24.12.12

Primeiros parágrafos de A Rapariga sem Carne, de Jaime Rocha





No blogue Bibliotecário de Babel, José Mário Silva transcreve o início de A Rapariga sem Carne, de Jaime Rocha:

«O corpo da mulher rola para dentro de casa como um embrulho, as roupas encardidas pela humidade. O cabelo está de tal modo entrelaçado que nem a água quente o conseguirá desembaraçar com a lavagem. Estende-se no chão da sala, exausta.»
 
Texto completo aqui.

21.12.12

Sobre A Terceira Miséria, de Hélia Correia




 

Na sua crónica «O que dizem os poetas» de 20 de Dezembro de 2012, no Diário de Notícias, Viriato Soromenho-Marques escreve: «Quando daqui a muitos anos alguém fizer a história da crise europeia, um dos registos que sobreviverá à erosão do tempo será o livro de poemas de Hélia Correia, A Terceira Miséria (Relógio D’Água, 2012). Os poetas dizem as coisas improváveis, mas essenciais. Conheci este livro pela mão de Maria de Sousa, uma cientista com quem o país contraiu uma dívida que jamais poderá saldar. Como tudo o que é fundamental, o verdadeiro conhecimento, seja científico ou poético, está para além da “esfera de transacções”. Hélia Correia fala-nos da Grécia e da Alemanha. Do país onde amanheceu o Ocidente. E do país que, no último século, parece condenado à maldição de conduzir a Europa à sucessiva encenação do seu crepúsculo. A poetisa convoca Hölderlin, Nietzsche, a II Guerra Mundial, mas canta-nos sobretudo a espessa vitória do esquecimento sobre essa memória que é a nossa única linha de defesa contra a repetição da barbárie.»

Sobre A Rapariga sem Carne, de Jaime Rocha





No ípsilon de 21 de Dezembro de 2012, Raquel Ribeiro escreve sobre A Rapariga sem Carne, de Jaime Rocha: «Belíssima prosa, límpida e precisa que, apesar da abstracção do lugar e do tempo, é, simultaneamente, um retrato de um Portugal de hoje: a miséria, o depauperamento, o desamparo na velhice, o abandono da cidade, um país (uma sociedade, portanto) cada vez mais decadente, cada vez mais pobre. A pergunta final que fica no ar (transparente, afinal, como o corpo da rapariga): será a loucura a única saída para não sucumbir ao medo? Não querendo induzir o leitor em erro — este pequeno e precioso livro, de apenas 70 páginas, não lhe dá, de todo, uma resposta —, há uma qualquer tranquilidade nessa incerteza. E ainda bem que, na literatura, é assim.»

Sobre Água Viva, de Clarice Lispector






«Clarice,
Li o seu livro de um jato só (Água Viva). Sem parar. É curioso, pois sem nenhum “plot” ele tem um suspense próprio, transmite grande carga de uma ansiedade pelo que de bonito você vai dizer no parágrafo seguinte. Sabemos que não há um desfecho mas corremos até o fim em busca dele. E então é aquele suspiro final.
Acho-o maravilhoso. É um contato com o bonito-puro. E isto dito por mim tão pouco abstrato, tão “operacional” mesmo na minha atividade como escritor, é muito significativo. Você venceu o enredo, libertou-se do incidente, do evento, do acontecimento. Mas mesmo sem estes o livro prende e se enovela porque dentro da abstração há uma série de vivências muito nítidas e muito lindas. A gente vai encontrando a todo instante situações-pensamento e vai se identificando com elas como se o livro tivesse personagens, incidentes, tudo.»
 
[Excerto de carta de Alberto Dines a Clarice Lispector datada de 20 de Julho de 1973]

20.12.12

Contos de Grimm



Comemora-se hoje o bicentenário da edição dos contos dos irmãos Grimm.

Juiz Holden, um dos maiores vilões da literatura [The Telegraph]



 

«Mas qualquer diálogo sobre Meridiano de Sangue está condenado a traçar círculos concêntricos à volta do seu fulcro, o juiz Holden. Harold Bloom chamou-lhe a “mais aterradora criação da literatura americana” e, por uma vez na vida, a sua histeria hierarquizante parece justificada. Como Ahab, o juiz vai anexando lentamente um romance que pertencia a terceiros, submetendo a narrativa a uma espécie muito particular de possessão demoníaca.» [Rogério Casanova, ípsilon]

Breves Notas, de Gonçalo M. Tavares





“Céptico como os cépticos, crente como os crentes.
A metade que avança é crente, a metade que confirma é céptica.
Mas o cientista perfeito é também jardineiro: acredita que a beleza é conhecimento.”
[sobre ciência]
 

“Indecifrável é o homem que, além de permanecer em silêncio e imóvel, se esconde da luz, como o mais velho dos ratos.
Dele — por jamais ter sido visto, mas, acima de tudo, por jamais ter sido entendido — se construirá uma robusta e luminosa estátua no centro dessa cidade que nem sequer se recorda de alguém o ter visto nascer.”
[sobre o medo]


“Lilith atravessou um caixão aberto, correu de um lado ao outro do caixão aberto. Apenas dois metros de comprimento: duas sensações estranhas: correr em espaço tão curto e esse movimento intenso dentro de uma caixa feita para guardar a imobilidade. Um exercício filosófico: correr dentro de um caixão.”
[sobre as ligações]