17.6.09

A Família Portuguesa de Alice Munro

Do sempre atento escritor e encenador Jorge Silva Melo recebemos, por e-mail, uma notícia sobre a escritora canadiana Alice Munro, recentemente premiada com o Man Booker International Prize.


Francisco,

sabias que os Munro (de que faz parte a grande Alice) foram contraindo vários matrimónios desde a Irlanda natal… entre os quais com a francesa família Cid que casou com o Reynaldo (dos Santos) e veio a dar… o João Cid dos Santos, pai do Bartolomeu

ou seja, que Alice Munro é prima (quase direita) do Bartolomeu (e que parte dessa família Munro vive em Colares…)

o Bartolomeu andava há anos a tentar contactar essa distante prima (afinal, artista próxima…)

j

15.6.09

Livros da Relógio D’Água nos Media (semana de 8 a 14 de Junho de 2009)

No semanário Expresso, Ana Cristina Leonardo escreve sobre Os Adeuses de Juan Carlos Onetti (tradução de Hélia Correia e prefácio de Antonio Muñoz Molina).

«(…) “Os Adeuses”, história de um fracasso anunciado, termina em aberto, apesar da certeza da morte que tudo encerra. Uma obra-prima. (…)»

No mesmo número do Expresso, o poeta e crítico Manuel de Freitas fala-nos de As Duas Casas de Ana Teresa Pereira.

«(…) Aqui no suposto registo da chamada literatura juvenil, dão-se a ler as obsessões principais de uma escritora maior que não desiste de conviver com os seus avatares, sejam eles Swedenborg, Chesterton, Poe, Balzac, Conan Doyle ou Rilke. Não faltam, pois, sinistras bibliotecas, passagens secretas que levam para outros livros, anjos terríveis que só na pintura se tornam reais, casas e contos que se revelam duplos e contíguos. (…)»

Ainda neste semanário, Os Olhos de Himmler de Rui Nunes é abordado pelo ensaísta e crítico António Guerreiro.

«(…) A doença do olhar e o aspecto diabólico que ela determina na relação com o real é uma das linhas de sentido que atravessam todo o romance. Os olhos tornam-se uma metonímia do corpo e reflectem a dimensão do medo e do lado negro na relação com um mundo de onde Deus foi definitivamente banido. (…)»

9.6.09

A Avaliação dos Escritores e o Método das Estrelas


Perdidos no labirinto de uma avaliação burocrática os professores protestam nas ruas. A sua contestação é pública, colectiva e visível.
Tudo é diferente com os escritores. Desde logo, e à excepção de alguns jantares do Pen Clube, das Correntes d’Escritas, do acolhedor de Paraty e das sessões de autógrafos da Leya, é gente pouco dada a aglomerações. E, no entanto, também eles passaram da avaliação qualitativa para outra em que é visível uma expressão quantitativa. Os seus livros vão agora de uma bola negra à cintilação das cinco estrelas. A classificação que se justifica nos hotéis, onde é uma questão de tamanho de quartos e serviços de bar, e talvez faça sentido nas estrelas do Guia Michelin é de todo inadequado para literatura e ensaio.
Na apreciação dos filmes, o star system ainda tem algum sentido até porque são vários os críticos a pronunciar-se, o que permite pelo menos conhecer o seu gosto depois de vermos os filmes. Mas é difícil encontrar vários críticos disponíveis para lerem, em tempo útil, o mesmo livro, sobretudo os com mais de duzentas páginas de letra poupada.
E o resultado é o que se sabe. Acompanha-se a tradicional apreciação qualitativa, intuitiva e eventualmente apaixonada de uma obra com uma grosseira avaliação numérica.
Há sempre leitores interessados nas críticas antecedidas por quatro ou cinco estrelas e, por sadismo, nas que caem num «buraco negro». Mas quem estará disposto a ler a crítica antecedida com uma, duas, ou mesmo três estrelas, feita a um autor que se desconhece?
E se são atribuídas cinco estrelas a obras como o London Fields de Martin Amis, como será possível classificar, na mesma escala, a Odisseia, o Rei Lear, o D. Quixote, As Folhas de Erva, A Morte de Virgílio, Em Busca do Tempo Perdido ou o Ulisses?
Ou falando de ciência , se A Evolução para Todos de David Sloan tem cinco estrelas, quantas seriam necessárias para classificar A Origem das Espécies ou A Origem do Homem e a Selecção Sexual? Será que daqui a alguns séculos ainda se ouvirá falar de London Fields e de David Sloan? Não estaremos perante constelações diferentes?
E terá algum sentido lógico que, por exemplo, Rogério Casanova atribua duas estrelas aos Contos Completos I de John Cheever e Eduardo Pitta lhes conceda cinco? Será Cheever duas vezes e meia melhor que Cheever, ou seja, será Cheever muito superior a si próprio?
Uma das poucas «vantagens» do método das estrelas é evidenciar «absurdos» como os de um livro, com apenas duas estrelas, de Tom Wolfe, Eu Sou a Charlotte Simmons, ter um destaque gráfico que está de todo ausente em Diários de Viagem de Eduardo Salavisa, que fez o pleno no mesmíssimo número do Expresso.
Claro que lendo os textos dos críticos talvez alguns destes absurdos, facilmente multiplicáveis, deixem de o ser. Mas isso não anula a confusão gerada pelo método quantitativo.
Este processo é ainda pior por se voltar contra os críticos que o consentem. É que o seu trabalho é, no melhor dos casos, uma disciplina da literatura, o ensaio literário e, como tal, passível de abertura à interpretação dos leitores. Ao pactuar com a avaliação quantitativa, os críticos estão a tornar menos interessante a sua actividade fechando a porta da subjectividade na cara dos leitores.

Francisco Vale

Porquê Edgar Allan Poe?


Não são muitas as obras de Poe que tenho vontade de reler – o longo poema Eureka, as novelas que iniciaram o género policial e alguns contos indiscutíveis.
Não considero Poe um clássico e estou de acordo com Harold Bloom, que o excluiu do cânone ocidental, embora reconheça ser o mais conhecido escritor norte-americano; ou com Borges, que, «apesar das redundâncias e fraquezas de que sofre cada página», aceita a sua glória.
De facto, poucos escritores tiveram maior capacidade de «contaminação» que Poe. Sob esse aspecto, é comparável a Walt Whitman, Borges ou Pessoa. As obras de Poe influenciaram Dostoiévski, Stevenson, André Gide, e Ginsberg, realizadores como D. H. Griffith e numerosos poetas franceses, incluindo o sofisticado Valéry. Para escritores como Baudelaire que o traduziu e rezava por ele todas as noites, era uma referência obsessiva.
É conhecida a tradução que o autor de As Flores do Mal fez dos seus contos e a versão em prosa feita por Mallarmé de O Corvo influenciou o moderno verso livre europeu quase tanto como as Folhas de Ervas.
Poe inventou o género policial – melhor seria dizer que o «descobriu», pois O Mistério de Marie Rogêt é a reconstituição de um crime real. De qualquer modo iniciou a história de detectives em O Mistério de Marie Rogêt, Os Crimes da Rua Morgue e A Carta Roubada, um género de que o muito original Fernando Pessoa teve alguma dificuldade em desviar-se – depois de o ter mimetizado em A Very Original Dinner. Sem Poe, nem Doyle, nem Collins ou mesmo Chesterton teriam sido possíveis ou os mesmos.
Walter Benjamin sublinhou a importância do conto O Homem da Multidão na criação da literatura em que o indivíduo se perde nas massas urbanas.
Foi sobretudo esse aspecto de «contaminação» que levou à decisão da Relógio D’Água editar duas obras de Poe, O Corvo, que muitos poetas, a começar por Pessoa, traduziram, e o Mistério de Marie Rogêt e O Barril do Amontillado (não fizemos acompanhar O Corvo da conhecida Filosofia da Composição por nos parecer uma mistificadora justificação, a posteriori, do poema.
O nosso projecto será completado com a publicação de vários contos, entre os quais O Caso do Sr. Valdemar, Manuscrito Achado Numa Garrafa, Uma Descida ao Maelstrom e Ligeia.
Para quem se interessa pela vida dos autores, a mais sintética biografia de Poe é dada por J. L. Borges em Edgar Allan Poe – Histórias Extraordinárias, um dos seus Prólogos publicados na Obra Completa.

Francisco Vale

Evelyn Waugh na Relógio D’Água

A Relógio D’Água vai publicar as Obras Escolhidas de Evelyn Waugh. Além do já saído Reviver o Passado em Brideshead, serão editados Declínio e Queda, Corpos Vis, Malícia Negra, Enviado Especial e a trilogia Homens em Armas, Oficiais e Cavalheiros e Rendição Incondicional.
Em Portugal estão publicados na Cotovia outros livros do autor, como Ente Querido e Um Punhado de Pó.





Evelyn Waugh nasceu em Hampstead em 1903. Estudou em Lancing e no Hertford College em Oxford, onde cursou História Moderna. Em 1927 publicou um livro sobre a vida de Dante Gabriel Rossetti e, em 1928, o seu primeiro romance, Declínio e Queda, em breve seguido de Corpos Vis (1930), Malícia Negra (1932), Um Punhado de Pó (1934) e Enviado Especial (1938). Durante estes anos viajou por quase toda a Europa, Próximo Oriente, África e América do Sul e publicou vários livros de viagens, incluindo Remote People (1931), e Waugh in Abyssinia (1936). Em 1939 foi oficial nos Royal Marines e, mais tarde, nos Royal House Guards, servindo no Médio Oriente e na Jugoslávia. Em 1942 publicou Put Out More Flags e, em 1945, Reviver o Passado em Brideshead. Seguiram-se diversos romances, entre os quais Oficiais e Cavalheiros e Rendição Incondicional. Em 1961 publicou a última obra, A Little Learning, o primeiro volume de uma autobiografia, falecendo cinco anos mais tarde.

8.6.09

1 de Gonçalo M. Tavares Recebe Prémio de Poesia em Belgrado



O livro de poesia 1, que Gonçalo M. Tavares publicou na Relógio D’Água em 2004, recebeu o prémio Treci Trg’ no Festival de Poesia de Belgrado que se realizou em várias cidades da Sérvia, de 25 a 31 de Maio passado.
O escritor português partilhou o prémio com Brian Henry (EUA) e Adam Wiedemann (Polónia). As suas três obras vão ser agora publicadas em edições bilingues, nos idiomas originais e sérvios.
Durante o Festival, Gonçalo M. Tavares participou num encontro em que alguns estudantes de Português leram os seus poemas em sérvio.
Como convidado do Instituto Camões, o autor de Jerusalém deu ainda a aula de encerramento do ano lectivo do Leitorado de Português, na Faculdade de Filologia de Belgrado.
Gonçalo M. Tavares debateu com o grupo Teatro da Cidade Branca a peça que esta companhia universitária levou à cena em 2008, intitulada As três pessoas ou o Sr. Valery dizia..., baseada precisamente num dos livros da série Bairros.
Gonçalo M. Tavares editou recentemente Breves Notas sobre as Ligações – Llansol, Molder e Zambrano (no catálogo da Relógio D’Água figuram também as suas obras A Perna Esquerda de Paris Seguido de Roland Barthes e Robert Musil, Breves Notas sobre Ciência e Breves Notas sobre o Medo).
Gonçalo M. Tavares é já o escritor português vivo mais traduzido depois de José Saramago e António Lobo Antunes.
Os três livros da Enciclopédia — Breves Notas sobre Ciência, Breves Notas sobre o Medo e Breves Notas sobre as Ligações — vão sair brevemente em Espanha, Brasil e México.

5.6.09

Keynes, Freud, o Brasil e o Acordo Ortográfico

O crescente poder negocial dos editores brasileiros e a aplicação do Acordo Ortográfico vão acentuar as graves distorções na publicação de livros em Portugal.
A Relógio D’Água vai lançar uma antologia de J. M. Keynes, A Grande Crise e Outros Textos, antes mesmo de poder divulgar a sua obra principal, A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, a mais importante contribuição para a teoria económica no século XX. Isto porque um editor do Brasil adquiriu os direitos para toda a língua portuguesa e recusou a sua subcedência, por tencionar usar o Acordo Ortográfico para relançar a exportação da obra para Portugal, Angola e Moçambique.
Também a edição das Obras Escolhidas de Freud na Relógio D’Água teve um percurso irregular por uma editora brasileira ter adquirido direitos para a língua portuguesa. Foi assim que publicámos várias obras de Freud no período em que este esteve no domínio público, quando este se iniciava 50 anos após a morte do autor. Conseguimos negociar recentemente seis títulos de Freud. Os restantes só podem sair a partir de Janeiro de 2010, quando Freud regressar de novo ao domínio público (agora 70 anos post mortem).
O mesmo problema existe para O Ser e o Tempo de Heidegger, e muitas outras obras de referência.
Poderá dizer-se que para o leitor português não há grande diferença entre adquirir uma obra editada em Portugal ou no Brasil, desde que a possa fazer numa livraria do nosso país. Ora não só a sintaxe da língua se mantém diferente e o Acordo deixa em aberto soluções alternativas, como a terminologia científica em psicanálise e economia e outras disciplinas é muito diferente nos dois países.
As obras publicadas no Brasil com direitos para toda a língua portuguesa muitas vezes nem sequer chegam cá e quando aparecem é a um preço exorbitante e apenas em Lisboa ou no Porto. Além disso, as traduções não passam pelo crivo da crítica portuguesa, ficando os leitores na ignorância prévia de se vale ou não a pena comprar o livro.
A situação só poderá ser atenuada com uma estratégia das editoras portuguesas que passe por uma negociação antecipada com as agências internacionais, um investimento mais selectivo em obras de referência, e a instalação no mercado brasileiro – quer directamente, quer por associação com editoras aí existentes.

Francisco Vale






Obras Escolhidas de Freud publicadas na Relógio D’Água:
Uma Recordação de Infância de Leonardo da Vinci
Psicopatologia da Vida Quotidiana
Moisés e Monoteísmo
Totem e Tabu
Sobre os Sonhos
O Mal-Estar na Civilização
Autobiografia Intelectual
Para Além do Princípio do Prazer
Três Ensaios sobre Teoria da Sexualidade
A Interpretação dos Sonhos
A publicar:
Cinco Lições sobre Psicanálise
Os «Ditos de Espírito» na sua relação com o Inconsciente
A Gradiva de Jensen
Luto e Melancolia
Sobre o Narcisismo
Inibição, Sintoma e Angústia
Porquê a Guerra? (com Albert Einstein)
Cinco Psicanálises (Dora, O Homem dos Lobos, O Homem dos Ratos, O Pequeno Hans e O Presidente Schreber)