8.4.10

Hélia Correia em entrevista sobre o seu último livro



«Foi uma paixão pela imagem, pelo quadro da "Ofélia", do [John Everett] Millais (1851-52). Uma grande paixão, um "coup de foudre". Essa imagem acompanhou-me sempre. E depois [continuou] durante a vida, sempre com a minha fortíssima anglofilia a dominar sobre a minha formação românica, francesa. Tem sido sempre assim e isso é uma coisa boa que me tem acontecido: como não é uma cultura académica, é sempre uma descoberta pessoal, não vai orientada por ninguém. Aos poucos, com todo o século XIX inglês, fui descobrindo a existência de personagens. Descobri que aquela figura se chamava Elizabeth Siddal.»

«A Lizzie é diferente porque - e aí já vamos ao coração da coisa - ela não é uma tela na qual o Gabriel [Rossetti] pinta, não é uma mulher-lua, nesse sentido de ser uma superfície plana. O que sinto que acontece é que, enquanto todas as outras mulheres foram escritas por esse ideal, ela foi o ser vivo que incarnava esse ideal sem que ninguém lhe inscrevesse nada. Até porque ela nunca se transformou, nunca se modificou nem para agradar, nem para desagradar. Surgiu como uma pintura viva, intocada pelos artistas. Não foram eles que a construíram, construiu-se sozinha segundo o ideal daqueles homens, e muito especial, segundo o ideal de Gabriel Rossetti.»

«[Lizzie] assustava. Assustava os homens. E com a sua parte de doente, frágil, e de desprotegida, enternecia as mulheres. O erotismo que emanava dela não era um erotismo directo, não era a carne que falava. Era de tal modo embrulhado em mito, o do cabelo vermelho, e inspirado pela distância, tão grande, que os homens, para entenderem, para continuarem a viver no mesmo meio, se consolavam em afirmar o oposto: que era frígida, que não era tão bela quanto isso, que era muito magra, antipática, mal-educada. É a reacção masculina a um feminino que é misterioso, e que tem uma coisa muito irritante para os homens: ela não quer saber deles. Há a típica mulher fatal que é a mulher misteriosa que emana um apelo de sereia, que, quando canta, canta para que o homem a ouça. Lizzie é completamente indiferente ao que pensem, ao que sintam os homens. Só lhe interessava a arte, o envolvimento poético e mítico daquela relação, e o Gabriel Rossetti.»

Da entrevista de Raquel Ribeiro a propósito do livro Adoecer. (Público, 24MAR)

Necrophilia, de Jaime Rocha, com prefácio de João Barrento





1.

A mulher caminha pelas urzes, no auge
do vento, já depois da morte, enovelada
pelos ramos que cortam a paisagem.
O homem está parado como uma ave
de pedra, batida pelo fumo. Depois, é o
corpo dela desfeito sobre os rochedos,
uma faísca que incendeia um pedaço
de madeira. O homem, amarrado a uma
mancha de ferro, contempla o corpo vazio.
Um pássaro cego cai em cima de um espelho.
É o rosto dele despedaçado, a dor.
Tudo é medonho à sua volta, a parte
de trás da luz, a humidade, a respiração
das plantas.






«A poesia de Jaime Rocha não vive nem da emoção, nem da conceptualidade abstracta, muito menos de qualquer piscar de olhos a experimentalismos de linguagem. É pura construção imagética, sem truques nem metáforas, uma sequência obsessiva de imagens nuas, em carne viva, angulosas e surpreendentes, para servir um universo de grandes percepções (e não mundos minimais e subjectivos, como acontece em grande parte da poesia que hoje se lê), num registo acentuadamente descritivo – no espaço (os cenários de cada acção ou a movimentação das figuras) e no tempo (o decurso do acontecer, os seus vários momentos e metamorfoses). Passando-se as coisas assim no plano da linguagem, esta poesia só podia ter um travejamento conceptual de tipo alegórico, em que o mundo se oferece ao olhar e por ele é interpretado.»
(Do Prefácio de João Barrento)


Jaime Rocha nasceu em 1949. Frequentou a Faculdade de Letras de Lisboa. Viveu em França nos últimos anos da ditadura. Publicou várias obras nos domínios da ficção, da poesia e do teatro. Com a edição de Necrophilia termina a sua Tetralogia da Assombração que inclui os livros Os Que Vão Morrer, 2000, Zona de Caça, 2002, e Lacrimatória, 2005, editados na Relógio D'Água.


7.4.10

António Guerreiro sobre Mãe-do-Fogo


Sobre o livro Mãe-do-Fogo, António Guerreiro diz: «Entre os desenhos de João Cruz Rosa e os poemas de João Miguel Fernandes Jorge não há uma relação ilustrativa nem de interpretação: cada uma das secções do livro é autónoma. Mas não há na poesia portuguesa contemporânea um diálogo mais fecundo com a arte irmã da poesia do que aquele que este poeta tem desenvolvido.» Na revista Actual de 27 de Março.


6.4.10

José Riço Direitinho sobre John Cheever



John Cheever ganhou fama de contista exímio cujo talento foi reconhecido por Nabokov, Bellow e Updike. No entanto, frisa José Riço Direitinho, «foi nos romances – escreveu cinco (que a Relógio d'Água tem vindo a publicar, Crónica de Wapshot, vencedor do National Book Award em 1958, é o terceiro) – que John Cheever mais explorou a dualidade da natureza humana, representada por conflitos entre dois personagens com diferentes visões da vida, quase sempre opostas.» Este livro é assim, segundo o crítico, «um exemplo do virtuosismo narrativo de Cheever e da sua assombrosa capacidade de observação.» Na revista LER de Abril.


Último livro de Turguénev recenseado no Ípsilon


A propósito de Fumo, de Ivan Turguénev, Rui Catalão procede à sua comparação, no Público de 2 de Abril, com Anna Karenina de Tolstói, para concluir que «O enredo, as características gerais dos protagonistas, temas e enfoque social até são comuns aos dois livros, mas a locomotiva emocional de Tolstói é substituída em Turguénev por subtis estados de intranquilidade.»
O eixo de gravidade do romance é assim, segundo este crítico, a descrição apurada das paixões da alma: «A arte de Turguénev revela-se na sua força maior quando a narrativa é suspensa para as personagens serem retratadas.»



Cossacos, de Lev Tolstói, na revista LER



«Esta novela», diz Dóris Graça Dias na revista LER de Abril, «é uma singela homenagem de Tolstói ao povo cossaco, caracterizado pela independência face aos senhores feudais e por uma forte relação com a terra e com as artes da guerra.» O interesse de Tolstói, porém, como sublinha DGD, incide concretamente no dilema do protagonista: «Sentindo-se rejeitado, só resta a Olénin regressar ao lugar que rejeitou, assumindo o drama de não pertencer a lugar nenhum.»

1.4.10

Adoecer de Hélia Correia Apresentado na Biblioteca Nacional


A obra de Hélia Correia e em particular o seu último romance Adoecer serão apresentados a 13 de Abril, terça-feira, pelas 17.30, no auditório da Biblioteca Nacional (Campo Grande 83, Lisboa). Esta iniciativa insere-se no programa Encontro com…, organizado pela Biblioteca Nacional e a Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas.

A Professora Isabel Fernandes apresentará Adoecer, uma obra de ficção inspirada em Elizabeth Eleanor Siddal e no seu encontro com o poeta e pintor Dante Gabriel Rossetti. O romance fala-nos também de todo o universo pré-rafaelita.

O Professor Ernesto Rodrigues abordará o conjunto da obra de Hélia Correia, que inclui dezassete romances e obras de teatro publicados na editora Relógio D’Água.

A organização desta iniciativa da Biblioteca Nacional é da Dra. Teresa Sobral Cunha.