26.3.12

Os Anos Doces, de Hiromi Kawakami, Livro do Dia na TSF




Os Anos Doces, de Hiromi Kawakami, foi Livro do Dia na TSF, na sexta-feira, 3 de Março. Carlos Vaz Marques diz: «Com a delicadeza de um filme de Mizoguchi, Hiromi Kawakami dá-nos - numa linguagem sempre sem quaisquer floreados - uma história de amor sem exaltações, que é também um retrato da solidão urbana no Japão de hoje.» Para ouvir aqui.

23.3.12

Raymond Roussel em Serralves





Abre amanhã ao público no Museu Serralves a exposição vinda do Museu Rainha Sofia sobre a vida e obra de Raymond Roussel, em particular sobre a obra Locus Solus. Luís Miguel Queirós, no ípsilon de 23 de Março, aborda as obras fundamentais de Raymond Roussel, a saber Impressões de África (1910), Locus Solus (1914), e o poema Novas Impressões de África (1932).




O jornalista do Público escreve: «A intriga de La Doublure é talvez um pouco bizarra, mas nada que se compare com a desenfreada extravagância de Impressões de África (com tradução recente pela Relógio D’Água), onde se narra a história de um grupo de náufragos brancos capturados por um régulo africano, que estes entretêm com as mais variadas performances enquanto esperam ser resgatados. (…)

Ainda assim, Impressões de África, com a sua sucessão de cenas delirantes, contadas com abundante precisão de detalhes, tem qualquer coisa de hipnótico, e é provavelmente de mais fácil leitura do que Locus Solus, que relata a visita de um grupo de pessoas à propriedade do cientista e inventor Martial Canterel, onde este lhes vai mostrando uma série de estranhíssimas invenções, entre as quais um diamante cheio de água que contém uma bailarina, um gato sem pelo e a cabeça de Danton. (…)


O interesse por Roussel reavivou-se recentemente graças à descoberta, em 1989, de uma grande quantidade de documentos e manuscritos, incluindo diversos textos inéditos que estavam arrumados há décadas num armazém. O homem que chegara a profetizar que a sua fama “ensombraria a de Napoleão e Victor Hugo”, escreve no final da vida: “Refugio-me, à falta de melhor, na esperança de que os meus livros possam, vir a trazer-me algum florescimento póstumo.” E desta vez acertou.»

O Declínio da Mentira e A Alma do Homem e o Socialismo, de Oscar Wilde




«Ao ler e reler Wilde, ao longo dos anos, noto um facto que os seus panegiristas não parecem ter sequer suspeitado: o facto comprovável e elementar de que Wilde quase sempre tem razão. A Alma do Homem e o Socialismo não só é eloquente: é também justo.» [Jorge Luis Borges, Sobre Oscar Wilde]

O Declínio da Mentira, de 1889, era o texto preferido de Wilde e uma brilhante crítica contra a arte realista e o seu «monstruoso culto dos factos». Para o autor de O Retrato de Dorian Gray, os escritores realistas «escrevem romances que se parecem tanto com a vida que a ninguém é possível acreditar na sua probabilidade». Na sua opinião, «a arte nunca exprime outra coisa que não seja ela própria» e daí a sua conclusão de que é necessário «ressuscitar a perdida Arte da Mentir».
Em A Alma do Homem e o Socialismo, texto publicado em 1891, Oscar Wilde apresenta as suas particulares concepções de uma sociedade em que a pobreza resulta do funcionamento do capitalismo e não pode ser resolvida com a caridade e o altruísmo. Para Wilde, o desenvolvimento tecnológico permitirá ao homem trabalhar menos tempo e cultivar a sua personalidade. Mas o que mais lhe interessa no socialismo seria a sua capacidade de desenvolver o individualismo que se exprimiria através da alegria e da arte, numa espécie de helenismo renovado.

«Onde o génio de Oscar Wilde se manifesta com mais poder é em A Importância de Ser Earnest e em dois magníficos ensaios, A Alma do Homem e o Socialismo e O Declínio da Mentira.» [Harold Bloom, Génios]

22.3.12

A Terceira Miséria, de Hélia Correia, Livro do Dia na TSF




Ontem, 21 de Março de 2012, o recente livro de poesia de Hélia Correia, A Terceira Miséria, foi Livro do Dia na TSF. Diz Carlos Vaz Marques: «Essa paixão pela Grécia, desde há muito presente na obra de Hélia Correia, desagua agora neste livro de poesia, onde a Grécia clássica surge como farol e como impossibilidade.» Para ver e ouvir aqui.

21.3.12

Sobre O Lago, de Ana Teresa Pereira




Na revista Sábado de 26 de Janeiro, Eduardo Pitta escreveu sobre O Lago, de Ana Teresa Pereira: «Sem alarido, Ana Teresa Pereira (n. 1958) publicou mais um livro: O Lago. Tem sido assim desde 1989: escreve, publica, os mais atentos reconhecem nela uma voz singular da literatura portuguesa. Em 30 títulos, a prosa oscila entre o conto de fadas e o western, sem prejuízo da deriva policial (como no livro de estreia) e da apropriação de tiques góticos. (…) Como em livros anteriores, Tom marca o ritmo, desta vez na pele de um encenador teatral que também escreve contos “muito parecidos uns com os outros”. Prioridade: ser o Pigmalião de Jane.»

20.3.12

Água Viva, de Clarice Lispector




«De facto, [Água Viva] não se parece com nada que tivesse sido escrito na época, no Brasil ou em qualquer outro lugar. Os seus parentes mais próximos são visuais ou musicais, uma semelhança que Clarice enfatiza ao transformar a narradora, uma escritora, nas versões iniciais, numa pintora; na altura, ela mesma dava os primeiros passos na pintura.

(…) Clarice compara o livro a aromas (“O que estou fazendo ao te escrever? estou tentando fotografar o perfume”), a sabores, (“Como reproduzir em palavras o gosto? O gosto é uno e as palavras são muitas”) e ao tacto, embora a sua metáfora mais insistente seja em relação ao som: “Sei o que estou fazendo aqui: estou improvisando. Mas que mal tem isso? Improviso como no jazz improvisam música, jazz em fúria, improviso diante da platéia.” Isto é música abstracta, “uma melodia sem palavras”.

Livre dos constrangimentos de um enredo ou de ter de contar uma história, Água Viva é, todo ele, a crista da onda.»

Benjamin Moser, Clarice Lispector — Uma Vida

Sobre Encontro em Samarra, de John O'Hara





No suplemento Atual do Expresso de 17 de Março de 2012, Carlos Bessa escreve sobre Encontro em Samarra, de John O’Hara: «E os últimos dias de Julian são um mergulho no abismo. Porque tomar as atitudes que ele toma, escancarar o horror da banalidade não é tolerado. O’Hara fá-lo num registo cinematográfico, capaz de sustentar a imensa tensão da narrativa com uma grande economia de considerações, e consegue um momento alto da literatura norte-americana. Cada personagem é a voz de uma parte da cidade e da teia que a sustenta.»