysé, há sempre lances enganadores, pontas soltas, zonas de sombra, episódios de tortuosa ambiguidade.» [Eduardo Pitta, ípsilon, 28-11-2008]

De A Descoberta do Mundo, de Clarice Lispector





«Ritual – Trecho


Aí está ele, o mar, a mais ininteligível das existências não humanas. E aqui está a mulher, de pé na praia, o mais ininteligível dos seres vivos. Como o ser humano fez um dia uma pergunta sobre si mesmo, tornou-se o mais ininteligível dos seres vivos. Ela e o mar.
Só poderia haver um encontro de seus mistérios se um se entregasse ao outro: a entrega de dois mundos incognoscíveis feita com a confiança com que se entregariam duas compreensões.
Ela olha o mar, é o que pode fazer. Ele só lhe é delimitado pela linha do horizonte, isto é, pela sua incapacidade humana de ver a curvatura da terra.»

 
Por acordo com a editora Relógio D’Água, o Ípsilon vai publicar nove crónicas de Clarice Lispector, ou seja, uma por semana durante a Exposição que lhe é dedicada na Fundação Calouste Gulbenkian. Os textos são extraídos de A Descoberta do Mundo.
No dia 26 de Abril foi publicada a primeira, intitulada «Ritual – Trecho», de que acima se reproduz um excerto.