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19.4.10

Rui Lagartinho sobre Hélia Correia



«Adoecer, de Hélia Correia, é um livro fascinante na forma e no conteúdo. Na forma porque dá asas literárias aos limites da História. No conteúdo porque ousa ser singular ao abordar a vida de um conjunto de criadores artísticos do século XIX inglês que ficaram conhecidos como pré-rafaelitas, um universo muito pouco frequentado pelos romancistas portugueses.»

«Adoecer é seminal na definição do romantismo para leitores até agora distraídos: uma teia intricada de um mal-estar melancólico, febril, que se projecta num futuro que pedirá uma arqueologia amorosa como a que Hélia Correia exerce quase 150 anos depois de Lizzie estar morta e com ela ter sido enterrada uma parceria artística e amorosa fundamental para compreender uma página importante da História da arte ocidental.»

in Time Out, 14-20ABR


9.4.10

Jaime Rocha em entrevista sobre Necrophilia



«É como se estivesse assombrado por uma imagem, por aquela Ofélia morta. Na minha tetralogia ora está viva ora está morta. Como se o poeta tivesse o poder de matar e ressuscitar, o poder de se apropriar daquela imagem, daquela pessoa. No fundo, é o desejo de possuir o Outro que atravessa os livros. E falo da sua impossibilidade, que cria a violência e a crueldade. Tudo isto é uma assombração, uma visão.»

«O fascínio por essa imagem da Ofélia pode mesmo ter que ver com o fascínio que sempre tive pela morte. Talvez por ter nascido numa terra de luto, a Nazaré, e ter vivido muito próximo dessas imagens de choro e dor, das mulheres dos pescadores vestidas de negro. Era um mundo muito forte, que me amedrontava. Foi  só transpor esse quotidiano de vida para o meu universo literário. A escrita é nesse sentido o prolongamento da minha infância. Por isso, a morte, o mal, a imperfeição estão em toda a minha obra. Daí que as minhas personagens todas tenham defeitos e que as minhas peças nunca tenham um happy end. Não o procuro. Simplesmente, talvez tenha um certo medo da perfeição. Se a minha poesia fosse perfeita, acabava.» (JL 24MAR)

Crónica de Wapshot na Time Out



«Cheever», escreve Sara Figueiredo Costa, «tinha criado uma saga familiar à altura da melhor literatura, rompendo regras estilísticas e estruturas canónicas e deixando, com o osso à vista, o melhor do temário e da vocação universal da literatura norte-americana.» Depois de uma breve sinopse do enredo, SFC conclui: «Cheever domina, levando a patamares superiores, a mecânica perniciosa das relações familiares, mas é o registo dos pequenos episódios, dos momentos de evasão individual e das esperanças mais insignificantes por entre o correr dos dias que faz brilhar a saga dos Wapshot.» (Time Out, 7-13 ABR)


8.4.10

Hélia Correia em entrevista sobre o seu último livro



«Foi uma paixão pela imagem, pelo quadro da "Ofélia", do [John Everett] Millais (1851-52). Uma grande paixão, um "coup de foudre". Essa imagem acompanhou-me sempre. E depois [continuou] durante a vida, sempre com a minha fortíssima anglofilia a dominar sobre a minha formação românica, francesa. Tem sido sempre assim e isso é uma coisa boa que me tem acontecido: como não é uma cultura académica, é sempre uma descoberta pessoal, não vai orientada por ninguém. Aos poucos, com todo o século XIX inglês, fui descobrindo a existência de personagens. Descobri que aquela figura se chamava Elizabeth Siddal.»

«A Lizzie é diferente porque - e aí já vamos ao coração da coisa - ela não é uma tela na qual o Gabriel [Rossetti] pinta, não é uma mulher-lua, nesse sentido de ser uma superfície plana. O que sinto que acontece é que, enquanto todas as outras mulheres foram escritas por esse ideal, ela foi o ser vivo que incarnava esse ideal sem que ninguém lhe inscrevesse nada. Até porque ela nunca se transformou, nunca se modificou nem para agradar, nem para desagradar. Surgiu como uma pintura viva, intocada pelos artistas. Não foram eles que a construíram, construiu-se sozinha segundo o ideal daqueles homens, e muito especial, segundo o ideal de Gabriel Rossetti.»

«[Lizzie] assustava. Assustava os homens. E com a sua parte de doente, frágil, e de desprotegida, enternecia as mulheres. O erotismo que emanava dela não era um erotismo directo, não era a carne que falava. Era de tal modo embrulhado em mito, o do cabelo vermelho, e inspirado pela distância, tão grande, que os homens, para entenderem, para continuarem a viver no mesmo meio, se consolavam em afirmar o oposto: que era frígida, que não era tão bela quanto isso, que era muito magra, antipática, mal-educada. É a reacção masculina a um feminino que é misterioso, e que tem uma coisa muito irritante para os homens: ela não quer saber deles. Há a típica mulher fatal que é a mulher misteriosa que emana um apelo de sereia, que, quando canta, canta para que o homem a ouça. Lizzie é completamente indiferente ao que pensem, ao que sintam os homens. Só lhe interessava a arte, o envolvimento poético e mítico daquela relação, e o Gabriel Rossetti.»

Da entrevista de Raquel Ribeiro a propósito do livro Adoecer. (Público, 24MAR)

7.4.10

António Guerreiro sobre Mãe-do-Fogo


Sobre o livro Mãe-do-Fogo, António Guerreiro diz: «Entre os desenhos de João Cruz Rosa e os poemas de João Miguel Fernandes Jorge não há uma relação ilustrativa nem de interpretação: cada uma das secções do livro é autónoma. Mas não há na poesia portuguesa contemporânea um diálogo mais fecundo com a arte irmã da poesia do que aquele que este poeta tem desenvolvido.» Na revista Actual de 27 de Março.


6.4.10

José Riço Direitinho sobre John Cheever



John Cheever ganhou fama de contista exímio cujo talento foi reconhecido por Nabokov, Bellow e Updike. No entanto, frisa José Riço Direitinho, «foi nos romances – escreveu cinco (que a Relógio d'Água tem vindo a publicar, Crónica de Wapshot, vencedor do National Book Award em 1958, é o terceiro) – que John Cheever mais explorou a dualidade da natureza humana, representada por conflitos entre dois personagens com diferentes visões da vida, quase sempre opostas.» Este livro é assim, segundo o crítico, «um exemplo do virtuosismo narrativo de Cheever e da sua assombrosa capacidade de observação.» Na revista LER de Abril.


Último livro de Turguénev recenseado no Ípsilon


A propósito de Fumo, de Ivan Turguénev, Rui Catalão procede à sua comparação, no Público de 2 de Abril, com Anna Karenina de Tolstói, para concluir que «O enredo, as características gerais dos protagonistas, temas e enfoque social até são comuns aos dois livros, mas a locomotiva emocional de Tolstói é substituída em Turguénev por subtis estados de intranquilidade.»
O eixo de gravidade do romance é assim, segundo este crítico, a descrição apurada das paixões da alma: «A arte de Turguénev revela-se na sua força maior quando a narrativa é suspensa para as personagens serem retratadas.»



Cossacos, de Lev Tolstói, na revista LER



«Esta novela», diz Dóris Graça Dias na revista LER de Abril, «é uma singela homenagem de Tolstói ao povo cossaco, caracterizado pela independência face aos senhores feudais e por uma forte relação com a terra e com as artes da guerra.» O interesse de Tolstói, porém, como sublinha DGD, incide concretamente no dilema do protagonista: «Sentindo-se rejeitado, só resta a Olénin regressar ao lugar que rejeitou, assumindo o drama de não pertencer a lugar nenhum.»