Não, não estou a sugerir que no 6.º andar do n.º 27 da Av.
Estados Unidos da América os directores da APEL se dedicam a práticas de autoflagelação
em meio da habitual parafernália de blusões negros, chicotes e algemas.
A
autoflagelação a que me refiro não vem de profundezas do inconsciente, mas do
céu, ou mais exactamente das nuvens.
Tal
como sucedeu o ano passado, a Feira do Livro de Lisboa abre sob a chuva, a
humidade e o frio que afasta visitantes e ameaça livros e sessões de autógrafos.
Entretanto, o efeito da promoção dissipa-se.
Muitos
de nós têm já nostalgia da Feira de Lisboa percorrida em tardes de sol, onde à
sombra de um castanheiro-da-índia podíamos ler algum desses clássicos russos que
ajudaram a formar o nosso itinerário sentimental.
Deixou
de ser assim porque a APEL insiste em realizar a Feira entre a última semana de
Abril e meados de Maio. Ora é estatisticamente mais provável ocorrer chuva
nesse período do que, por exemplo, entre 3 e 20 de Maio, que tem ainda a
vantagem dos jacarandás floridos no Parque Eduardo VII. Não é só a meteorologia
a dizê-lo. A sabedoria popular fala de «Abril, águas mil» e a poética, através
de T. S. Eliot, refere que «Abril é o mês mais cruel» (…), «agita raízes dormentes
com chuva da Primavera».
Que
explica então este reiterado masoquismo anual? A APEL certamente dirá que,
sendo os pavilhões da Feira do Livro do Porto os mesmos de Lisboa, não se pode
empurrar aquela feira para o Verão e a dispersão das férias. Mas que mal
haveria em realizá-la entre, digamos, 8 e 24 de Junho?
De
resto, não se entende porque não se alterna entre as duas cidades o início das
Feiras. Como há muito menos pavilhões no Porto, no ano em que a Feira começasse
a norte, poder-se-ia mesmo avançar a sua montagem em Lisboa, estreitando o
prazo entre as feiras, e permitindo assim que acabassem mais cedo.
E já
agora, sendo cada vez menos as inscrições para a Feira do Porto, porque não
adiá-las de modo a poderem ser feitas já com as receitas recolhidas na de
Lisboa? É que o aluguer dos pavilhões é bem mais caro que o de uma suíte num
bem situado hotel de Manhattan ou mesmo de Luanda.
27 de Abril de 2012
Francisco Vale











