23.11.12

Sobre Ada ou Ardor, de Vladimir Nabokov





«Na Cornell University, Vladimir Nabokov começava a primeira aula a dizer: “Os grandes romances são, acima de tudo, contos de fadas… a literatura não conta a verdade, mas inventa-a.” Ada, o 15.º romance de Nabokov, é um grande conto de fadas, uma originalíssima obra da imaginação. Publicado duas semanas depois do seu septuagésimo aniversário, prova que rivaliza com Kafka, Proust e Joyce, esses anteriores mestres de ímpares universos de ficção.» [Alfred Appel, Jr., New York Times, 04-05-1969]

22.11.12

Falar de Clarice Lispector a 10 de Dezembro



 

Hélia Correia, Maria Filomena Molder e Carlos Mendes de Sousa vão apresentar a obra de Clarice Lispector, no dia 10 de Dezembro, às 18h30, na Fnac Chiado.
Esta iniciativa é parte da comemoração internacional da obra da autora de Perto do Coração Selvagem, que, sob a designação de “Hora Clarice”, se realiza a 10 de Dezembro em vários países.
Além deste debate, a Relógio D’Água, que vem publicando a obra de Clarice Lispector, irá editar no início de Dezembro o romance Um Sopro de Vida (Pulsações), o último que a autora escreveu, e um dos seus textos infanto-juvenis, A Mulher Que Matou os Peixes.
Em 2013 continuaremos a publicar Clarice Lispector: os artigos jornalísticos reunidos em Só para Mulheres e Correio Feminino e as obras infanto-juvenis, O Mistério do Coelho Pensante, Quase de Verdade, Como Nasceram as Estrelas.


«Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida. Viver é uma espécie de loucura que a morte faz. Vivam os mortos porque neles vivemos.»

Clarice Lispector, Um Sopro de Vida (Pulsações)

21.11.12

Sobre A Viagem do Beagle, de Charles Darwin






A Viagem do Beagle, de Charles Darwin, foi Livro do Dia no programa de Carlos Vaz Marques na TSF em 22 de Outubro. O programa pode ser ouvido aqui.

20.11.12

Num Lugar Solitário, de Ana Teresa Pereira





«Tom intuiu que ela tinha horror da proximidade, de qualquer espécie de proximidade.
Olhou para as belas pernas sem meias, levemente bronzeadas. Teve vontade de tocar-lhes. Ela vestia de azul. Uma blusa azul-clara, uma saia estreita, azul-escura.
“Por que te escondes?”, pensou.
— Você não sabe o que isso é, doutora.
— O quê?
— Aproximar-se. Tocar.
— Não?
— Você limita-se a sugar. Quando me arranca qualquer coisa de mais íntimo, fecha os olhos e volta a abri-los, como um animal satisfeito.
— Dr. Hannibal, The Cannibal. Hannibal Lecter — murmurou ela. — Eu também vi The Silence of the Lambs.
Ele sentiu vontade de rir mas conteve-se. Queria feri-la, arranhá-la, pelo menos.
— E você acha que vive a vida intensamente?»

Num Lugar Solitário é um dos primeiros livros de Ana Teresa Pereira, publicado em 1996. Foi reescrito pela autora para esta edição.

Sobre Os Cães e os Lobos, de Irène Némirovsky





«Némirovsky era incapaz de escrever menos do que um romance arrebatador. Tem um talento irresistível para criar personagens e incidentes que tornam impossível interromper a leitura desta narrativa, assim como de outras que escreveu. A busca de Ben pela riqueza, a história de amor de Ada e Harry, o extáctico final (…), são Némirovsky a brilhar ao máximo. Há intensos retratos de judeus — mães de família e banqueiros — e delicados acontecimentos marcados pela sua melhor e mais emocionante escrita.» [Carmen Callil, The Guardian, 10-10-2009]

19.11.12

Vladimir Nabokov na Relógio D'Água





Escrito numa prosa irrequieta, fluente e mágica, este romance acompanha Ada desde o seu primeiro encontro na infância com Van Veen em Ardis Hall — a mansão campestre do tio deste, numa luminosa América de sonho. São décadas de êxtase em que atravessam continentes, se separam e reúnem, até compreenderem a estranha verdade da sua singular relação.
Ada ou Ardor é o mais nabokoviano romance de Nabokov.
A imaginação do autor não se exprime apenas no amor de Ada e Van, a irmã e o irmão. O fio narrativo dessa paixão é acompanhado de falsas citações, títulos erróneos, digressões sobre o tempo e ajustes de contas culturais.

«Ada é o livro pelo qual eu gostaria de ser lembrado depois da minha morte.» [Vladimir Nabokov]


 

Em 1927, Nabokov dava grandes passeios solitários pelos bosques da ilha de Rugen. Foi então que lhe surgiu o enredo de um romance que reuniria marido, mulher e amante numa praia do Báltico.
Franz instala-se em Berlim em casa do tio Dreyer para trabalhar nos seus armazéns. Mas Martha, a esposa do tio, decide seduzi-lo, acabando por o envolver num projecto de assassínio que conhece um desenlace imprevisto.
Rei, Dama, Valete é, segundo o autor afirma no prólogo à edição inglesa de 1967, um tributo a Flaubert. Mas as referências à bíblica mulher de Putifar ou a Lady Macbeth são evidentes.


«De todos os meus romances, esta fera rutilante é a mais alegre. A expatriação, a pobreza, a nostalgia não influenciaram a sua composição refinada e exultante. Concebida nas areias costeiras da baía da Pomerânia no Verão de 1927, construída ao longo do Inverno seguinte, em Berlim, e concluída no Verão de 1928, foi publicada nos começos de Outubro pela editora russa emigrada Slovo, com o título Korol’, Dama, Valet. Era o meu segundo romance russo. Eu tinha vinte e oito anos.» [Do Prólogo de Vladimir Nabokov]

16.11.12

A chegar às livrarias



 

«Ela afasta os lençóis. O seu rosto tornara-se um pouco mais escuro, adquirira um tom esverdeado. Há qualquer coisa nela de malsão, de não humano. Para Mateus, as cicatrizes daquele corpo já não se assemelham a cortes sarados mas a sinais de nascença ou a marcas de sangue dos antepassados. Estranha-lhe os olhos sem qualquer brilho, sem movimento, os ombros descaídos que formam duas grandes covas junto às omoplatas, uma ruga medonha por baixo do seio como se o coração tivesse sido arrancado por ali. Salomé senta-se na cama e tapa o sexo com as mãos. Despiu-se durante a noite sem que ele desse por isso. Sentira-a mexer e agitar o corpo, a sonhar, mas teve receio de a apertar contra si, de a acordar, de denunciar a sua excitação. Agora, ali, nua, descalça, quieta, a olhar para o chão, é a imagem de uma criança estremunhada à espera de que o pai a venha buscar para lhe dar banho. Enrola-a numa toalha. Pega nela ao colo e parece-lhe que não encontra músculos nem ossos. É um corpo jovem, mas desgastado, com uma pele transparente como se fosse feita de vidro. Arde no seu interior uma beleza sombria que não provém de matéria alguma. Sem carne, sem qualquer sangue. Há ali um princípio de corrosão, alguém lhe terá injectado um veneno que ainda não produziu efeito.»