No ípsilon de 21 de Dezembro de 2012, Raquel Ribeiro escreve sobre
A Rapariga sem Carne, de Jaime Rocha: «Belíssima prosa, límpida e
precisa que, apesar da abstracção do lugar e do tempo, é, simultaneamente, um
retrato de um Portugal de hoje: a miséria, o depauperamento, o desamparo na
velhice, o abandono da cidade, um país (uma sociedade, portanto) cada vez mais
decadente, cada vez mais pobre. A pergunta final que fica no ar (transparente,
afinal, como o corpo da rapariga): será a loucura a única saída para não
sucumbir ao medo? Não querendo induzir o leitor em erro — este pequeno e
precioso livro, de apenas 70 páginas, não lhe dá, de todo, uma resposta —, há
uma qualquer tranquilidade nessa incerteza. E ainda bem que, na literatura, é
assim.»
21.12.12
Sobre Água Viva, de Clarice Lispector
«Clarice,
Li o seu livro de um jato só (Água Viva).
Sem parar. É curioso, pois sem nenhum “plot” ele tem um suspense próprio,
transmite grande carga de uma ansiedade pelo que de bonito você vai dizer no
parágrafo seguinte. Sabemos que não há um desfecho mas corremos até o fim em
busca dele. E então é aquele suspiro final.
Acho-o maravilhoso. É um contato com o
bonito-puro. E isto dito por mim tão pouco abstrato, tão “operacional” mesmo na
minha atividade como escritor, é muito significativo. Você venceu o enredo,
libertou-se do incidente, do evento, do acontecimento. Mas mesmo sem estes o
livro prende e se enovela porque dentro da abstração há uma série de vivências
muito nítidas e muito lindas. A gente vai encontrando a todo instante situações-pensamento
e vai se identificando com elas como se o livro tivesse personagens,
incidentes, tudo.»
[Excerto de carta de Alberto Dines a Clarice Lispector
datada de 20 de Julho de 1973]
20.12.12
Juiz Holden, um dos maiores vilões da literatura [The Telegraph]
«Mas qualquer
diálogo sobre Meridiano de Sangue está condenado a traçar círculos
concêntricos à volta do seu fulcro, o juiz Holden. Harold Bloom chamou-lhe a “mais
aterradora criação da literatura americana” e, por uma vez na vida, a sua
histeria hierarquizante parece justificada. Como Ahab, o juiz vai anexando
lentamente um romance que pertencia a terceiros, submetendo a narrativa a uma
espécie muito particular de possessão demoníaca.» [Rogério Casanova, ípsilon]
Breves Notas, de Gonçalo M. Tavares
“Céptico como os cépticos,
crente como os crentes.
A metade que avança é crente, a
metade que confirma é céptica.
Mas o cientista perfeito é também
jardineiro: acredita que a beleza é conhecimento.”
[sobre ciência]
“Indecifrável é o homem que, além
de permanecer em silêncio e imóvel, se esconde da luz, como o mais velho dos
ratos.
Dele — por jamais ter sido
visto, mas, acima de tudo, por jamais ter sido entendido — se construirá uma
robusta e luminosa estátua no centro dessa cidade que nem sequer se recorda de
alguém o ter visto nascer.”
[sobre o medo]
“Lilith atravessou um caixão
aberto, correu de um lado ao outro do caixão aberto. Apenas dois metros de
comprimento: duas sensações estranhas: correr em espaço tão curto e esse
movimento intenso dentro de uma caixa feita para guardar a imobilidade. Um
exercício filosófico: correr dentro de um caixão.”
[sobre as ligações]
Estreia de Pela Estrada Fora, de Walter Salles
Estreia hoje
nas salas de cinema portuguesas a adaptação cinematográfica que o realizador
brasileiro Walter Salles fez da obra homónima de Jack Kerouac.
O filme conta
com as participações de Viggo Mortensen, Kirsten Dunst, Sam Riley e Kristen
Stewart, entre outros actores.
A Relógio
D’Água publicou duas edições de Pela Estrada Fora. A primeira é a edição
tal como foi publicada em 1957. A segunda, Pela Estrada Fora — O Rolo
Original, em tradução de Margarida Vale de Gato, transcreve o rolo em que a
obra foi originalmente dactilografada.
«A primeira exploração clara da prosa romântica americana
desde Hemingway, cheia de louca comédia sexual, de belas passagens de viagem e
longas evocações líricas da infância da América e memórias de adolescência.» [Richard Holmes, The Times
(Londres)]
19.12.12
Em busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust
«Talvez
a frase inicial de qualquer romance que um maior número de franceses saiba de
cor seja “Longtemps je me suis couché de bonne heure”.
Essa
é a primeira frase de Em busca do tempo perdido de Marcel Proust,
talvez, ao lado de Ulysses, de James Joyce, o mais famoso monumento
literário do século XX. (…)»
«O manuscrito reproduzido nessas
páginas cobre uma folha de papel que já estava rasgada neste estranho formato
quando Proust a usou, para deixar nela a primeiríssima versão do começo de seu
romance [“Em busca do tempo perdido”].
Este é, portanto, o primeiríssimo
esboço dos primeiros parágrafos do livro, com importantes variantes com relação
ao texto impresso, como era comum para Proust, que corrigia e recorrigia até o
último minuto, e era considerado o terror dos tipógrafos. O desenvolvimento da
ideia é bastante semelhante, mas é aqui um jornal, e não um livro, que o
narrador solta ao adormecer. Mas o que chama a atenção é a ausência da frase
inicial.» [Pedro Corrêa do Lago no blogue Questões Manuscritas. Texto completo
aqui.]
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