9.9.09

Ulisses e a Escrita Simples


Em entrevista concedida à LER de Setembro, Miguel Sousa Tavares reafirma que «escrever bem» é «escrever simples», dando como exemplos Tchékhov e Hemingway.
Confrontado pelo entrevistador, Carlos Vaz Marques, com as obras de Faulkner e Joyce, o autor de O Equador reconhece já ter feito três tentativas para ler Ulisses e sentir dificuldades com Faulkner.
MST diz ainda que para ele um romance «é uma história bem contada» e denuncia os críticos que consideram best-seller sinónimo de falta de qualidade.
Antes de mais uma «declaração de interesses».
Na década de 90, MST editou na RA um livro de crónicas (Nómada no Oásis), outro de viagens (Sul) e um conto juvenil (O Segredo do Rio).
Não tive grandes contactos pessoais com MST, apenas um encontro e algumas conversas telefónicas, mas fiquei com a melhor impressão do seu rigor e relação com os livros. Não quis fazer uma quarta edição de O Nómada no Oásis por alguns textos se terem desactualizado e, quando saiu da RA, preocupou-se que os exemplares de Sul se esgotassem mesmo após a vigência do contrato, evitando assim a destruição de exemplares.
Do seu ponto de vista, MST teve razões para deixar a RA. Após alguma hesitação eu decidira não querer ser um editor de grande dimensão, o que seria necessário para lhe fornecer as possibilidades de promoção a que legitimamente aspirava. Também não desejava voltar a atenção para um ou dois autores, contrariando o princípio de tratar todos de igual modo.
Considero MST um excelente cronista e repórter. Como jornalista escreve bem, é frontal, tem ironia e sabe do que fala.
Não acompanhei a sua carreira literária, o que nada tem a ver com o facto de ser feita de bestsellers. As referências que tive dos seus romances não me encorajaram a fazê-lo e, sobretudo, é escasso o tempo que tenho para ler as centenas de livros que nas estantes todos os dias me acusam de desatenção. Pergunto-me quando terei tempo de acabar Vida e Destino de Vasily Grossman, de ler As Metamorfoses de Ovídio, reler Os Sonâmbulos de Hermann Broch, A Guerra e Paz de Tolstói, ou O Capital de Marx, na edição da Plêiade e incluindo o capítulo inédito em que prevê o surgimento de uma classe média ligada aos serviços. Há meses que tenho sobre a mesa O Caminho para a Realidade de Roger Penrose, A Tábua Rasa de Steven Pinker, os três tomos de Ernest Jones sobre a vida e obra de Freud e os diversos volumes de Memórias de Além-Túmulo de Chateaubriand.
Ou seja, provavelmente nunca irei satisfazer a vaga curiosidade que tenho pela ficção de MST.
Não se trata, pois, de analisar os romances e o quase-romance de MST, nem sequer de perceber a relação que têm com as suas afirmações sobre literatura. Só estas me interessam, pois vêm de um autor acompanhado por muitos leitores portugueses.

Escrita simples
Também eu gosto de autores cujo estilo é a aparente ausência de estilo, como Stendhal, Tchékhov, Hemingway, Philip Roth, Alice Munro e muitos outros.
Mas o conceito de escrita simples nada tem de evidente. Será a escrita que evita o vocabulário, a sintaxe complicados e as metáforas demasiado subjectivas? Ou aquela que, além disso, surge associada ao contar de uma história com «princípio, meio e fim»?
Mas como considerar simples a escrita de A Metamorfose de Kafka, que é tudo isso e ao mesmo tempo pode ser interpretada como alegoria social, psicanalítica ou religiosa?
Estará a simplicidade associada a um universo ficcional realista? Mas, num certo sentido, Ulisses é realista – o próprio Joyce considerou ser possível reconstruir, a partir do seu livro, uma Dublin destruída por terramoto.
Será então essa simplicidade inseparável de uma interpretação imediata e da ausência de técnicas narrativas sofisticadas?
MST refere Tchékhov e Hemingway como exemplos.
Porém, os leitores que têm acesso a Tchékhov em russo sublinham o ritmo das suas frases e a sua beleza estética. E como considerar simples uma escrita que, num só parágrafo de As Três Irmãs, ou no conto A Senhora do Cãozinho insinua um carácter e um destino? E como atribuir simplicidade aos diálogos de Hemingway que fazem sempre avançar a acção e que em duas réplicas de As Neves de Kilimanjaro nos dá o exacto estado de uma relação amorosa?
É tão difícil construir uma obra ficcional com uma aparentemente escrita simples, como com outra mais elaborada, em que são evidentes vários níveis interpretativos, alusões míticas ou desdobramentos metafóricos.
E esta última também pode dar grande prazer, quer numa ficção ensaística como Um Homem Sem Qualidades, com uma forte carga estética como A Morte de Virgílio de Broch, ou com uma sucessão de metáforas que enredam mesmo o fio narrativo como em António Lobo Antunes. O mesmo se poderia dizer de obras repletas de referências míticas como Debaixo do Vulcão de Malcolm Lowry ou refulgentes de jogos de palavras e de alusões literárias como o Ulisses de Joyce ou Ada ou Ardor de Nabokov.
Ou seja, a escrita simples de um grande autor nunca é simplificada e as suas fronteiras com a escrita mais elaborada é literariamente irrelevante.
Claro que há leituras mais difíceis que outras. Um clássico é, por definição, um livro que nos desafia a todo o momento para novas interpretações e por isso pode ser redescoberto por sucessivas gerações e em diversos momentos da vida. Só li todo o Ulisses à terceira tentativa. Na primeira não passei do episódio do colégio, na segunda encalhei um pouco mais adiante e ainda me resta fazer uma outra completa que tenha em conta as referências iniciais à Odisseia e me permita escutar o eco das palavras do cego Homero nas deambulações de Leopold Bloom num certo 16 de Junho de Dublin.
Li Na Minha Morte e O Som e a Fúria de Faulkner à segunda tentativa e, no início dos anos 70, a minha velocidade pessoal esbarrou com a lentidão de início de Em Busca do Tempo Perdido que três anos mais tarde me pareceu deslumbrante.
Espanta-me que MST, que elogia a persistência e o mérito na educação e na vida profissional e conhece o difícil prazer de viajar no deserto, não aplique igual critério à leitura de romances como se aí valesse apenas colher os frutos da facilidade, ou seja, o abandono ao fascínio do texto.
Perante essas obras temos de ter a mesma atitude que Antonio Muñoz Molina revela na Babelia do El País de 15 de Agosto:
«Ulisses atraiu-me e derrotou-me várias vezes ao longo dos anos, desde que comprei nos distantes anos 70 a edição de volumes brancos da Lumen traduzida por José María Valverde. Um leitor tem de ser sincero consigo próprio e tal como não deve envaidecer-se com os cumes que conquistou, também não deve envergonhar-se dos seus fracassos nem esconder a sua capitulação diante de uma obra-prima.»





Os riscos
Não é preocupante a defesa que MST fez da escrita simples, pois se trata de um escritor, não de um crítico. O problema está em que a chamada «escrita simples», na sua versão simplificada, ou seja, sem espessura literária é a que mais facilmente passa para o cinema, a televisão e outros media de suporte cada vez mais digital. Muitas vezes são romances menores, como os de D’Anuzzio adaptados por Visconti, que dão excelentes filmes, pois pouco ou nada se perde na transposição em imagens. Em contraste, obras mais densas e inseparáveis da criação da individualidade europeia, como Moby Dick, Em Busca do Tempo Perdido, Debaixo do Vulcão, Montanha Mágica e Retrato de Uma Senhora são por vezes rotundos fracassos, mesmo com grandes realizadores. É por isso que o facto de contos e romances tenderem a ser cada vez mais fornecedores de conteúdos para grandes empresas multimédia, em que a edição de livros é uma reduzida parte do negócio, aumenta o risco de marginalização da literatura.
E esse risco é tanto maior quando são cada vez menos os leitores que têm o vagar de uma sombra de Verão para lerem os romances em que cada dificuldade vencida é uma descoberta.

Uma boa história
É evidente que MST privilegia a narrativa tradicional.
Também não tenho particular interesse pela literatura nas suas fases experimentais. Rumo ao Farol não é a obra que prefiro de Virginia Woolf e mesmo que o meu inglês me permitisse ler Finnegan’s Wake no original, não me parece obra de que gostasse a avaliar pelos fragmentos traduzidos por Haroldo de Campos. E o mesmo poderia dizer de outras obras escritas para serem interpretadas, como algumas de Pynchon e D. F. Wallace, embora nada defina melhor a mediocridade de uma obra do que a possibilidade de a esgotarmos numa primeira leitura.
Gosto de «policiais» que, mesmo nos períodos de voga da literatura não narrativa, mantêm o princípio do suspense e a criação de personagens.
Não partilho também a critica feita a romancistas contemporâneos, como Iris Murdoch, por se recusarem a registar nas suas obras as inovações de Joyce e Beckett.
Aprecio romances com enredo original e como Jorge Luis Borges disse a propósito de A Invenção de Morel de Adolfo Bioy Casares estamos longe de ter esgotado as histórias bem contadas. E ainda me lembro do deslumbramento que foi ler, nos anos 70, Cem Anos de Solidão.
E, no entanto, existem excelentes romances que não têm propriamente uma história – A Morte de Virgílio de Broch, alguns volumes de Em Busca do Tempo Perdido, Ulisses de Joyce, O Homem Sem Qualidades de Musil, Molloy de Beckett, Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa e muitos outros.
É também evidente que contar bem uma história tem muito que se lhe diga, sendo, de resto, conhecida a afirmação de Hemingway de que uma boa história está longe de ser a garantia de um bom livro.
Tolstói deu-nos em Guerra e Paz o melhor romance histórico de sempre, através de uma narrativa em mosaico que nada tem de linear e onde os acontecimentos históricos surgem através das relações dos personagens, exceptuando a parte final que é um assumido ensaio.
E o que é que fará de Madame Bovary de Flaubert e de Anna Karénina romances clássicos quando os seus enredos se podem resumir a vulgares casos de adultério?
Por que é que a bem contada história de O Primo Basílio do nosso melhor romancista, para não falar já de Alves & Companhia e de muitas outras histórias de adultério, não possui a força de Madame Bovary nem de Anna Karénina? Por que razão Ema e Anna são inesquecíveis, ao contrário do que sucede com Luísa, prima de Basílio?
É também um enigma que os dois principais romances sobre o incesto tenham histórias contadas do modo mais diverso. No caso de Os Maias, os protagonistas permanecem quase até ao fim ignorantes do carácter incestuoso da sua relação, enquanto em Ada ou Ardor de Nabokov, é com alegre deliberação que o realizam.
E é difícil explicar a razão de, para muitos jovens, o início de A Cartuxa de Parma prenunciar, para usar a expressão de Italo Calvino, «o mais belo romance do mundo».
Como entender o milenar interesse pela Ilíada e Odisseia, que no século V a. C. foram consideradas, em Corinto, depois de uma apresentação pública, como obras sem futuro e que não valeria a pena transcrever para pergaminho, pois eram longas, repetitivas e repletas de frases intermináveis?
Há capacidades expressivas difíceis de definir e que não são redutíveis ao «contar bem» uma história. Mas alguns grandes pintores renascentistas, que entregavam aos seus discípulos parte da obra e reservavam para si apenas alguns aspectos, tinham a intuição do que estava em causa.

Best-sellers e qualidade
MST denuncia, com razão, os críticos que identificam best-sellers com falta de qualidade. Trata-se, com frequência, de opiniões de jornalistas inseguros do seu estatuto de críticos ou de críticos inseguros do seu estatuto universitário.
Vender muito não quer dizer falta de qualidade, até porque pode haver diversos níveis de leitura e interpretação. Existem excelentes romances que vendem milhões de exemplares, como Anna Karénina, O Grande Gatsby, Memórias de Adriano, Cem Anos de Solidão e Lolita e mesmo outros, mais acessíveis, como O Mundo de Sofia, O Nome da Rosa ou a recente trilogia de Stieg Larsson, (influenciada, na criação de uma personagem como Lisbeth Salander, pelo cinema de Tarantino, que, por sua vez, acolhe possivelmente em Sacanas sem Lei e em relação aos nazis, a ideia que ela teve de marcar com uma tatuagem o tutor que a violou). Podemos quando muito dizer que, infelizmente, as fórmulas dos best-sellers sem qualidade, como os de Dan Brown ou de Stephenie Meyer, são mais facilmente reprodutíveis. Basta ver as sequelas de enredos esotéricos e de vampiros castos até ao casamento e depois bons pais de família.
Podemos também acrescentar que, quando um êxito de vendas de um romance não se explica pelas suas qualidades narrativas, ele fica a dever-se a razões sociológicas ou à persona pública do autor. É por isso que o irónico artigo de Rogério Casanova sobre os livros de Stephenie Meyer surgido no último Expresso tem algo de incompleto ao não arriscar uma explicação sobre as razões de êxito de uma saga de vampiros castos nos tempos que correm.
E claro vender pouco também nada quer dizer.
Temos o caso dos romances que levam décadas a ser descobertos – Eça vendeu muito menos no seu tempo que Bulhão Pato e este é hoje apenas conhecido por uma receita de amêijoas e como personagem de Os Maias.
A História Universal da Infâmia de J. L. Borges vendeu dezoito exemplares quando surgiu na Argentina e mesmo em tempos recentes obras como as de Cormac McCarthy e de Bolaño demoraram anos a ser reconhecidas.

Francisco Vale

4.9.09

Livros da Relógio D’Água nos Media em Agosto

No suplemento Ípsilon do Público de 7 de Agosto, Francisco Luís Parreira (FLP) escreve sobre duas obras de Freud, Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade e Para Além do Princípio do Prazer, que considera «textos essenciais do fundador da psicanálise». Num texto que revela conhecimento aprofundado dos temas, FLP situa as duas obras referidas na evolução do pensamento de Freud.

No suplemento Actual do Expresso de 8 de Agosto, António Guerreiro (AG) escreve sobre a obra sua Violência do esloveno Slavoj Žižek e faz referência a uma outra obra também recentemente publicada, O Sujeito Incómodo. AG considera que:
«Žižek é um filósofo comprometido com a factualidade do presente, mas que reivindica a sua inscrição no idealismo alemão – dois pólos que estão bem representados por estes dois livros. O primeiro está do lado do Conceito, com maiúsculas, à medida da convocação hegeliana, e o subtítulo tem peso para nos introduzir a um tratado: “O Centro Ausente da Ontologia Política”. O segundo corresponde ao Žižek mais profano e interventivo.»
No mesmo número do Actual, Rogério Casanova (RC) fala sobre O Leilão do Lote 49 de Thomas Pynchon. RC refere que a tradução agora publicada, e que recupera a de 1987, foi revista com correcção de alguns lapsos, mas que introduzindo outros e sublinha que uma frase do texto original continua «misteriosamente truncada».
RC afirma que «surpreendentemente, para um livro tão imerso na atípica cultura hippie californiana, “Lote 49” envelheceu muito bem», mas acrescenta que «como com qualquer obra-prima que exija e recompense leituras repetidas, a última palavra pertence às próximas gerações».

Na revista Os Meus Livros de Agosto, Mónica Maia escreve sobre Cão em Fuga de Don DeLillo. A crítica afirma que:
«Neste romance de 1978, mas perfeitamente actual, são subtilmente visíveis as questões da guerra do Vietname, os seus efeitos sociais e as intenções políticas.»
No mesmo número de Os Meus Livros, Hélder Beja aborda Violência de Žižek, considerando que:
«O esloveno parece tão intelectual quanto um filósofo oitocentista e às vezes divertido como Jon Stewart numa edição do Daily Show.»
Ainda em Os Meus Livros, nas sugestões para o Verão, é recomendado Bullet Park de John Cheever.

No Actual do Expresso de 22 de Agosto, Ana Cristina Leonardo escreve sobre Hadji-Murat, uma obra póstuma de Lev Tolstói: «Hadji-Murat lê-se como um livro de aventuras. O destino (trágico) do protagonista vai-se desenrolando subtilmente à nossa frente, enriquecido por toda uma plêiade de personagens, pinceladas naquele jeito realista que torna qualquer obra de Tolstói num quadro a transbordar de vida».
No mesmo suplemento do Expresso, Carlos Bessa critica O Coração dos Ponders de Eudora Welty. Considera que ao ler esta novela nos tornamos «íntimos de personagens carismáticas, que acompanhamos nos seus episódios de loucura, enquanto observamos os contrastes sociais do velho sul norte-americano, com o seu quê de racismo e uma peculiar maneira de torcer o pescoço à vida».

No Ípsilon de 28 de Agosto, Pedro Mexia escreve sobre Bullet Park de John Cheever.
«Há no romance momentos de grande brilhantismo de escrita, da métrica das conversas banais à relação entre as Escrituras e as épocas do ano, mas Cheever, mestre da violência subentendida, levou à exasperação o conflito entre a aparência e realidade. E construiu uma denúncia demasiado denunciada. Bullet Park é um fracasso, embora um belo fracasso».

Na revista LER de Agosto é publicada uma entrevista com José Gil, a propósito de Em Busca da Identidade – o desnorte. Na entrevista, conduzida por José Riço Direitinho e com fotografias de Pedro Loureiro, José Gil faz uma análise da evolução da sociedade portuguesa nos últimos cinco anos e designadamente do actual conceito governamental de modernização, dos problemas da nossa identidade e aborda a «humilhação dos professores», a «reactivação do medo», a docilidade e a desobediência e o chico-espertismo de José Sócrates.
No mesmo número da LER, José Mário Silva critica O Leilão do Lote 49 de Thomas Pynchon, considerando-o uma obra-prima que lamentavelmente surge editada com numerosas gralhas.
Nos destaques de leitura, José Riço Direitinho fala de O Coração dos Ponders de Eudora Welty. Considera que:
«A história é contada num estilo coloquial, num discurso terno e irónico de grande poder narrativo, com sucessivas interpelações ao leitor. Welty, que também foi fotógrafa, retrata de maneira brilhante a vida numa pequena cidade sulista.»

29.7.09

Os «Melhores» Contos de Eudora Welty


A Relógio D’Água irá publicar em breve uma antologia com os melhores contos da autora norte-americana Eudora Welty, traduzida por Miguel Serras Pereira.




Eudora Welty nasceu em 1909, em Jackson, Mississípi, onde passou toda a sua vida.
Na juventude foi fotógrafa, percorrendo os mais variados locais do seu Estado natal e fixando as imagens de uma América profunda que mais tarde fariam parte dos seus contos.
Começou a ser conhecida como escritora depois dos 30 anos e a sua literatura foi marcada por uma espécie de qualidade «fotográfica» de paisagens físicas e sentimentais.
Como diz o escritor Juan Manuel de Prada, «muitas das narrativas de Eudora Welty são protagonizadas por crianças, mulheres cândidas e homens francos, que participam na vida como num banquete, por criaturas que parecem definitivamente imunes ao pecado original». Mas contêm também «episódios de perturbada inquietação, personagens excêntricas e solitárias que escondem uma reserva de sonhos que murcharam, de tentações ilícitas que assomam aqui e ali como uma espécie de pudica mas, ao mesmo tempo, orgulhosa obstinação».
Como a própria Welty escreveu no Prefácio às suas Collected Stories em Maio de 1970: «Têm-me dito, como elogio e crítica, que pareço gostar das minhas personagens. Aquilo que faço quando escrevo sobre uma qualquer personagem é tentar entrar na mente, no coração e na pele de um ser humano que não sou eu. Quer se trate de um homem ou de uma mulher, velho ou novo, com pele negra ou branca, o principal desafio é o salto em si. O acto da imaginação de um escritor sobrepõe-se a tudo.»
Eudora Welty escreveu cinco romances, The Robber Bridegroom, Delta Wedding, Losing Battles, The Optimist’s Daughter e O Coração dos Ponders, bem como uma antologia de contos, The Collected Stories of Eudora Welty.
Em 1971 publicou um álbum de fotografias intitulado One Time, One Place: Mississipi in the Depression – A Snapshot Album.
Ao longo da sua carreira, foi distinguida com vários prémios, entre os quais o Howells Medal for Fiction, em 1965, o Brandeis University Creative Arts and Letters em 1965 e o Pulitzer Prize em 1973.
A sua influência foi grande em vários escritores e designadamente em Truman Capote.
Eudora Welty faleceu em 2001.

Na Relógio D’Água tem editado O Coração dos Ponders.

Este livro reúne aquelas que consideramos serem as dez melhores histórias de Eudora Welty e que confirmam a autora como uma das principais contistas contemporâneas.
Todos os contos — Uma Notícia no Jornal, A Buzina, Clytie, Flores para Marjorie, Uma Cortina de Verdura, Caminho Batido, A Grande Rede, Leito Seco, Recital de Junho, Mulheres na Primavera — foram escritos ao longo de um período de três décadas. Eudora Welty formou com Flannery O’Connor e Carson McCullers o triunvirato feminino do «gótico» do sul dos Estados Unidos. Embora o seu olhar possa ser considerado o mais clemente do triunvirato, a verdade é que partilhou com ele a capacidade de explorar «essas regiões de luz e sombra onde se esclarecem os segredos mais bem guardados da natureza humana».

«A riqueza de um talento como este resiste a um resumo… Ela é sempre honesta, sempre justa. E bastante divertida. As histórias são magníficas.» [Maureen Howard, The New York Times Book Review]

«A ternura irónica de Tchékhov, a expressividade quase selvagem de Maupassant, o aspecto ameaçador de Poe e Bierce, a energia de Henry Green. Tem talvez o melhor estilo mozartiano de toda a literatura inglesa.» [Mary Lee Settle, Saturday Review]

27.7.09

Livros da Relógio D’Água nos Media (Semana de 20 a 26 de Julho)


No suplemento Ípsilon do jornal Público de 24 de Julho, Óscar Faria fala sobre Os Olhos de Himmler de Rui Nunes.

«É um livro imenso, este. Um texto que cruza, por vezes misturando-os, vários tempos, o passado e o presente. Os crimes de Heinrich Himmler – a 4 de Outubro de 1943, o comandante das SS proferiu o discurso de Posen, onde aborda directamente o extermínio dos judeus europeus -, participados por Andreas, que se prolongam na violência contemporânea.»




23.7.09

Livros da Relógio D’Água nos Media (semana de 13 a 19 de Julho)

No Semanário Sol de 17 de Julho, Filipa Melo escreve sobre Que o Diabo Leve a Mosca Azul de John Franklin Bardin (prefaciado por Ana Teresa Pereira), que considera «um dos expoentes máximos de perícia na criação de uma atmosfera ficcional terrivelmente perturbadora».
Filipa Melo acrescenta que o livro «merece uma primeira, uma segunda, uma terceira leitura, para total impregnação dos vários desenvolvimentos do que poderíamos chamar o acorde psicopatológico de Ellen».

16.7.09

Tradutores Literários, Precisam-se

Quase todos os editores têm na sala onde trabalham uma estante repleta para onde relanceiam às vezes um olhar inquieto. São as traduções «encalhadas» à espera de uma revisão que as torne publicáveis.
Resultaram de pedidos feitos a embaixadas para indicarem tradutores do sueco, japonês ou persa e que, apesar dos muitos anos no nosso país, produziram textos num português tão fluente como o dos manuais de aspiradores chineses.
Mas mesmo quando se teve a precaução de pedir a tradução a alguém que tem o português como língua materna, há catástrofes difíceis de corrigir, traduções do inglês, francês, castelhano ou alemão que passam ao lado, em que onde devia surgir «pálido» está «esbatido» e «furtivo» é confundido com «esquivo». E há também expressões idiomáticas tomadas à letra e alguém desastrado (fingers and thumbs) surge «inesperadamente» como tendo «dedos e polegares».
Encontrar um tradutor que tenha, para usar a expressão de Umberto Eco, uma «apaixonada cumplicidade» com o livro que traduz, é quase tão importante como descobrir um novo autor. E mais raro, já que os escritores vêm de qualquer parte do mundo e é difícil encontrar um bom tradutor que não tenha a língua materna como «língua de chegada» (embora não impossível, como o mostram as obras em inglês do russo Nabokov e do polaco Conrad).

Transportar água nas mãos
A tradução entre duas línguas naturais – falamos aqui apenas da literária – consiste em reproduzir um dado efeito emocional e intelectual, através de símbolos de uma outra língua. É, como diz Octavio Paz, «a arte da analogia, a arte das correspondências».
Como se pode constatar, usando um programa de tradução automática de português para alemão e desta língua de novo para a nossa, é um processo que nada tem de mecânico. Podemos fazer o teste com o início de Húmus ou um fragmento do Livro do Desassossego que o resultado é o mesmo, a incongruência. O dicionário e mesmo a enciclopédia são apenas pontos de partida, sendo decisivos a capacidade de contextualizar enunciados, o domínio da semântica e da sintaxe, a cultura geral e a inteligência no entendimento dos sentidos.
A tradução literária é, para usar uma metáfora que ouvi a Hélia Correia, como transportar água nas mãos em concha de um lugar para o outro. Por mais que se estreitem os dedos, perde-se sempre alguma coisa (as traduções que melhoram o original como as de Hölderlin, Rilke, Celan ou Borges são excepcionais).
O essencial é, pois, reduzir as perdas, manter o leitor na ilusão de que quem escreveu aquelas palavras, foi o próprio autor que provavelmente desconhece a língua. Na verdade, quem escreveu o D. Quixote que publicámos foi José Bento – e, no entanto, ao lê-lo, temos a sensação de estar debruçados sobre um texto escrito por Cervantes. O mesmo se poderia dizer de Em Busca do Tempo Perdido na tradução de Pedro Tamen, ou da Ilíada e Odisseia que Frederico Lourenço traduziu.
Para tornar possível esta convenção tacitamente aceite pelo leitor, essa «suspensão voluntária da incredulidade» de que falava Coleridge em relação à ficção, é necessário que os tradutores conheçam a estrutura interna da língua de partida, tenham um completo domínio do português e conheçam o estilo do autor de modo a poderem elaborar um duplo do texto original. Só assim é possível recriar a linguagem e o humor seiscentista de Cervantes, manter a sensação de nostalgia nas longas frases de Proust e ouvir, nos versos de Homero, o estrépito dos combates travados pela conquista de Tróia e o ardiloso regresso de Ulisses a Ítaca.
Ora em Portugal, apesar da crescente necessidade de tradutores criada pela integração europeia e a globalização, não se verifica ainda uma aprendizagem significativa de línguas como o mandarim, o hindu, o russo, o árabe, o japonês, o turco, o finlandês ou o sueco.
Mas até nas línguas ensinadas há problemas.

Tudo começa no ensino
Muitos candidatos a tradutores saídos das faculdades de letras ou dos mestrados do ISLA, dominam razoavelmente o inglês, castelhano, francês ou alemão. Conhecem também, em geral, as diferentes concepções sobre tradução, dos textos de S. Jerónimo ao Dizer Quase a Mesma Coisa de Umberto Eco, passando pelas teses sobre essa «fala pura» que subjaz às línguas de Walter Benjamin, a Paixão Crítica de Octavio Paz e o Depois de Babel de Steiner (há ainda contributos de Schleiermacher, Ortega, Nabokov, Hermann Broch e Javier Marías para aquilo que só forçando a nota se poderia designar por uma teoria da tradução). Muitas dessas ideias são importantes, sobretudo as daqueles que, mesmo sem experiência prática, são capazes de dar múltiplos exemplos como o poliglota Steiner ou que têm uma longa oficina de tradução como João Barrento e que é bem evidente em O Poço de Babel. E, por maioria de razão, é útil conhecer as concepções dos que não apenas traduziram, como Walter Benjamin, mas acompanharam, como Umberto Eco, o trajecto dos seus livros nas mais diversas línguas negociando as inevitáveis perdas e definindo limites interpretativos.
A verdade, porém, é que, apesar desse conhecimento das línguas de partida e do domínio das mais diversas experiências, são raros os bons tradutores de literatura mesmo do inglês, castelhano, italiano e francês.
É que no nosso ensino, os alunos não têm de ler vários livros por mês desde o básico, nem de escrever textos mais tarde discutidos, nem de estudar os clássicos portugueses. E só isso poderia assegurar um adequado domínio das possibilidades expressivas da língua.
Dentro de alguns anos haverá inúmeros portugueses a escrever e falar o anglo-americano. Se deles surgir uma dezena de bons tradutores de Jane Austen ou Cormac McCarthy seria excelente.
É também significativo que, apesar de ter havido milhares de portugueses que estudaram na URSS ou na Alemanha, tenhamos apenas três ou quatro tradutores de russo e meia dúzia de bons tradutores do alemão.

Uma actividade mal paga?
Claro que, chegado aqui, qualquer candidato a tradutor pensará: «Muito bem. É preciso dominar pelo menos duas línguas, ter conhecimentos de semântica, de sintaxe e de estilo e mesmo uma “apaixonada cumplicidade” com o autor. E tudo isto por uns míseros euros por página?»
O trabalho do tradutor literário é de facto mal pago em termos absolutos, mas não em relação aos outros participantes na actividade editorial.
Vejamos o exemplo de um livro traduzido com 340 páginas (nas de tradução, com 1800 bites, serão cerca de 400) e que na livraria custa 15€, tendo uma tiragem de 2000 exemplares e vendendo 1500, o que são valores habituais.
O tradutor recebe por página, de 8€ (casos do inglês, castelhano, italiano ou do francês) a 12€ (russo e alemão), pelo que consideraremos o valor intermédio de 9€. Por cada exemplar vendido, as principais livrarias recebem 38 por cento, o distribuidor 22 por cento, o autor 8 por cento, o tradutor 16 por cento e o editor 16 por cento. Se a tiragem se esgotar, a percentagem do tradutor desce para 12 por cento. Mas é preciso ter em conta que só o autor (no valor da «antecipação») e o tradutor recebem antes da edição e que este último é o único cujo pagamento não depende do número de exemplares vendidos (situação só alterada para certos clássicos no domínio público ou em casos de reedição). O editor e o distribuidor começam a receber pagamentos, em média, três meses após a edição.
Mesmo assim, é preciso que um bom tradutor goste de literatura para fazer dela o seu ganha pão. De outro modo é preferível financeiramente voltar-se para as instituições comunitárias ou nacionais e as revistas técnicas – embora, é claro, existam romances tão áridos como as estatísticas da produção leiteira na Polónia, brilhantes como os catálogos da Gulbenkian e intrincados como as performances de um automóvel.

Um trabalho criativo
Problema diferente é o de reconhecimento do papel dos tradutores, cuja associação, a APT, tem um funcionamento intermitente. Embora sejam equiparados a autores na legislação e os seus nomes figurarem nas páginas de rosto e por vezes nas capas dos livros, vêem poucas vezes analisado o seu trabalho. Ainda é frequente, nas críticas e recensões, não ser sequer mencionado o nome do tradutor. E, no entanto, sem eles não poderíamos ter lido Shakespeare, Cervantes, Tolstói, Rilke, Musil ou Faulkner na nossa língua. Benjamin, Octavio Paz e Steiner consideraram mesmo a tradução algo de muito semelhante à criação literária (Steiner abençoa mesmo a Torre de Babel, por ter multiplicado as línguas e por isso os modos de sentir, embora considere que todo o movimento de significados, até a mais banal das conversas, implica um acto de tradução).
E é também sabido que as línguas inglesa, alemã e francesa foram moldadas pelas traduções da Bíblia feitas por Tyndale, Lutero e Calvino.
Como escreveu Javier Marías: «O tradutor, ao enfrentar a sua tarefa, sente o texto original como uma ausência. O que conta para ele e para o seu trabalho é a ausência desse texto na sua língua, na chamada língua de recepção, e por isso no sistema de pensamento dessa língua. O tradutor não reproduz, não copia, não decalca (…). Plasma sempre pela primeira vez uma experiência única, irrepetível e intransferível; cria na sua língua aquilo que na sua cabeça está noutra língua.»
Francisco Vale

As Aventuras de Huckleberry Finn em nova tradução na Relógio D’Água

«Toda a literatura americana moderna vem de um livro de Mark Twain chamado Huckleberry Finn.» [Ernest Hemingway]

Na próxima semana, a Relógio D’Água publicará uma nova tradução (de Sara Serras Pereira) de As Aventuras de Huckleberry Finn de Mark Twain.


Este livro pode ser interpretado como uma simples história sobre as aventuras de um rapaz no Vale do Mississípi durante a segunda metade do século XIX. Mas a diversidade da experiência humana e as situações humorísticas e dilacerantes por que passa Huck fazem dele uma obra ímpar.
No meio dos mais diversos episódios a solidão faz com que Huck receie não fazer parte do mundo. Mas a solidão é-lhe necessária para sentir a liberdade ou pelo menos, usando a expressão de H. Bloom, «para não renunciar ao desejo de uma permanente imagem de liberdade».
Samuel Langhorne Clemens nasceu em Florida, no Missouri, em Novembro de 1835. Mark Twain, o pseudónimo jornalístico e depois literário que escolheu, era a expressão usada nos barcos do Mississípi pelo homem que deitava a corda de prumo e gritava, quando a sonda assinalava só duas braças de fundo: Mark twain! (Marca duas!). Em 1839, a família deslocou-se para Hannibal. Em 1847, o pai, modesto comerciante, faleceu. Seis anos depois, Mark Twain abandonou Hannibal e viveu, sucessivamente, em St. Louis, Cincinatti, Filadélfia e Nova Iorque. Foi aprendiz de tipógrafo, piloto de barco a vapor, voluntário no exército e pesquisador de ouro no Nevada até se tornar jornalista. Em 1862 começou a publicar artigos no Enterprise de Virginia adoptando o pseudónimo por que ficaria conhecido. Em 1865 escreveu o conto «The Celebrated Jumping Frog of Calaveras County» que se tornou um êxito. Mas foi em 1869 quando – no regresso da sua primeira viagem ao Mediterrâneo, Egipto e Palestina – publicou The Innocents Abroad, que passou a ser um escritor conhecido, tendo o livro vendido 150 mil exemplares. No ano seguinte passou a dirigir o Express de Buffalo e casou-se com Olivia Langdon. O casal fixou-se em Connecticut onde Twain viveu durante dezassete anos como um reconhecido e mesmo popular romancista e humorista. Foi nessa época que escreveu as suas principais obras, entre as quais Roughing It, As Aventuras de Tom Sawyer, Life on Mississipi e a sua obra-prima As Aventuras de Huckleberry Finn, em parte baseada em experiências da sua própria juventude.